☠️ Post-Mortem da FTX e 9 Tokens Pedindo Pra Ser Shortados
Formas de aprender e lucrar com a queda do jovem vegano altruísta.
A 2ª maior corretora de cripto colapsou. Sam Bankman-Fried perdeu mais de U$15B em menos de uma semana.
Nossa newsletter pública dessa semana explicou o caso. Nesse boletim Pro, vamos fazer um post-mortem. O que essa catástrofe nos ensina? Quais os próximos corpos que podem aparecer boiando na praia? Onde tem oportunidade de short?
🧪 A Fórmula Mágica da FTX
Em 2017-18, as maiores fortunas do ciclo foram feitas imprimindo e vendendo tokens. EOS, ADA e DOT, por exemplo, são moedas criadas por quem já trabalhara em outros projetos antes, mas ainda não tinha enriquecido “o suficiente”.
Em 2020-21, o jogo evoluiu. Os tokens impressos no ciclo passado foram esmagados pelas vendas constantes do emissor centralizado. A maturação de DeFi criou uma nova estratégia vencedora: imprimir tokens e reter parte da oferta não pra vender na cabeça do varejo, mas sim pra usar de margem na tomada de empréstimos.
Os maiores fundadores de DeFi fizeram isso à beça em 2020-21. “Ser listado na Aave” virou o novo “ser listado na Binance”. Sam Bankman-Fried aperfeiçoou o game.
Sua sacada foi a de que poderia ser um net buyer, e não uma pressão de venda ininterrupta, nos tokens que imprimisse. Se conseguisse segurar seus preços, por meses que fosse, conseguiria “hipotecá-los” para pegar crédito na forma de dinheiro de verdade - BTC, ETH ou stablecoins.
Um recorte da rede de interesses de Sam Bankman-Fried.
Você pode achar que ninguém seria tonto o suficiente de aceitar como garantia a moeda que alguém recém imprimiu. Mas estamos falando de cripto. O ponziverso mais selvagem da internet.
Primeiro, SBF era dono de uma corretora - e ela mesmo podia aceitar tokens-fantasia de colateral pra prover empréstimos.
Segundo, DeFi é um ambiente livre, e qualquer protocolo pode adicionar um token à sua lista de “colaterais permitidos”, se a comunidade assim decidir. Em muitos desses protocolos, a governança é plutocrática, e SBF detinha enorme influência.
A fórmula foi repetida à exaustão:
- 1) Criar um token onde 90-99% da oferta é travada, e só terá liquidez em anos.
- 2) Vender ou airdroppar um percentual pequeno da oferta.
- 3) Reter uma boa parcela da oferta (10-50%) para si, mesmo que ilíquida.
- 4) Listar o token como colateral em protocolos de crédito e exchanges, se alavancar ao máximo.
Esse modelo ganhou até apelido: SamCoin.
As SamCoins mais proeminentes são FTT, SRM, OXY, MAPS e FIDA.
Só entre essas 5, SBF tinha 12 bilhões de dólares no seu balanço. Esses bilhões jamais seriam realizáveis vendendo-se as moedas - a liquidez delas é minúscula. Mas, sendo dono de uma exchange com bilhões em saldos de clientes, SBF teve a ideia de emprestar o dinheiro ocioso dos clientes da corretora contra essas garantias fajutas.
Quando CZ anunciou a venda de sua posição de FTT, o token caiu 92% em 3 dias. Dívidas da FTX foram chamadas… e SBF viu que tinha muito menos ativos do que passivos.
Uma breve linha do tempo dos eventos que culminaram na queda da FTX.
☠️ Quais os Próximos Dominós?
As estrelas mais brilhantes em cripto são sempre vítimas de sobreajuste (overfitting) às condições em que florescem.
Quem brilhou na onda dos ICOs perdeu a febre de DeFi. Quem arrebentou em DeFi não estava atento à ascensão dos NFTs. As arbitragens, farms e degenerisses que catapultaram SBF à fama não mais lhe sustentaram em 2022.
Os corpos começaram a surgir boiando na praia depois do caos.
A BlockFi cessou operações. A Genesis, que perdeu U$ 175M na FTX, travou saques e sua dona (o todo-poderoso conglomerado DCG) está buscando um resgate de U$ 1 bilhão.
