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💰 Yield em Bitcoin

Uma comparação entre as diferentes maneiras de conseguir juros em seus Bitcoins. Como obter rendimentos atrativos, sem abrir mão da segurança?

O Poder dos Juros

Antes de começar, temos que definir dois conceitos importantes: APR e APY - Annual Percentage Rate e Annual Percentage Yield.

Ambos indicam a taxa de juros anual de algum produto, porém o APY leva em conta juros compostos, enquanto o APR considera juros simples. A diferença, no longo prazo, é gritante.

A mágica - ou melhor, matemática - do juros compostos, somado ao ganho de valor do Bitcoin com o tempo, pode ter impactos profundos no seu portfólio. 

Vamos abordar diferentes maneiras de obter yield em seu Bitcoin. Opções centralizadas, descentralizadas e até mesmo como obter rendimentos nativamente, usando a própria blockchain do Bitcoin.

Plataformas Centralizadas

Plataformas de empréstimo como a Celsius, Nexo e BlockFi oferecem juros que variam de acordo com a quantidade de BTC depositada. No gráfico abaixo está o APY pago por cada serviço - atenção pois essas taxas são atualizadas constantemente.

E de onde vem esses juros? As plataformas usam os fundos depositados por seus usuários para fornecer empréstimos a terceiros, cobrando uma taxa para isso. Esses terceiros são em sua maioria corretoras que tenham a modalidade de margin trade. No caso da BlockFi, ela também usa seus fundos para comprar ações e contratos futuros de commodities.

Corretoras como a Binance e Crypto.com também oferecem uma modalidade earn, onde é possível colocar seus BTC em uma “conta poupança”. A taxa paga varia de acordo com o período que você trava suas moedas, e mais informações podem ser encontradas aqui e aqui. 

Esses serviços centralizados oferecem boas taxas, e são mais fáceis de serem utilizados pelo usuário comum.

A interface dos aplicativos é mais amigável e simples de usar, ao contrário das opções descentralizadas, que podem ser confusas e difíceis de se navegar. Também tem como vantagem a integração com dispositivos móveis, serviços de atendimento ao cliente e, geralmente, a opção de depositar fiat diretamente.

O risco associado, e grande desvantagem ao usar esses serviços, é o fato que o usuário não detém suas chaves privadas, logo é a plataforma que está em posse das moedas. Isso pode ser um grande incômodo para aqueles que preferem praticar a auto-custódia, mas se você já deixa suas moedas em uma corretora, não é um problema. Essas plataformas também requerem KYC, diferentemente das opções descentralizadas.

Edit: Após a publicação desse artigo, a plataforma Celsius bloqueou o saque das moedas de seus clientes devido a problemas de liquidez. Isso serve para mostrar que existe sim um risco ao depositar seus fundos em plataformas centralizadas, e destaca a importância de se praticar auto-custódia. Também torna ainda mais atraente a possibilidade de obter juros nativamente em BTC, que abordamos mais a frente.

Plataformas Descentralizadas

É possível conseguir yield para BTC em vários protocolos descentralizados. Porém, para se usar BTC em outras redes - como na Ethereum - é necessário um artifício.

Os tokens ERC-20 são aqueles utilizados na Ethereum. Como BTC é uma moeda com sua blockchain própria, é necessário um serviço que te entregue um token pareado ao BTC, no formato ERC-20.

O serviço mais popular destes é o Wrapped Bitcoin. Em troca de fornecer seu BTC para um guardião, um mercador pode mintar wBTC, graças a um contrato na Ethereum. Para resgatar de volta o BTC é necessário queimar o wBTC - dessa forma a quantidade de wBTC fica igual a quantidade de BTC em custódia do guardião. O usuário comum pode ter acesso a wBTC negociando diretamente com o mercador - em muitos casos, uma exchange.

É importante ressaltar que há um certo grau de centralização nesse processo, visto a dependência do custodiante. Além disso, os BTC em si permanecem na blockchain do Bitcoin, o token wBTC que está na rede Ethereum é apenas uma representação dos BTC em custódia.

Há cerca de 275 mil wBTC na Ethereum, que podem então ser utilizados em DeFi. Isso representa mais de 1% do total de Bitcoins em existência, uma quantia considerável. Também há outros tokens que funcionam dessa maneira, como o HBTC e renBTC.

 

Na Compound, protocolo de empréstimos, os juros recebidos atualmente para depósitos de wBTC estão por volta de 0.06% APY pagos em wBTC + 0.07% APY pagos em COMP, o token de governança do protocolo. Não é uma taxa muito atraente, certo?

É de se esperar que as taxas pagas por protocolos DeFi diminuam em bear markets. Como esse juros provém de usuários que pegam empréstimos, e essa atividade diminui muito em períodos prolongados de quedas no mercado, a taxa paga para aqueles que depositam também se reduz.

No gráfico acima, podemos observar a quantia diária de juros pagos na Compound para os depósitos de wBTC. 

Chegou a bater mais de 30 mil dólares por volta de agosto/2021 e agora está em menos de 2 mil dólares, uma queda de mais de 90%. Essa estratégia, que gerava um retorno atrativo durante o bull market, agora não é mais tão interessante.

Na AAVE, outra plataforma popular, o APY pago para depósitos de wBTC está por volta de 0.02%. A taxa segue baixa pelos mesmos motivos da Compound.

