Ledger ou Trezor: qual escolher em 2026
Trezor, para a maioria. O firmware é aberto e auditável, a Safe 3 custa US$ 59 contra US$ 79 da Ledger equivalente, e a Ledger vazou nome, telefone e endereço residencial de 272.853 clientes em 2020 — um dado que não se recolhe e que alimenta golpe até hoje. A Ledger ganha em duas situações concretas: variedade de moedas e uso pelo celular por Bluetooth.
A diferença que realmente separa as duas
Tirando preço e formato, existe uma única diferença de fundo entre as duas marcas, e todo o resto decorre dela.
O firmware da Trezor é aberto. Qualquer pessoa pode ler o código que roda dentro do aparelho e verificar o que ele faz. O firmware da Ledger é fechado, e a garantia de que ele se comporta como anunciado é a palavra da empresa mais o chip seguro que ela usa.
Para quase todo mundo, no dia a dia, isso não muda nada — as duas guardam a chave e assinam transação. A diferença aparece quando a palavra da empresa é posta à prova, e em maio de 2023 ela foi. Ao lançar o Ledger Recover, um serviço opcional que fragmenta uma cópia cifrada da sua frase entre três custodiantes, a Ledger deixou claro que o aparelho podia extrair material da chave através de uma atualização de firmware aprovada pelo usuário. Não havia porta dos fundos, e ninguém demonstrou roubo por esse caminho. Mas muita gente tinha entendido que aquilo era fisicamente impossível, e não era. Com código aberto, essa discussão se resolve lendo; com código fechado, ela se resolve confiando.
Preço, modelo a modelo
Comparando os equivalentes de cada faixa, a Trezor é mais barata na fábrica em todas elas. No Brasil, os modelos de entrada empatam e a diferença aparece nos modelos com tela.
| Faixa | Trezor | Ledger | Quem sai na frente |
|---|---|---|---|
| Entrada | Safe 3 — US$ 59, a partir de R$ 588 | Nano S Plus — US$ 79, a partir de R$ 588 | Trezor na fábrica; empate no Brasil |
| Intermediário | Safe 5 — US$ 129, R$ 1.327 a R$ 1.397 | Nano X — US$ 149, R$ 1.397 | Trezor no preço; Ledger se você quer Bluetooth |
| Tela grande | Não tem equivalente | Flex — US$ 249, R$ 2.849 a R$ 2.999 | Ledger, por falta de concorrente |
| Topo | Não tem equivalente | Stax — US$ 399, a partir de R$ 4.999 | Ninguém: é acabamento, não segurança |
| Só Bitcoin | Safe 3 e Safe 5 têm edição bitcoin-only | Não oferece | Trezor |
O histórico das duas, sem arredondar
As duas já tiveram problema. Eles são de naturezas diferentes, e é essa diferença que deveria pesar na sua escolha.
Ledger: vazou o cliente, nunca a chave. Em 25 de junho de 2020 alguém acessou o banco de dados de e-commerce e marketing da empresa. O vazamento só foi descoberto em 14 de julho e, em 20 de dezembro daquele ano, o conteúdo apareceu num fórum de hackers: 1.075.382 endereços de e-mail e 272.853 registros com nome, endereço residencial e telefone. Nenhuma chave privada foi exposta, e nenhum bitcoin saiu de nenhum aparelho por causa disso. O estrago é outro e é permanente: existe hoje uma lista pública associando pessoas a endereços de casa e a um aparelho que guarda cripto. Desde então, esses clientes recebem e-mails pedindo a frase de recuperação, aparelhos falsos pelo correio e mensagens de extorsão com ameaça física — que só funcionam porque quem escreve sabe onde a pessoa mora. Escrevemos sobre isso em O Cavalo de Troia da Ledger.
A Ledger teve ainda, em dezembro de 2023, uma biblioteca sua usada por sites de terceiros substituída por uma versão maliciosa, depois que um ex-funcionário caiu em phishing. Ficou cerca de cinco horas no ar, e o hardware não foi afetado. Cobrimos em Ledger sofre ataque e afeta todo ecossistema.
Trezor: a chave sai, se tiverem o aparelho. Em 2020 a Kraken Security Labs demonstrou extrair a semente de um Trezor One ou Model T com quinze minutos de acesso físico, manipulando a tensão do microcontrolador para contornar a proteção e depois quebrando o PIN por força bruta. A Kraken estimou em cerca de US$ 75 o custo de montar o aparelho de ataque. Isso é grave para quem viaja com o dispositivo, mora com pessoas em quem não confia ou pode ser alvo de roubo direcionado — e irrelevante para quem deixa o aparelho guardado em casa.
