Paradigma

🔎 Tokenomics: O Bom, o Mau e o Feio

Dentre 100 projetos populares, menos de um terço gera mais "receita" (taxas) do que gasta em incentivos inflacionários.

Isto é, poucos estão "fazendo dinheiro", quando se ajusta a "receita" pela diluição.

Dos 23 “verdes”, 10 são exchanges descentralizadas.

Este texto te levará numa jornada por dados da TokenTerminal, da Messari e da CoinGecko pra elaborar como:

✅ Quais Redes Estão "no Verde"?

O gráfico acima se baseia na métrica TotalRevenue do TokenTerminal (que soma as taxas pagas por usuários), e no calendário inflacionário de cada token.

Se excluirmos taxas capturadas diretamente por provedores de serviço (como mineradores, ou provedores de liquidez), e contarmos somente a ProtocolRevenue, a coisa fica feia. 9 tokens na amostra permanecem "no verde".

Vejamos estes 9 tokens. Quais tem um mecanismo para direcionar receita para "holders"?

A tabela a seguir filtra 7 tokens sem um mecanismo do gênero. A maioria joga taxas em um "tesouro", cuja alocação pode ser votada por detentores do token ("governança"). Alguns implementam o que Cobie chama de “fake staking”: propinas inflacionárias para quem travar seu token e optar por não vendê-lo.

Só 2 moedas capturam diretamente parte do valor sendo criado pela rede subjacente: GMX e Sushi. Numa, compra-se ETH/AVAX com as taxas pagas por usuários, e se distribui isso para stakers. Noutra, o próprio token (Sushi) é comprado com as taxas acumuladas, e distribuído para stakers. Isto é: quem trava seus tokens acessa um "fluxo de caixa".

🤔 O Mercado Está Ligando?

O mercado é leniente. Imprimir uma tonelada de tokens é o caminho mais curto para a fortuna.

Redes com a maior emissão monetária (nominal) atraem tanto as maiores "receitas" quanto os maiores "TVL"s (total value locked).

Nessa amostra, uma razão saudável de "receita-para-emissão" não se traduziu em mais resiliência no bear market. Pelo contrário. A imagem abaixo sugere que redes "lucrativas, quando ajustado pela inflação" (em verde) viram seus tokens apanhar mais que o resto, nos últimos 3 meses.

🎪 Insiders vs. Outsiders

Outra hipótese explorada aqui é a de que alocar uma porção maior da oferta gênese ao público é algo positivo para a sustentabilidade de um token.

Tabulamos a porcentagem que cada moeda reservou para insiders vs. outsiders (alocações para um "tesouro" contando como “insiders”; só programas de mining, airdrops e vendas públicas irrestritas contando como “outsiders”).

Não há uma relação clara, mas pode-se interpretar que moedas com uma maior "porcentagem dada a outsiders" têm mais chance de atingir um market cap de U$ 1B+.

Em vermelho: 0–25% para outsiders. Em laranja: 26–50%. Em amarelo: 51–75%. Em verde: 76–100%.

No entanto, nada indica que esses tokens "amigáveis a outsiders" ostentaram retornos melhores, neste ano.

Performances (em USD) nos últimos 7, 30, 90 e 180 dias. Tokens mais concentrados nas mãos de "insiders" não caíram mais que seus pares mais "justamente distribuídos".

⚖️ O Dilema Legal

4 anos atrás, escrevi sobre a “Imaturidade de Modelos de Captura de Valor em Tokens”.

On the immaturity of tokenized value capture mechanisms

Pursuing value in an age of borderless-ness, experimental monetary policies, costless forks and unlimited innovation.medium.com

Tem ficado claro, para mim, que a saga dos tokenomics se resume a uma questão simples: como distribuir o valor capturado por uma rede para os detentores do seu token, sem fazer da coisa um valor mobiliário?

O Teste de Howey tem 4 pilares: têm-se um valor mobiliário quando há (1) um investimento de dinheiro, (2) num negócio comum, (3) com a expectativa de lucro e (4) a ser derivado dos esforços de outrem.

Parte dos tokens modernos busca invalidar (3) e (4), ao perseguir negação plausível para a “expectativa de lucro” (como a Uniswap implementou umafeeSwitch, mas deixou o parâmetro em 0%), ou ao limitar a distribuição de lucros para quem está de fato performando o trabalho pelo qual usuários finais pagam taxas (como "work tokens" o fazem — veja a seguir).

📄 Sobre Taxonomia

Em 2017–19, era popular o modelo dos "work tokens”: trava-se um token de modo a se ter "algo a perder", performa-se um trabalho para a rede (ex: produzir blocos, reportar updates de preços off-chain) e se ganha uma porção das taxas pagas por usuários. Basicamente um meio de se acessar "cash flows" sem depender "dos esforços de outrem".

“Tokens de govenrnança” inundaram o mercado em 2020–21: nestes, a rede direciona receita para um "treasury", e donos das moedas votam em como o dinheiro será gasto.

Em 2022, os modelos do “veToken” e do “xToken” ganharam proeminência. O primeiro é um token de governança onde os votos se destinam a controlar parâmetros de diluição do próprio token. “xTokens” são o que de mais próximo se tem a ativos produtores de cash flow: o portador faz stake do token e ganha recorrentemente uma porção das fees pagas por usuários (ex: SUSHI, LOOKS)

Ao longo dos anos, designers de tokens tem "voado mais perto do sol". O mercado tem sido mais receptivo a novas narrativas. A imagem a seguir denota um salto sem precedentes na rotatividade entre as maiores moedas. A rotatividade é o número de moedas novas dentro de um subconjunto (top100 e top200 por market cap), mês a mês.

A última fase de alta trouxe rotatividade inédita entre as maiores moedas. Bear markets estão pintados de vermelho.

🕳️ Conclusão

Os números para esta análise são de 17 de junho de 2022. Estão aqui.

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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