Para os que já têm mais familiaridade com protocolos DeFi, e estão dispostos a correr um risco maior, existem opções que oferecem APYs mais atrativos.

Beefy Finance é um protocolo otimizador de juros. Ela se conecta com diversos dApps, buscando as melhores estratégias de yield. Oferece também integração com um grande número de blockchains.

Na tabela abaixo vemos algumas pools de wBTC/renBTC disponíveis no app da Beefy Finance. O APY pago, que varia de 5.30% a 2.50%, é bem mais generoso do que o da Compound ou AAVE. Vemos também que cada pool está em uma blockchain: Avalanche, Polygon, Fantom e Arbitrum.

Esses altos APYs oferecidos não vêm de graça. São uma consequência do maior risco dessa plataforma. Ao contrário da Compound e AAVE que estão a mais tempo no mercado, possuem um maior TVL e são relativamente seguras, a Beefy é recente e inerentemente mais arriscada. 

Só é recomendado o uso desse protocolo para usuários com experiência em DeFi, que saibam fornecer liquidez em pools e entendam os riscos associados. Outra opção para esse tipo de usuário é a BadgerDAO.

As vantagens de plataformas descentralizadas são permitir que você fique no controle de suas chaves privadas, não necessitar de KYC e também a grande variedade de dApps que oferecem yield com as mais diversas estratégias.

Já as desvantagens são o pouco (ou nenhum) suporte ao usuário, as taxas de transações que podem ser elevadas, taxas de juros variáveis que necessitam atenção constante, maior complexidade em relação às plataformas centralizadas e os riscos associados a hackers ou erros nos contratos inteligentes.

Juros Nativos

A opção mais segura para se obter yield em seu Bitcoin é utilizando a Lightning Network (LN). 

A LN é uma segunda camada para a blockchain do BTC. Serve como camada de transferência de pagamentos, de dados, e no futuro pode vir a rotear o próprio tráfego da internet. Pense na LN como o HTTP do Bitcoin.

Permite transferências rápidas, taxas baixíssimas e escalabilidade para chegar a milhões de transações por segundo - ordens de magnitude a mais que a VISA.

O funcionamento, de modo simplificado, é o seguinte: A LN permite que aqueles que possuem um node possam rotear transações via canais de pagamento. 

Os Bitcoins fluem em canais peer-to-peer, de node pra node, de forma privada e praticamente instantânea. Ao invés de mover os BTC pela blockchain principal, os movimentos são feitos entre esses canais, sem sobrecarregar a rede do BTC - além de ser bem mais barato. 

Apenas quando um canal fecha, a LN computa qual foi o “saldo” do canal - ou seja, quanto cada parte conectada ao canal deve receber -, e envia essa transação para a blockchain do BTC. Assim, o que era para ser várias transações se resume a apenas uma, diminuindo a carga da rede.

Os canais podem ficar abertos indefinidamente, e quando se tem um canal com um node, é possível transacionar com esse peer pelo valor mínimo de 1 milisatoshi - algo em torno de 0.0000003 dólares na atual cotação.

Quando você cria um canal de pagamentos, terceiros podem utilizá-lo para fazer transações. E é daí que sai o yield nativo.

Para isso, basta ter seu node e começar a abrir canais. Após estabelecer algumas boas conexões, você já passa a rotear transações e recebe juros para isso. É um yield na moeda nativa, BTC, e pode ser visto como a taxa básica de juros da economia Bitcoiniana - como é a SELIC no Brasil. 

Se quiser explorar ainda mais essa curva de juros, é possível travar seus BTC em canais e estabelecer contratos por tempo e valores pré determinados. Para isso, é necessário ter um node Tier 1 - classificação obtida após manter o funcionamento adequado por algumas semanas.

O node Tier 1 possibilita participar dos leilões da Lightning Liquidity Marketplace (LLM). Enquanto ao abrir canais você já recebe a taxa básica de juros, ao usar a LLM você pode fazer contratos que adequam o juros para diferentes durações, criando então uma curva de juros.

Em períodos de alta demanda essa taxa chega a valores bem atrativos.

Acima, exemplo de canal pagando juros de 26% APR

O risco, comparado aos serviços centralizados e descentralizados que abordamos anteriormente, é relativamente baixo já que as chaves privadas continuam com você. Mesmo nos serviços descentralizados, suas criptos são depositadas em contratos inteligentes, havendo maior risco sistêmico. 

A rede Bitcoin é a única que te permite ganhar um yield nativo na moeda da blockchain subjacente enquanto mantém a chave e a posse dos seus Bitcoins em todo o período. 

Deve-se, é claro, manter a atenção às boas práticas para manter sua chave segura.

E é também a única rede que permite ao usuário comum acesso direto à blockchain, pois é a única que você pode rodar a custo baixo em um Raspberry Pi e assim não depende de ninguém pra te fornecer acesso.

A única desvantagem está na complexidade para rodar seu node e por precisar de um hardware específico - nada que seja muito difícil ou caro.

A maior beleza está no fato que ao rodar seu próprio node, você está contribuindo diretamente para a descentralização e segurança da rede do Bitcoin - e graças a LN e a LLM, está sendo pago para isso.


Agradecimentos especiais a Diego Kolling (@diegokolling) pelos insights e partilha de conhecimento que possibilitaram a produção deste artigo.

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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