Paradigma

🌚 Urbit: Irmão Mais Novo do Bitcoin?

Se você encontrasse um projeto tão promissor quanto o Bitcoin, cedo o suficiente, saberia reconhecê-lo?

Seu celular transborda aplicativos, anúncios e notificações. Seu computador é basicamente uma janela para acessar serviços providos por Google, Amazon e Facebook. Você não tem a menor ideia de onde suas mensagens, fotos e contatos são armazenadas de fato. Muito menos o quanto vão durar - ou quem está espiando estas informações agora.

Você já ouviu falar na "nuvem" - talvez ainda não tenha percebido que, na prática, significa simplesmente "um servidor controlado por um outro alguém".

Você já ouviu falar em "ser dono dos próprios dados" - mas ainda não entendeu qual é o apelo dessa proposta.

Afinal de contas, as coisas que realmente importam você não deixa expostas na internet, certo? No mais, já existem centenas de "aplicações descentralizadas" tentando resolver estes problema… não?


💬 Urbit em Poucas Palavras

"Se endereços de IP fossem negociáveis, peer-to-peer, como bitcoin, seriam endereços de Urbit" - Balaji Srinivasan

Urbit é uma alternativa à computação em nuvem como a conhecemos.

A ideia é que você possa fazer login de qualquer lugar ou aparelho do mundo - materializando, aí, seu sistema operacional, junto com seu legado digital completo: comunidades, conversas, conexões; dados biométricos e história comportamental; num lugar seguro, privado e desenhado para durar.

Cogita se submeter à criônica (congelar órgãos vitais), para tentar voltar à vida daqui a 100 ou 200 anos? Basta colocar seu Urbit num pendrive, e, lá na frente, despejá-lo em qualquer computador para reviver também sua "casa virtual". No meio tempo, é matematicamente impossível que alguém espie seu rastro digital ou monetize-o sem sua permissão (como provavelmente farão com seu Facebook quando você morrer).

Isto é Urbit: um computador simples, durável, que pertence 100% a você, para sempre. 


📜 Do Bit-Bang ao Bitcoin

Urbit confunde entusiastas de criptomoedas porque, primeiro, não é uma criptomoeda. Segundo, porque tampouco é um aplicativo ou programa.

Urbit se assemelha muito mais a Linux e Windows do que a Amazon e Google. Para entender sua anatomia, voltemos aos primórdios.

No começo da internet, tínhamos os mainframes: computadores enormes, monolíticos, que ocupavam salas inteiras. Guardavam basicamente tudo o que necessitavam para operar e conversar entre si.

Mainframe vs. computação na nuvem - via Urbit.org.

Conforme vieram os computadores pessoais, parte das funcionalidades originais foi particionada, migrando para máquinas externas.

Não precisamos entrar no detalhe para visualizar o arco evolutivo que culminou com a onipotência do paradigma cliente-servidor. 

Com aparelhos cada vez menores e demanda exponencial por mais memória e processamento, o jeito mais prático de evoluir a experiência do internauta foi "desacoplando" dos computadores pessoais ainda mais das suas funções primordiais. 

Hoje, seu celular executa programas que são hospedados em "nuvens", guarda fotos em "nuvens" - até suas ligações, a essa altura, precisam da internet e de uma cadeia de servidores espalhados pelo planeta (ou "pela nuvem") para poderem ser feitas.

Não desmereça uma ideia só porque ela (ainda) soa complicada para o cidadão médio.

É extremamente conveniente, mas muita autonomia (e potencial soberania) foi perdida pelo caminho.

O argumento central de Urbit é o de que, para recuperá-las, não basta ter software de código aberto, sistemas redundantes, registros distribuídos ou blockchains.

É preciso repensar o paradigma da computação - do zero.


🏠 Ouro Digital vs. Terra Digital

Urbit e Bitcoin convergem na noção de que o Virtual está subsumindo o Real. As "alavancas de controle" da sua vida não são mais encarnadas no meio físico, mas no digital. Do que você tem mais medo - um batedor de carteiras na rua ou um hacker capaz de se apossar das suas contas online?

Se o Bitcoin é "ouro digital", Urbit é "terra digital".

Ambos se fundamentam em um conceito de propriedade inviolável. Mas um se preocupa com dinheiro; o outro, com a sua casa. Esqueça aqui o dinheiro de papel, ou as casas de concreto - estamos falando de valor virtualizado, e habitats idem.

Uma casa que não te pertence é só um quarto de hotel. Via Urbit.org.

Hoje, dependemos de computadores cujos upgrades fogem a nosso controle; trafegamos arquivos em formatos que podem se tornar obsoletos a qualquer hora; registramos propriedades que juramos serem nossas... em bases de dados geridas por terceiros.

Abraçamos uma ilusão de controle opaca. Seria leviano acreditar que eu ou você somos capazes, por exemplo, de controlar quem tem acesso a este texto - tendo sido digitado em um notebook de marca americana, e passado por alguns editores na "nuvem", certamente já não mais "me pertence", no sentido literal.

Acostumamo-nos a essa opacidade, mas poderia ser diferente.


👥 As 2 Metades de Urbit

Na essência, Urbit se resume a duas coisas: um sistema operacional + uma infraestrutura de chaves públicas. Este sistema é a "alma" de máquinas virtuais que se comunicam por um protocolo de networking próprio. Essas infraestrutura de chaves é o que determina a quem pertence qual endereço na rede - mais ou menos como o DNS denota quem é dono de qual domínio na web.

"Guardar" um Urbit é quase como "guardar" um bitcoin.

Cada endereço é um Urbit ID. Urbit IDs são como chaves civilizacionais: pense neles como o ingresso para um clube secreto, ou um tíquete para sua vida digital. 

