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🤔 Seria a Lido um risco à Ethereum?

Como um dos maiores protocolos de DeFi, ao mesmo tempo que é importante para a infraestrutura da Ethereum, pode representar uma ameaça a rede.

💧 Lido & Staking líquido

Lido é um dos maiores protocolos de DeFi, e em termos de valor total bloqueado (TVL) perde apenas para a MakerDAO.

O serviço que a Lido fornece é o de staking líquido.

Eles são os líderes indiscutíveis nesta área, possuindo de longe a maior parte do market share.

Acima, o balanço em ETH da Lido e principais competidoras.

Em blockchains que usam o mecanismo proof of stake (POS) os usuários podem colocar suas moedas em stake para receber recompensas de blocos.

Enquanto a moeda está em stake, ela fica “travada” e não pode ser utilizada.

E daí surge o modelo de negócio da Lido: o staking líquido.

Ao depositar moedas na Lido, o protocolo faz o staking para você (repassando as recompensas) e minta (cria) um token que representa sua posição em stake - um recibo.

Por exemplo, se você faz stake de ETH pela Lido, você recebe stETH. Se fizer de SOL, recebe stSOL.

Esse stTOKEN pode ser utilizado em outros protocolos DeFi. Seja como colateral, para emprestar, yield farming ou o que mais a pessoa desejar.

Ao mesmo tempo que recebe suas recompensas de staking, você também fica livre para usar os fundos como bem entender - ao invés de ficar travado, o staking possui liquidez. 

Abre-se a porta para uma rehipotecagem, que, apesar de alterar a natureza da operação, permite maior eficiência de capital. É mais um exemplo de como os protocolos de DeFi funcionam como blocos de lego.

A Lido é comandada por uma DAO, em que participam aqueles que detém o token LDO.

Das recompensas de staking, 90% vão para os usuários, e 10% vão para a DAO, os operadores de node e um fundo de seguro.

No momento, o tesouro da DAO possui mais de 250 milhões de dólares. Você pode ver a carteira aqui.

Lido fornece staking líquido para ETH, SOL, KSM, MATIC, DOT e também permitia LUNA (agora LUNC) antes de sua implosão.

A maior posição na Lido, em dólares, é de ETH - apenas LUNA chegou perto antes de ir, literalmente, a zero. 

Nesse artigo iremos focar na Ethereum, e mostrar os possíveis riscos que a Lido apresenta para a rede.

⚖️ stETH e ETH

Primeiro, temos que entender por que, principalmente para a Ethereum, esse serviço de staking líquido é tão interessante.

Para se tornar um validador na Ethereum, é necessário 32 ETH - quantia já muito acima do orçamento da grande maioria das pessoas.

Além disso, também é preciso um hardware próprio, conectado à internet 24/7.

Para a maioria dos usuários, é muito mais simples usar um serviço como a Lido, do que arcar com os custos e responsabilidades de ser um validador.

Quando se deposita 1 ETH na Lido, é mintado 1 stETH. O stETH acumula as recompensas de blocos às quais tem direito pelo staking, aumentando o balanço de quem o mintou.

Este 1stETH pode ser usado para resgatar 1ETH - mas somente após o Merge

Antes disso, stETH não tem paridade garantida com ETH.

E não há necessidade que ele seja negociado 1:1 com ETH para que a Lido (ou o stETH) funcionem.

stETH é negociado pelo valor de mercado, baseado na demanda por ele e liquidez.

No gráfico acima, vemos que, após um período inicial de baixa liquidez e alta volatilidade, stETH foi negociado pela maior parte de sua vida a um valor bem próximo de 1ETH.

A partir da crise de liquidez devido a implosão da Terra, e insolvência da Celsius, 3AC e outros, stETH passou a ser negociado com um desconto em relação a ETH, chegando a 1stETH = 0,933ETH no dia 18/06 - o mesmo dia que BTC chegou a $17k.

Quando 1stETH está valendo mais que 1ETH, é possível fazer uma arbitragem para lucrar com essa diferença, e eventualmente o preço vai convergir novamente.

Por exemplo, se 1stETH = 1,2ETH é possível usar 1ETH para mintar 1stETH, vender esse 1stETH por 1,2ETH no mercado secundário, e lucrar 0,2ETH nessa arbitragem - e isso eventualmente leva o preço de volta para 1stETH = 1ETH.

Não dá para fazer o contrário, visto que só será possível usar stETH para resgatar ETH após o Merge - até lá, essa troca só é feita pelo mercado secundário.

Ainda assim, se stETH está em um desconto em relação ao ETH - vamos dizer que 0,9stETH = 1ETH - qualquer um fica livre para comprar stETH em desconto, esperar o Merge, e resgatar ETH na proporção 1:1.

Mas quem for fazer essa operação está sujeito a riscos. O Merge pode nunca chegar, ou demorar muito para acontecer. A Lido pode ter um bug em seu contrato inteligente e sofrer um ataque hack. 

Ou o usuário pode necessitar de liquidez imediata e não aguentar esperar até o Merge -foi o que aconteceu com a Celsius e 3AC, que foram forçadas a vender seu stETH.

O fato que stETH está sendo negociado com um desconto em relação ao ETH reflete o mercado precificando os riscos de holdar stETH ao invés de ETH.

Cobie tem um ótimo artigo falando sobre essa relação entre stETH e ETH, para aqueles que queiram se aprofundar.