A Trezor também teve, em janeiro de 2024, o acesso não autorizado a um portal terceirizado de suporte, expondo e-mail e nome de até 66 mil pessoas. Cerca de 41 receberam mensagem pedindo a frase. É o mesmo tipo de problema da Ledger, em escala muito menor e sem endereço residencial.
Resumindo a diferença de risco: com a Ledger, o problema te encontra em casa e você não pode desfazer. Com a Trezor, o problema exige que alguém esteja com o seu aparelho na mão.
Quando a Ledger é a escolha certa
Não somos contra a Ledger, e há dois casos em que ela é a resposta.
Se você tem muitas moedas diferentes. O ecossistema de aplicativos da Ledger cobre mais redes, e cobre mais cedo. Quem opera em várias cadeias vai encontrar menos atrito.
Se você quer usar pelo celular sem fio. A Nano X tem Bluetooth e a Trezor não oferece isso em nenhum modelo. Se a sua rotina é assinar transação pelo telefone, a diferença é prática e diária.
E um caso em que ela não é: comprar a Stax por segurança. Ela custa US$ 399 na fábrica e a partir de R$ 4.999 no Brasil, e não protege sua chave melhor que uma Safe 3 de US$ 59. O que você compra ali é tela curva e acabamento.
O que fazer se você já tem uma Ledger
Não precisa trocar de aparelho. O vazamento de 2020 não comprometeu nenhuma chave, e o aparelho que você tem continua fazendo o trabalho dele.
O que muda é como você trata o que chega até você. Assuma que seu e-mail, telefone e endereço estão numa lista pública associada à posse de cripto, e trate qualquer contato não solicitado como golpe até prova em contrário. Nenhum fabricante, em nenhuma circunstância, pede a frase de recuperação. Não há atualização, validação, migração ou verificação de segurança que exija aquelas palavras. Se pediram, é golpe — inclusive se vier num aparelho novo, lacrado, entregue pelo correio na sua casa, com uma carta bem escrita explicando que o seu foi recolhido.
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Como chegamos a esta comparação
- Preço lido no site de cada fabricante e no da revendedora brasileira em 17 de setembro de 2026.
- Incidentes com data, número e fonte primária. Onde a cifra que circula não tem documento de origem, dizemos que não confirmamos.
- Comparamos o que muda a decisão: licença do firmware, histórico, preço e compatibilidade. Não comparamos acabamento nem embalagem.
- Nenhuma das duas empresas nos paga, e nenhum link desta página é de afiliado.
Perguntas frequentes
Ledger ou Trezor para quem está começando?
Trezor Safe 3. É a mais barata das duas, tem firmware aberto e está disponível na revenda oficial brasileira a partir de R$ 588, com garantia nacional.
A Ledger é insegura por causa do vazamento de 2020?
O aparelho não ficou inseguro: nenhuma chave privada foi exposta. O que vazou foi o cadastro de clientes, incluindo endereço residencial de 272.853 pessoas. O risco que isso cria é de golpe direcionado e de roubo físico, não de falha técnica da carteira.
O Ledger Recover é uma porta dos fundos?
Não, e a empresa nega que seja. É um serviço opcional e pago que fragmenta uma cópia cifrada da frase entre três custodiantes. O que ele revelou é que o aparelho pode extrair material da chave por meio de atualização aprovada pelo usuário, o que muita gente acreditava ser impossível.
Trezor Model One ainda é vendida?
Não. A própria Trezor descontinuou o modelo e indica a Safe 3 no lugar. Revendedores ainda têm estoque, mas comprar um modelo descontinuado para guardar valor por anos é uma escolha ruim.
Existe carteira melhor que as duas?
Depende do que você valoriza. Se quer verificar que o programa instalado é exatamente o código publicado, a BitBox02 oferece isso e nenhuma das duas oferece. Se guarda só bitcoin e quer um aparelho que nunca toca num computador, a linha Coldcard atende — com a ressalva séria do problema de aleatoriedade nos firmwares de 2021 até julho de 2026.
Para ir mais fundo
- O Cavalo de Troia da Ledger
- Ledger Sofre Ataque e Afeta Todo Ecossistema
- Imersão em Auto-Custódia [pt.1]
Perguntas próximas a esta
Fontes
- Preços de Ledger e Trezor lidos nos sites dos fabricantes e da KriptoBR em 17/09/2026
- Ledger, comunicado do CEO sobre o vazamento de 2020, e contagem de 1.075.382 e-mails e 272.853 registros detalhados conforme apuração da BleepingComputer de dezembro de 2020
- Kraken Security Labs, demonstração de extração de semente em Trezor One e Model T, 2020
- Trezor, comunicado sobre o acesso não autorizado ao portal de suporte em janeiro de 2024
- Trezor, página do Model One informando a descontinuação do produto