📰 Recap Semanal: "Simps" e Economia da Bajulação
Como uma cripto-influenciadora provocante + um indonésio que tirou 5 mil selfies podem ter inaugurado a próxima geração de NFTs.
O recap dessa semana começa com as 2 histórias mais relevantes da NFT-lândia. Depois te atualiza sobre o projeto mais quente de DeFi nesse começo de ano, ainda para ser lançado. E, por fim, fala de regulação, te inteirando da class action lawsuit aberta contra a PoolTogether nos EUA.
NFTs
Irene DAO, a Economia da Bajulação, e uma Provável "Simp Season"
Nos últimos dias, uma influencer tem mostrado o potencial dos NFTs para um propósito peculiar: simping. Simp é um termo que define seguidores em redes sociais que bajulam constantemente seus influencers favoritos.
Em 14 de janeiro, Irene Zhao, uma cripto-influenciadora com mais de 100K seguidores no Twitter e 380K no Instagram, lançou uma coleção com 1.107 NFTs mintados gratuitamente, contendo frases típica do cripto-linguajar junto a fotos suas. Cada uma delas representa um passe para participar da Irene DAO.
Irene promete revolucionar a economia dos criadores de conteúdo em parceria com a So Cool, uma versão descentralizada do Only Fans (ou Patreon).
A princípio, a Irene DAO foi desenvolvida como um proof of concept da So Cool. A ideia era prototipar comunidades erigidas inteiramente sobre NFTs. Não demorou até cunharem o conceito de simpconomics.
Mesmo com o foco voltado para sua comunidade de fãs, a Irene DAO atraiu personalidades influentes no mundo cripto. O CEO da Galaxy, Mike Novogratz, divulgou em seu Twitter a aquisição de NFTs e apoio à Irene DAO. O youtuber Logan Paul comprou 20 NFTs da coleção, pela pechincha de $280 mil dólares.
À esquerda, o tweet de Mike Novogratz "bajulando" a IreneDAO. À direita, os NFTs adquiridos pelo Logan Paul - que parece ter comprado o topo.
Atualmente o floor price da coleção gira perto de ~0,6 ETH e já foram negociados mais de 2K ETH - $6,72M de dólares.
Com alguns apostando em uma "simp season", muitas versões de NFTs simps proliferaram-se no Twitter e Opensea, emergindo dezenas de novas coleções baseadas nesta narrativa. Até mesmo Ghozali Ghozalu, criador da coleção Ghozali Everyday, tem mostrado intenções de lançar sua própria DAO baseada em seus NFTs.
Como acontece com toda coleção de sucesso no OpenSea, logo surgiram clones da Irene DAO, pegando carona no hype. Caso queira aventurar-se nessa seara, sempre busque links diretamente da fonte - Twitter ou Discord da comunidade.
Ghozali, o indonésio de 22 anos que arrecadou 1,2M de dólares com selfies
Ghozali Ghozalu é um jovem de 22 anos, estudante de ciência da computação na Indonésia. Ele vem tirando selfies nos últimos 5 anos, dia após dia, e as compilou num vídeo como uma recordação. Viu então a possibilidade de transformar todas as fotos em uma coleção de NFTs e vendê-las no OpenSea. Com um preço inicial de mint de 3 dólares e sem despender um centavo com marketing, viu suas fotos terem adoção no meio cripto e ficou rico do dia para noite.
Cripto-influenciadores como Jejouw e o chef de cozinha indonésio Arnold Poernomo - com 2,1M de seguidores no Twitter - começaram a divulgar a coleção e adquirir as obras, fomentando um crescimento orgânico na popularidade dos NFTs. Com “uma história por trás de cada foto”, Ghozali atraiu atenção de colecionadores e já foram transacionados mais de 370 ETH - ~1,2M de dólares - entre compras e vendas de seus NFTs.
O súbito sucesso do jovem estudante nas redes atraiu a atenção do órgão estatal da Indonésia, indicando-o pagar seus impostos sobre os ganhos obtidos com os NFTs. Em resposta, Ghozali argumentou que seria “o primeiro pagamento de impostos de sua vida”.
Curiosamente, com o nascimento desta simp season, Irene DAO e Ghozali têm discutido parcerias. Não sabemos ao certo se haverá benefícios aos detentores dos NFTs da Ghozali Everyday, mas já projetos bizarros fundindo fotos da Irene Zhao com o jovem indonésio.
DeFi
Redacted Cartel encontra vulnerabilidade em um de seus smart contracts
No dia 15 de janeiro a [REDACTED] divulgou no seu Twitter a notícia de que um whitehat havia encontrado uma vulnerabilidade de $3M de dólares nos smart contracts do token wxBTRFLY - a versão wrapped do BTRFLY em stake do protocolo. Como o problema foi encontrado antes de um eventual ataque, os fundos dos usuários não foram afetados.
Junto da ImmuneFi (plataforma de bug bounties) e de Zeus (um dos principais desenvolvedores da Olympus DAO), a [REDACTED] lançou um novo contrato para o wxBTRFLY. Os usuários com tokens em stake no antigo smart contract devem sacar seus fundos e revogar a permissão para interação com sua wallet.