O espaço ocupável por endereços é finito. Eles se distribuem de forma ramificada.

No topo da "árvore genealógica", há 256 galáxias. Cada uma possui 256 estrelas (totalizando 65K). Cada estrela possui 65K planetas (totalizando ~4B). Cada planeta possui ~4B luas. 

Uma galáxia é um endereço, uma lua também. Ambos têm seus próprios Urbit IDs. Como se pode supor, uns valem mais que outros.


⚙️ Distribuição e Desenvolvimento

Urbit não tem mecanismo de mineração, porque não precisa.

Todo o espaço virtual desse "universo de endereços" foi criado de uma só vez. Nas palavras de Curtis Yarvin, fundador do projeto: "sou dono de todo o espaço, uma vez que o dei à luz. Por outro lado, não vale nada até que eu encontre uma maneira de distribuí-lo".

Endereços começaram sendo mapeados em um arquivo de texto simples. Somente em 2019 que o registro foi migrado para um substrato (a Ethereum) onde não pudesse mais ser alterado arbitrariamente. 

Em 2013, Curtis fez um vídeo-demo do que tinha construído até então. Com ele, captou U$ 1.5M de investidores-anjo, em troca de alguns endereços privilegiados.

Em 2016, um primeiro financiamento coletivo foi realizado, para se levantar caixa em troca de mais endereços - acabou em 4 horas. 

Em 2017, uma nova rodada foi oferecida para quem pertencia à lista de e-mails do projeto - acabou em 6 horas.

A distribuição de Urbit não é justa. Nenhuma distribuição é.

Propriedade é sempre uma forma de anistia. Como dizer: "o que quer que tenha havido no passado, a partir de agora, é assim que será". Quando concordamos que o que as pessoas têm é de fato delas, não importa como tenham obtido, significa que chegamos a uma fórmula para a paz (não confunda paz com justiça). Quando dizemos que "todos deveriam ter o que merecem", não podemos esperar que todos concordem - o que significa que plantamos sementes permanentes de discórdia.

Em Urbit, donos de galáxias vão desde investidores-anjo famosos (Peter Thiel, a16z) até um zé-ninguém; de um monge Zen a uma ex-freira Ortodoxa; de um líder da indústria de blockchain até um fazendeiro de permacultura.

Hoje, você também pode conseguir seu próprio cantinho no Urbit, relativamente fácil.


🤑 Dá Pra Ganhar Dinheiro com Urbit?

Urbit é uma cripto-rede que atrai gente estranha. Talvez por isso, muitos dos que se lembram do começo do Bitcoin simpatizam com ela.

A dificuldade de explicar, a aura de mistério, o fundador que se foi… será que, assim como o Bitcoin, Urbit é um fenômeno de longo prazo, recém saindo do berço?

Você pode muito bem "pagar pra ver", acumulando alguns planetas ou estrelas:

- Hospede um meetup e ganhe uma estrela (valorada atualmente entre U$2-4K);

- Compre um Urbit ID em um mercado online, como o Urbit.Live;

- Negocie um Urbit ID com quem detém vários - por exemplo, no fórum Hacker News;

- Construa um app ou ofereça um serviço para outros Urbits em troca de pagamentos.

Vendas de estrelas e planetas em Urbit, neste ano - via Urbit.live.

Se quiser mesmo é pôr a mão na massa, Urbit OS, em tese, tem tudo que você precisa pra escrever e rodar seus próprios programas sociais.

O foco dos desenvolvedores atuais, nesse momento, ainda é justamente fazer Urbit e Bitcoin interoperarem melhor. Há bounties (prêmios em Urbits), por exemplo, para quem construir um cliente de nó de Bitcoin capaz de operar num Urbit, assim como carteiras e outros tipos de programa. 

Se tudo isso soar laboroso demais, você também pode adquirir um Urbit ID qualquer, colocar sua máquina virtual num pendrive, jogá-lo em um cofre e voltar para ver o que aconteceu dali a 5 ou 10 anos. 

Quando plugá-lo de novo a um computador, o sistema operacional fará upgrade para a última versão automaticamente, over-the-air - se houver ao menos um Urbit com o qual você possa se conectar. Talvez, ainda por cima, o valor dos seus endereços tenha passado por um upgrade também.


🌱 Algumas Curiosidades

Urbit nasceu como projeto 5 anos antes do anúncio do whitepaper do Bitcoin. Curtis Yarvin trabalhou sozinho na empreitada durante 11 anos.

Yarvin também é conhecido pelo pseudônimo Mencius Moldbug. Manteve um blog de opiniões extremamente polêmicas (categorizado por muitos como de extrema-direita) durante anos. Tem texto ácido e inteligentíssimo. 

Urbit foi aceita na Y Combinator (aceleradora de negócios famosa na costa oeste americana). Seu fundador declinou participar do programa (não à toa, o projeto é assunto até hoje no Hacker News, fórum da Y Combinator).

O "Bitcoin Sign Guy", hoje, trabalha de representante de negócios em uma empresa que desenvolve para Urbit!

Esta empresa (Tlon), que concentra muitos dos esforços no ecossistema, ainda detém quase metade de todos os endereços disponíveis.

Apesar de manter seu registro identitário na Ethereum, Urbit não endossa a plataforma. Quando anunciou a decisão, Yarvin foi enfático: "não estamos criando demanda monetária por ether. Não estamos presos à Ethereum. Donos de galáxias em Urbit podem escolher migrar para outro mecanismo de consenso, ou nenhum mecanismo de consenso, ou nosso próprio mecanismo de consenso, a hora que bem entenderem".

O excesso de jargão na documentação técnica do projeto é estonteante. Há argumentos bons em favor da propensão neo-linguística - outros, nem tanto.

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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