🖌️ Renascença na Ethereum
Como uma geração de criadores está reinventando o negócio da arte e escrevendo história na blockchain da Ethereum.
Podemos estar testemunhando um novo capítulo na História da Arte. Não sou o primeiro a “sentir”.
Visões utópicas de artistas monetizando seu trabalho direto para a base de fãs, por meio de contratos inteligentes, foram rápido de meme a realidade. Grandes nomes estão ganhando milhões, pequenos criadores estão arrecadando milhares. De qualquer forma, uma melhora e tanto em relação aos modelos de receita do Spotify ou do Youtube.
A ascensão do Bitcoin é bastante comparada à Reforma Protestante. Há uma analogia apta aí para o que está acontecendo com a Ethereum, também.
Mas não é a única. Abaixo estão alguns paralelos históricos que podem ajudar a esclarecer o frenesi cultural em torno da cripto-arte e dos NFTs👇
⚜️ Paralelo 1: Florença, ~1400
A Renascença aconteceu depois da Idade Média e das Cruzadas. Entre 1348 e 1351, a Peste Negra matou quase metade da Europa. Houve uma mudança de perspectiva entre os sobreviventes. Menos autoridade emanava da religião, mais ênfase foi colocada nos indivíduos.
O comércio floresceu ao Norte do Mediterrâneo. O florin (primeira moeda de ouro puro desde o Império Romano) fez de Florença o coração da Itália.
Não dá pra dizer com certeza o que levou à Renascença, mas alguns fatores raramente são minimizados. Entre eles, a invenção da prensa; a ascensão do florin; e a perspicácia financeira da família Medici.
Os Medici construíram o maior banco da Europa. Eles popularizaram a contabilidade de dupla entrada (registrando créditos e débitos para cada conta) e a estrutura corporativa de uma “holding”.
Mas sua genialidade estava na arbitragem. Uma forma de arbitragem moral.
A religião tachava a usura como pecaminosa. Os Medici não estavam dispostos a emprestar dinheiro para cobrar juros. Então, eles inventaram cartas de crédito privadas, cheques de papel e ajudaram os comerciantes ao redor da Europa a efetuar pagamentos através de longas distâncias, sem dinheiro. Em vez de juros, o banco lucrou com os spreads cobrados de clientes em geografias distintas. Os teólogos aceitavam a prática; a Igreja ficava feliz em ganhar sua parte.
O resto da história é conhecido: Donatello, Michelangelo, Giotto, Da Vinci e muitos outros mestres foram financiados pelos Medici. A família até ajudou a inventar o piano e os saltos altos — sua influência se espalhando além das artes plásticas, para a ciência e a moda.
🗼 Paralelo 2: Paris, 1920s
Mais uma vez, um período sombrio (guerra), um avanço nas tecnologias de comunicação e sua influência no estilo artístico impulsionou um movimento que mudou o curso da história.
A fotografia foi inventada. Benjamin (1935) escreveria que, quando a obra se torna tecnicamente reproduzível, sua aura é tudo o que resta de valor. A arte se libertou da busca pelo figurativismo. Influências orientais levaram os modernistas a mergulhar no abstracionismo. A explorar os reinos dos sonhos, dos sentimentos, dos sentidos.
Embora o Modernismo tenha sido em grande parte uma coleção de movimentos liderados por artistas — epitomizado pelos encontros boêmios de Picasso, Braque e Modigliani nos cafés de Montparnasse — colecionadores e curadores estavam longe de ser insignificantes.
Atrás de Picasso, estava Apollinaire (que batizou o “cubismo”). Atrás de Dali, estava Breton (que nomeou o surrealismo e cujos manuscritos são vendidos hoje pelo valor de Cryptopunk).
Algumas das pinturas mais caras em leilões modernos pertencem a essa época, e é curioso notar que uma boa parte de seu legado ficou em mãos americanas.
💂 Paralelo 3: Londres, 1980s
O movimento YBA é um dos capítulos mais incompreendidos da História da Arte. É altamente financeirizado, visualmente repulsivo e intelectualmente descarado.
Dois homens — Larry Gagosian e Charles Saatchi — são largamente responsáveis pela cena. Gagosian é um dos galeristas mais poderosos do mundo. Saatchi é um magnata da publicidade e colecionador ostentoso.
Em 1992, Saatchi “revelou” uma geração de jovens artistas britânicos, que acelerou a trajetória do estilo em direção às linhas de produção e à identidade de marca. Damien Hirst, Cindy Sherman & co. tornaram-se famosos pelas imagens gratuitamente violentas, pornografia e um desejo de ir além da “decência comum”. Materiais tradicionais foram substituídos por detritos. O discurso dos artistas passou de pomposo a impetuoso.

