Paradigma

💸 Um Segundo Trabalho para seu ETH

A rainha do restaking: tudo sobre a inovação mais quente na Ethereum em 2023.

✍️ Restaking e EigenLayer

Staking é o ato de se depositar tokens num contrato que oferece um risco e uma recompensa: os tokens podem ser tomados ("slashed"), se uma certa condição de segurança for descumprida… se não, o depósito será acrescido de juros ("yield").

Restaking é o ato de atribuir uma segunda camada de riscos e recompensas a um depósito que já foi feito em stake. Isto é, adicionar novas condições de punição ("slashing"), assim como novos retornos.

Do lado da demanda, stakers podem aderir ao restaking para aumentar o retorno sobre o capital travado.. 

Do lado da oferta, novos protocolos podem usar o restaking para herdar a segurança de stakers de ETH a um baixo custo, e fazer bootstrapping de suas redes minimizando o risco econômico ao qual são expostas.

EigenLayer é um coletivo de restaking. Um conjunto de contratos inteligentes na Ethereum, que permite que stakers de ETH optem por validar também outras redes.

Stakers aceitam novas condições de slashing (penalidade em que se perde parte ou o total de seus ETH em staking), impostas pelos contratos inteligentes da EigenLayer.

E assim, seus ETH em restaking atendem o consenso de diferentes módulos: sejam novas blockchain de primeira camada, oráculos, protocolos de disponibilidade de dados, pontes ou quaisquer aplicações que se beneficiem da segurança de um sistema distribuído de validadores.

Ao invés de fragmentar a segurança entre esses módulos, a EigenLayer consolida a segurança, através do ETH em stake, em todos eles.

EigenLayer ainda serve como uma espécie de laboratório de testes, em que inovações na Ethereum possam ser experimentadas antes da implementação final.

O objetivo é alcançar uma onda de inovação não permissionada, onde times não precisam construir sua própria rede de confiança, mas sim aproveitar a segurança e descentralização já oferecidas por validadores existentes.

🔧 Os Problemas a Resolver

“AVS” (Actively Validated Services) são serviços ativamente validados, em uma tradução livre. Geralmente, o consenso sobre seu estado (seus dados)  passa por um token nativo, ou acontece de modo permissionado.

Cada AVS lançado sobre a EigenLayer possui contratos on-chain que estabelecem os termos de slashing e taxas recebidas, além de um contêiner off-chain que os validadores devem baixar.

O sistema atual de AVSs (sem restaking), sofre de 4 problemas:

  1. Bootstrapping de um novo AVS: fundadores que desejam desenvolver algum desses serviços precisam de iniciar uma rede para extrair sua segurança e validação, processo muitas vezes difícil e custoso.
  2. Dispersão de Valor: Usuários pagam taxas para garantir a validação e segurança de cada AVS, além das taxas da Ethereum. Isso leva a um vazamento de valor que poderia estar se acumulando na Ethereum.
  3. Custo de Capital: Validadores garantindo a segurança de um novo AVS estão sofrendo com custo de capital, uma vez que esse capital poderia estar sendo aplicado em outro lugar - como no stake de ETH.
  4. Orçamento de Segurança Reduzido: O Custo de Corrupção (CoC) de um dApp é igual ao menor custo para corromper uma de suas dependências. Por exemplo, para uma DEX que em seu funcionamento depende tanto da blockchain da Ethereum quanto de um oráculo para informar os preços, o custo para atacar a DEX é igual ao custo para corromper o oráculo (que é bem menor que o custo para corromper a Ethereum).

A EigenLayer propõe que cada um desses problemas pode ser resolvido com o restaking.

Suas ideias base são: Segurança Agrupada via Restaking (pooled security via restaking) e Livre Mercado de Governança (free-market governance).

A segurança agrupada via staking estende a segurança da Ethereum para sistemas arbitrários. 

O livre mercado de governança é o mecanismo que governa como a segurança agrupada é consumida entre AVSs. Validadores determinam seus próprios parâmetros de risco/retorno, e escolhem quais módulos sobre a EigenLayer querem apoiar. Validadores cumprem um papel similar a firmas de venture capital, escolhendo onde aportar.

Combinando essas ideias, a EigenLayer serve como um mercado aberto, onde AVSs podem alugar a segurança fornecida por validadores da Ethereum.

E assim, a EigenLayer espera solucionar os problemas apresentados acima:

  1. Bootstrapping de um novo AVS: Um novo AVS pode usar a segurança dos validadores da Ethereum.
  2. Dispersão de Valor: Os restakers de ETH conseguem optar por participar em fontes de receita na EigenLayer, sem ter que levar o capital “para fora” da Ethereum.
  3. Custo de Capital: O custo de capital para aqueles que optam pelo restaking através da EigenLayer é mínimo (teoricamente até zero, se desconsiderarmos o risco de um Node honesto sofrer slashing).
  4. Orçamento de Segurança: O custo de corrupção, em um cenário que uma quantia significativa de capital está em restake, tende a ser bem maior - já que não vai ser mais o menor custo para corromper uma de suas partes, mas sim a soma de todo o orçamento de segurança.

A Eigenlayer também argumenta sobre outro benefício que pode trazer para a Ethereum: colocar a heterogeneidade dos stakers para bom uso.

Blockchains decidem o tamanho limite de seus blocos de acordo com o nó mais simples que querem admitir em sua infraestrutura.