A divulgação do exploit impactou diretamente no preço do token, assim como "a corrida rumo à porta de saída" que acometeu a Olympus DAO nos últimos dias. O market cap do BTRFLY acumula uma queda forte na última semana.
Andre Cronje e Daniele Sesta Juntam Forças Para Lançar um Novo Modelo Tokenômico
Fonte: Frog Radio
Andre Cronje vem publicando uma série de artigos explicando os conceitos de funcionamento de seu novo projeto com Daniele Sesta - a figura por trás da Abracadabra Money e Wonderland. Juntos, têm construído uma forte comunidade de seguidores intitulada Frog Nation.
A ideia dos desenvolvedores é criar um AMM misturando os conceitos dos tokens vote escrow e o (3,3), lema dos OHMies.
O token vote escrow ou veTKN é um modelo tokenômico implementado primeiramente pela Curve, e adotado por muitos protocolos em DeFi, como Convex, Frax e Badger DAO. Seu objetivo primaz é diminuir o número de tokens em circulação, travando-os no protocolo por um tempo pré-determinado (em troca de um veTKN), e permitindo apenas aos detentores dos veTKNs participarem da governança.
O (3,3) é um mantra da comunidade Olympus DAO. Memetiza a teoria dos jogos por trás das opções de Buy, Bond and Stake, que todo detentor de OHM pode escolher entre. O mantra sugere que a melhor situação para os detentores do token é comprar Bonds do protocolo - uma ação que deposita OHMs nos smart contracts do sistema em troca de um direito futuro a cash flow, causando diminuição no número de tokens em circulação.
Cronje e Sesta desenharam o ve(3,3) misturando ambos os conceitos.
Não haverá airdrop ou ICO dos tokens. O projeto irá distribuir NFTs entre os 20 protocolos com maior TVL segundo o DeFi Llama, e estes NFTs darão o direito de votar nas pools do ve(3,3) para determinar a provedores de liquidez de quais delas (e em qual proporção) a inflação deve ser alocada.
Regulação
Pool Together Inc. é acusada de oferta de serviços de loteria sem autorização nos EUA
A Pool Together é um famoso protocolo que introduziu em DeFi o conceito de “loteria sem perdas”. Escrevemos um artigo explicando com detalhes sobre seu funcionamento. Loterias são um tema bem controverso em muitas nações. No Brasil, somente o governo federal e estadual podem prover esse serviço, com a exceção de concursos culturais, artististicos ou distribuição gratuita de prêmios para fins promocionais por entidades privadas. Não se enquadrando em nenhuma das hipóteses de exceção, a Pool Together estaria atuando ilegalmente em território brasileiro.
Os EUA têm muitas diferenças em sua legislação em relação ao Brasil, mas ambos países possuem limitações quanto a oferta de serviços relacionados a loterias.Há regulamentações nos Estados Unidos que permitem instituições financeiras comercializarem o produto da Pool Together - chamado de prized linked saving accounts - para a população, mas somente após a concessão de autorização de órgãos federais e estaduais.
Estas restrições motivaram Joseph Kent, um americano de Nova York que depositou totais 10 dólares na Pool Together, a mover uma ação coletiva contra o dapp que oferece seus serviços de no-loss lottery no mundo todo. Baseando-se nesta premissa e na legislação estadual, requer o pagamento do dobro dos valor das apostas realizadas pelos apostadores. Com um TVL de $68.5M de dólares, o valor de uma eventual multa pode chegar a $137M.
Como não é possível processar smart contracts, Kent tornou réus a Pool Together Inc. e alguns investidores do protocolo, inclusive a Compound Labs Inc. A dificuldade em responsabilizar aplicativos descentralizados pelos serviços fornecidos a usuários tem conduzido os reclamantes e reguladores a processarem desenvolvedores e empresas investidoras, como nos casos da Uniswap Labs e Do Kwon, fundador e CEO da Terra Labs vs SEC.
A ideia do direcionamento da responsabilidade aos criadores e idealizadores dos código dos dapps ganha respaldo com a publicação das últimas recomendações do GAFI sobre ativos digitais e DeFi em outubro do ano passado. No texto, o órgão evidencia a dificuldade em parar os aplicativos descentralizados e exime os detentores de tokens de governança da responsabilidade do aplicativo. Porém, incube aos desenvolvedores a tarefa de atender as medidas de compliance exigidas pelos países em que oferecem seus serviços.
No caso específico da Pool Together vs Kent, pode existir um incômodo daqueles que exploram a atividade de loteria em Nova York. O estado é um dos principais arrecadadores na venda de bilhetes de loterias a população nos EUA e tratando-se de no-loss lottery, possui concorrentes no meio tradicional.
Com a adoção de serviços descentralizados pela sociedade, os reguladores e entidades privadas buscarão minar seu desenvolvimento, tentando adequá-los aos parâmetros estabelecidos para empresas centralizadas. Mas há pessoas dentro de órgãos reguladores cientes da necessidade de criar uma legislação adequada ao cenário de DAOs, governança via tokens e dezenas de milhares de contribuidores decidindo o futuro de um protocolo. Dentre elas, destaca-se o trabalho realizado pela Comissária Hester Peirce. Recomendamos a leitura de seu discurso na Texas Blockchain Summit em outubro de 2021.