Nexo e Crypto.com são empresas envolvidas no mercado de cripto-crédito e que correm risco, mas seguem operando.
A Huobi perdeu U$18M na corretora falida. A Multicoin Capital, mais de U$ 800M - e viu seu fundo derreter 55% só em novembro.
Os maiores perdedores diretos da catástrofe da FTX.
Os balanços dessas entidades em risco nos dão uma ideia de tokens que podem fraquejar no mercado atual.
Acreditamos que a Genesis pode dominar as manchetes na semana que vem.
A mesa de crédito da toda-poderosa DCG busca U$1B em caráter de emergência pra cobrir o rombo deixado pelos calotes da 3AC e da FTX. Ainda que, em caso de falência, a Genesis provavelmente seja isolada do resto do grupo… o baque reputacional pode respingar nos “ETFs” da Grayscale (que também é da DCG).
Os tokens pros quais a Grayscale mantém “ETFs” devem agir como proxies pra essa narrativa, e podem ser boas opções de short pra quem quiser apostar contra Barry Silbert (veja na tabela abaixo). O ETC parece particularmente adequado, dada a ligação íntima com a DCG e o vácuo deixado pela narrativa do The Merge (que faria mineradores órfãos do proof-of-work migrarem pra Ethereum Classic).
Na Solana-lândia, SRM e MNGO estão especialmente fragilizados, mas é mais difícil shortá-los.
Na carona da narrativa das insolvências, e de que o crédito em CeFi está colapsando, NEXO e CRO estão vulneráveis.
Alguns dessa lista ainda tem o bônus de serem posições da Multicoin, que deve passar por algumas liquidações no fim do ano de forma a atender resgates depois da catástrofe da FTX.
Circulados em vermelho, os tokens mais fáceis de se acessar derivativos.
👨🔬 Curvas de Utilidade e Gestão de Risco
Dois memes despontavam no vocabulário de SBF: “Valor Esperado” (EV) e “Função de Utilidade do Dinheiro” (logarítmica ou linear).
O valor esperado de uma ação é a soma do valor de cada um dos seus resultados possíveis, vezes a probabilidade de cada resultado.
O conceito é útil em trading, e na vida como um todo. Utilitarista, SBF aplicava esse cálculo à maioria de suas decisões - pessoais e de negócio.
Em uma entrevista, chegou a afirmar que aceitaria uma aposta com 51% de “dobrar” a Terra e 49% de dizimar ela - implicando uma propensão ao risco anormal. Apesar do valor esperado positivo, essa aposta, se continuar sendo jogada, mais cedo ou mais tarde, extermina a humanidade.
Trecho polêmico de entrevista do SBF com o Tyler Cowen.
A justificativa do SBF envolve sua “função utilitária”. A maioria das pessoas atribui utilidade marginal decrescente ao dinheiro. Isto é, o primeiro milhão de dólares te deixa muito mais feliz que ganhar 1 milhão quando você já tem 10 na conta.
Para SBF, a utilidade marginal do dinheiro não era decrescente, mas linear.
Ele e o Altruísmo Efetivo pregam que a maioria dos problemas globais que encaramos pode ser atenuada simplesmente com mais dinheiro.
Se U$ 4.5K dólares investidos no combate à malária salvam 1 vida por ano; a escala do problema é multibilionária; e você quer atacá-lo com doações… faz sentido atribuir tanto valor ao seu milésimo dólar quanto ao seu bilionésimo.
Essa linha de raciocínio estava por trás da ambição desmedida do SBF, e dos riscos que, em última instância, levaram-no à ruína.
No seu blog, Caroline Ellison, CEO da Alameda, endeusa o mesmo modelo mental, diversas vezes. O comentário abaixo é sintomático.
“A maioria das pessoas vê utilidade marginal decrescente no dinheiro, e evita apostas com risco de perder tudo, mesmo que o valor esperado seja positivo”. Ela completa: “este blog discorda - endossa a alavancagem e apostas do tipo ‘tudo-ou-nada’”.
Como perder 10 bilhões de dólares - por Caroline, CEO da Alameda.