Uma blockchain que almeja ser descentralizada não pode ter um bloco muito grande, pois assim só quem tem hardwares com maior poder computacional pode rodar um nó. 

O Bitcoin, por exemplo, tem um limite de 1MB por bloco, exatamente para que qualquer um possa rodar um nó sem precisar de um hardware caro.

No caso da Ethereum, alguns validadores têm mais poder computacional que o requerimento básico da blockchain, e não conseguem utilizar esse excesso de recursos na arquitetura presente da blockchain.

Com a EigenLayer, esses validadores podem usar essa capacidade computacional maior de seus nós para executar tarefas que eles optarem através da EigenLayer.

Outro objetivo da EigenLayer é melhorar o trade-off entre democracia e agilidade no sistema governamental. 

O protocolo da Ethereum é atualizado de maneira democrática, através de uma governança off-chain robusta e, consequentemente, lenta.

Outras blockchains como a Binance Smart Chain ou EOS tem uma tomada de decisão mais rápida, por ter adotado uma postura governamental mais corporativa, de cima para baixo. Esse processo é mais eficiente, porém menos democratico.

Todos os protocolos têm que escolher onde se posicionar no trade-off entre governança democrática e taxa de inovação.

A ideia é que a EigenLayer aceite que inovações sejam construídas com agilidade, e ainda assim permitir que o núcleo da Ethereum continue mais cauteloso e lento.

EigenLayer então serve como uma espécie de rede preparatória, onde ideias novas são implementadas antes de serem integradas na Ethereum.

💰 Quem Está por Trás da EigenLayer

EigenLayer recebeu um financiamento de US$ 60 milhões.

A maior parte veio da Blockchain Capital.

Embora nos documentos da EigenLayer não haja nada sobre um token, essa deve ser a maneira de seus investidores obterem um retorno financeiro - e daí saí também uma possibilidade de airdrop.

Um token também é importante para que a própria Eigen possa fazer o bootstrapping de sua rede de validadores.

Seu fundador, Sreeram Kannan, é um professor especializado em teoria da informação e sistemas P2P.

Após se envolver com cripto em 2018, Sreeram surgiu com diversas propostas de como melhorar redes cripto econômicas - mas ao mesmo tempo percebeu que para testar qualquer de suas ideias teria que passar pelo longo processo de EIP, ou lançar uma nova rede apenas para o experimento. E daí surgiu a EigenLayer. 

😠 Não F*dam com o Consenso

A EigenLayer também apresenta riscos.

Operadores (aqueles que optaram pelo restaking) podem coludir para atacar mais de um AVSs simultaneamente. 

Economicamente, pode não fazer sentido atacar apenas um AVS, mas quando o mesmo grupo de stakers estão fazendo restaking nos mesmos AVSs, o custo de ataque (slashing) pode ser menor que o lucro obtido, tornando o sistema economicamente inseguro. 

EigenLayer propõe algumas medidas para aumentar o custo de corrupção e mitigar a possibilidade desse tipo de ataque, mas essas medidas são únicas para cada tipo de AVS.

Outro risco é o de vulnerabilidades de slashing não intencionadas - quando um nó honesto sofre slashing. 

Conforme os AVS são testados, esse risco tende a diminuir, mas nas fases iniciais podem ocorrer vulnerabilidades (como por exemplo, bugs nos contratos) que desencadeiam slashing e perda de fundos de usuários honestos.

Para isso, EigenLayer propõe auditorias de segurança e a habilidade de vetar eventos de slashing, por uma camada de governança social.

Além desses riscos apontados acima, também temos riscos sistêmicos, que não são tão óbvios.

Vitalik, fundador da Ethereum, escreveu um post em seu blog abordando esse assunto.

Sua maior preocupação é uma sobrecarga no consenso social da rede, levando a forks na Ethereum.

Imagine um oráculo, que forneça o valor do Real em relação ao Dólar. Agora pense em um cenário hipotético em que o governo imponha restrições à saída de capital, e passemos a ter mais de uma cotação para o dólar.

Qual cotação o oráculo deve reportar? Alguns validadores podem considerar a cotação oficial do governo, enquanto outros a cotação de mercado não oficial. Um evento político do “mundo de fora” impacta no consenso da blockchain, e pode levar a consequências - como um fork.

Vitalik ainda aponta outros riscos, como protocolos grandes-demais-para-falhar tendo que ser resgatados devido a bugs/hacks e também levando a forks na rede. 

Sua conclusão é que devemos preservar o minimalismo da rede, e suportar o uso de restaking quando esse não estenda o papel do consenso da Ethereum de maneiras arriscadas.

Segundo Vitalik, se no design de seu protocolo, mesmo quando tudo dá completamente errado, as perdas são contidas apenas aos validadores e usuários que optaram por participar, seu risco é pequeno.

Já se você tem que recorrer ao consenso social do ecossistema da Ethereum para resolver seus problemas, estamos falando de um protocolo de alto risco, e devemos evitar criar esse tipo de expectativa.

💡Conceitos Similares

Em redes proof of work, onde há mineração, existe o conceito de Merge Mining, que tem sido usado com Bitcoin/Hathor, Bitcoin/RSK e Litecoin/Dogecoin.

É basicamente quando você usa o mesmo hardware para minerar duas blockchains simultaneamentes.

No ecossistema da Cosmos, também existe a iniciativa de Mesh Security, que é bem similar ao conceito de restaking da EigenLayer.

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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