Repare se alguém deseja fazer stake de seus ETH pela Lido, é atualmente mais vantajoso comprar stETH pelo mercado secundário - aproveitando o desconto - do que mintar um stETH depositando ETH na Lido. 

🧱 stETH em protocolos DeFi

A Curve é uma DEX que cria pools, onde provedores de liquidez (LP) fornecem seus ativos, e em troca recebem yield (juros) oriundo das taxas pagas por quem troca entre um ativo e outro dentro de uma pool.

Uma das pools é a de ETH + stETH.

O que acontece é que, se muitas pessoas começam a trocar seu stETH por ETH, a pool fica desbalanceada. 

A proporção que deveria ser próxima de 50% stETH e 50% ETH começa a pesar mais para o lado do stETH, já que as pessoas estão retirando seu ETH.

Essa diferença na proporção de ETH e stETH na Curve faz com que seja difícil sair de grandes posições de stETH, e foi um dos problemas que levaram a insolvência da 3AC.

Outro tipo de operação que usuários fazem com seu stETH usando protocolos DeFi é a de “Leveraged Staking” - ou Staking Alavancado.

Funciona da seguinte maneira:

1: Compra ETH

2: Faz stake de ETH na Lido, recebe stETH

3: Deposita stETH na AAVE (ou outro protocolo de empréstimos) como colateral

4: Usa o colateral para pegar ETH emprestado

5: Repete 2-3-4 com o ETH que pegou emprestado

Dessa maneira o usuário consegue multiplicar seu montante em staking, recebendo mais recompensas.

O problema é que como estamos pegando ETH emprestado usando stETH como colateral, é uma posição similar a estar short (vendido) em ETH e long (comprado) em stETH.

Se o valor de stETH cai em relação ao ETH, existe o risco de liquidação.

Quando ocorre a liquidação, stETH é vendido para comprar ETH, fazendo mais pressão vendedora sobre stETH, o que leva a mais quedas do preço, o que leva a mais liquidações - e esse ciclo vai se alimentando.

Isso é chamado de "liquidações em cascata". 

Esse não é um risco exclusivo da stETH, e não é algo necessariamente ruim. Quando acontece, "limpa" a alavancagem do sistema - mas pode levar a declínios maiores que o esperado nos preços.

🚩 Os Riscos de Centralização

As maiores preocupações em relação à Lido estão ligadas a centralização do staking de ETH.

Essas preocupações têm fundamentos, visto que cerca de 30% de todo o ETH em stake está com a Lido.

Dos 13 milhões de ETH que estão em stake, a Lido detém mais de 4 milhões.

Isso gerou discussões entre a comunidade da Ethereum, inclusive com seu fundador, Vitalik Buterin, sugerindo um limite para os controladores de stake.

A Lido, respondendo a essas sugestões, iniciou uma discussão sobre se deveriam se limitar a ter no máximo uma certa porcentagem fixa do stake.

Foi feita uma votação entre os detentores do token LDO, em que a opção de não limitar a participação da Lido no stake de ETH ganhou com 99,81% dos votos.

Apesar disso, em um esforço para se descentralizar, a Lido adicionou 8 novos operadores de nodes. No momento, ela possui 29 operadores na Ethereum.

Hasu (Lido, FlashBots, Paradigm) respondeu a alguns questionamentos sobre a questão da centralização do ETH em stake pela Lido.

Primeiramente, a Lido não é uma única entidade, mas sim um protocolo com diversos operadores de node.

Se cada um desses operadores decidisse lançar seu próprio derivativo líquido de ETH em stake (como o stETH), não haveria fungibilidade entre estes, e o mercado ficaria fragmentado e ilíquido.

Logo, há um incentivo para os operadores de node participarem da Lido.

Mas o maior risco está relacionado à governança da Lido e sua DAO.

Essa governança é a responsável por adicionar ou remover operadores de nós, e isso concede a DAO certo poder e influência sobre os operadores.

Quer dizer então que a Ethereum estaria melhor se a Lido não existisse? Provavelmente não.

Os riscos seriam outros.

Primeiramente, isso levaria a mais stake em corretoras centralizadas.

Os operadores da Lido também possuem maior transparência em relação a aqueles que atuam por conta própria.

Além disso, pela teoria de jogos envolvida, faz sentido que exista um derivativo líquido de staking que possui a maioria esmagadora do market share.

Afinal, usuários vão atrás daquele derivativo de staking que possua maior liquidez e que seja aceito pela maior parte dos protocolos. 

Isso aumenta ainda mais a dominância deste, e surge um loop de feedback positivo.

É um mercado onde o ganhador leva a maior parte.

Se é assim, e estamos fadados a ter um protocolo de derivativos líquidos sendo o líder absoluto, é melhor garantir que esse vencedor seja o mais descentralizado possível.

É melhor que seja um protocolo controlado por uma DAO, do que uma única entidade centralizada com todo esse poder.

Uma proposta interessante é permitir que aqueles que possuem stETH possam vetar decisões da DAO.

Dessa maneira, as decisões não ficam exclusivamente para os detentores do token LDO.

A conclusão a que podemos chegar é que, apesar de haver riscos associados à dominância da Lido, a situação poderia ser bem pior caso essa liderança fosse de uma entidade centralizada.

O próprio fato da Lido - e principalmente a DAO que a controla - ser transparente em relação a existência desses riscos, e trabalhar junto com a comunidade em busca de soluções, já é um fator positivo.

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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