“The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living” (D. Hirst).
Tinham uma propensão para intrigas (pense em proto-influenciadores). Como na vez em que Charles ameaçou despejar um grande número de seus Hirsts, incluindo o tubarão congelado, forçando a galeria de Hirst foi obrigada a comprá-los de volta por muito mais do que haviam vendido (The History of the Saatchi Gallery).
O YBA acabou se revelando uma fábrica de milionários, tendo produzido alguns dos artistas vivos mais ricos de nossa era. Reafirmou o poder de colecionadores e curadores em manejar a percepção do público. Hirsts e Shermans são detidos hoje pelas coleções mais conceituadas do mundo.
Lembra do tubarão que Saatchi uma vez ameaçou dumpar? Tendo originalmente pago $50K, ele acabou revendendo a peça por ~$ 7M.
🔹 Ethereum, 2020s
A versão etherina de Saatchi é Pablo Rodriguez-Fraile, um visionário da arte que vive em Miami.
Como Charles, Pablo revendeu uma obra de algumas dezenas de milhares de dólares por ~ 7 milhões. As diferenças: não era um tubarão congelado, mas um GIF de 10 segundos. E o negócio levou meras semanas, em vez de 13 anos que Saatchi teve de esperar.
CryptoPunks — a coleção "old school" de NFTs.
A "Renascença na Ethereum" é chamada de bolha por muitos. É difícil contra-argumentar. Mas um crash não significará que não é histórico.
Todo criador que se preza — do críptico Beeple ao famosíssimo Logan Paul, passando por menores de idade como Fewocious—está surfando na onda dos NFTs. NFTs são tokens não fungíveis. Certificados digitais de autenticidade.
“NFTs” nasceram em 2017, na forma de CryptoKitties e CryptoPunks. No ano passado, eles ressurgiram, principalmente sob o disfarce de “cripto-arte”.
Jovens descolados os vendem em leilões cronometrados, junto de artefatos que vão desde imagens digitais até edições físicas emolduradas, passando por calçados e ingressos para shows. Em eventos 100% virtuais, altamente antecipados. Que levantam milhões em criptomoedas.

Celebridades e anônimos já venderam ~100 milhões de dólares em cripto-arte, só em 2021. Quase mil artistas têm mais de $10k em vendas. Via CryptoArt.
Este não é um marco na História da Arte pelos preços estratosféricos. Nem porque a Christie’s está comprada na ideia. Mas sim pelos contornos arquetípicos do movimento.
A cripto-arte nasce de uma centelha filosófica original; um avanço em tecnologia financeira e técnicas artísticas nativas — um novo meio. Sacia anseios de muitos historiadores ao longo dos últimos 30 anos.
A centelha filosófica aqui é que tudo se tornou passível de falsificação. De vídeos do Tom Cruise a obras-primas modernistas, a realidade já é indistinguível da hiper-realidade.
Assim como a fotografia está para os surrealistas, os deep fakes estão para os cripto-artistas.
A única arte cuja autenticidade pode ser atestada objetivamente é aquela digital e assinada criptograficamente.
A cripto-arte vai além da indagação modernista sobre “O que é real?” ou “O que significa arte?”. A pergunta se torna “O que realmente significa possuir arte?”.
Não importa que a obra seja reproduzível; ela já o é faz tempo. O que importa é que agora há uma nova forma de possuir, de sinalizar status no metaverso, de se exibir sem ter que revelar quem se é.
A técnica artística nativa aqui é arte generativa e eternizada on-chain — para sempre reproduzível, comprovadamente única e perfeitamente atribuível.
Alguns dos Autoglyphs originais (via Larva Labs).
A inovação financeira é autoevidente. Pela primeira vez, há um mercado acessível e líquido para se especular sobre memes. As pessoas estão fazendo investimento-anjo em cultura.
As formas finais desse grande experimento em modelagem de negócios não importam — a história não liga se o legado dos NFTs são esquemas de precificação dinâmica, mercados secundários públicos ou royalties perpétuos para artistas.
O que importa é que artistas encontraram uma avenida direta e lucrativa para seus fãs, contornando galerias e, no longo prazo, forçando a indústria a se reinventar. No mais, existe uma linguagem totalmente nova para descrever a mudança de paradigma.
Pode ser tolice entrar no FOMO e começar a acumular cripto-arte agora. Mas provavelmente seja mais tolo ainda ignorar que tem algo de histórico acontecendo.
Detratores proclamam que a criptoarte é burra e ambientalmente nociva. Estatistas questionam a legalidade do meio. Maximalistas, sua moralidade.
Pois lembre-se da arbitragem moral dos Medici, lá em 1400 e bolinha. Uma variante dela está sendo praticada. Os cultos condenam a natureza especulativa da situação. Artistas vanguardistas são por vezes retratados como pecadores.
Mas a história é inequívoca: entre pecadores e santos, a diferença são só narrativas, perspectiva e uma boa dose de alinhamento de incentivos.

“The Underground Sistine Chapel” (Pascal Boyart).