Paradigma

🤝 Politicagem on-chain: O lado oculto das DAOs

Replicando problemas da política tradicional na criptosfera.

Nas últimas 2 décadas, crises econômicas fizeram florescer a polarização de discursos. Cresceu o descontentamento das populações com suas respectivas democracias.

Numa pesquisa realizada em 25 países, 51% das pessoas entrevistadas disseram-se insatisfeitas com a democracia. Entre as principais motivaçõesestão: supressão de liberdades individuais, ausência de mudança do status quo ecorrupção entre políticos.

Mesmo com as falhas em nossos sistemas democráticos, organizações descentralizadas utilizam modelos de votação direta para coordenar suas operações. As DAOs tentam aperfeiçoar suas governanças, inserindo atualizações e modificações para diminuir os problemas inerentes à politicagem interna.

Nessa pesquisa, mostramos como organizações descentralizadas podem ser ainda mais corruptíveis que as da política tradicional.

🏛️ Parlamento e partidarismo on-chain

O parlamentarismo é um sistema de governo democrático, no qual as ações do Poder Executivo são condicionadas a aceitação do Poder Legislativo. Graças a história da política no Brasil, mesclamos este modelo com o presidencialismo, elegendo democraticamente o Chefe de Estado/Governo.

O Congresso Nacional é o Parlamento brasileiro. Organizado através de um sistema bicameral, os membros da Câmara e Senado são responsáveis por elaborar/criar leis, aprovar propostas de seus semelhantes, fiscalizar ações do Executivo e vetar, quando necessário, atos nocivos a nação.

Na Câmara dos Deputados, PL, PT, PP, UB e MDB são os partidos mais influentes. No Senado, MDB, PSD, PL e PP detém maior poder de voto.

Para aprovar suas pautas, os políticos organizam-se em partidos, unindo pessoas por seu viés ideológico, interesses comerciais e estratégias para captação de votos para suas propostas.

Nas DAOs, a mesma teoria é aplicada.

Pessoas compram tokens para participar de votações. Com eles, conseguem submeter suas propostas e aprovar ou recusar ideias apresentadas por outros participantes da DAO.

Internamente, pessoas constroem alianças para conseguir aprovar suas pautas. É uma união velada, mas com semelhanças ao partidarismo na política tradicional. Não constam em nenhum explorador de blocos ou plataformas: manifestam-se em grupos privados do Discord ou Telegram.

Acima, vemos um mapa de "partidos internos" na Nouns DAO.

Os Nounders, compostos por seus fundadores, adotam um posicionamento conservador em relação aos gastos da organização.

Isto materializa-se com a o aumento de votos contrários a propostas, somada a sua ausência na governança da DAO. Optar por não votar na governança é uma maneira tácita de demonstrar sua discordância com os projetos.

O Nouncil é um conselho da Nouns DAO, composto por pessoas envolvidas em derivativos da coleção ou responsáveis por propostas que ajudam a expandir seu ecossisteama. São reconhecidos por reunir os maiores builders da organização e posicionam-se a favor da maioria das projetos apresentados na DAO. Desde sua concepção, apoiaram 79% das propostas.

Will Price é uma figura emblemática na DAO. Possui 17 Nouns e tem apoio de outros membros da comunidade, como DCInvestor, gmoney e Lil Nouns DAO. Esta última, é uma subDAO, na qual Will Price é um bag holder de tokens e comanda o uso dos 8 votos da organização.

Cada um dos partidos da DAO tem seus respectivos apoiadores.

Os Nounders recebem o suporte de Noun 22, contribuidor responsável pela atividades diárias na organização: 66% de todos os votos dados por ele, são alinhados ao posicionamento dos fundadores.

Para aprovar suas pautas, o Nouncil também une-se a outros membros da DAO. Por ter mais de uma dezena de membros, torna-se mais difícil coordenar as expectitativas de todos. Ainda assim, conseguem captar apoiadores como apenoun e Noun40: ambos replicaram o comportamento do Nouncil em 51% das votações.

Com seu poderio de votos, Will Price não detém o apoio da comunidade na Lil Nouns DAO, mas dinheiro suficiente para comprá-la e coordená-la, quando for de seu interesse. De todas as propostas em que a subDAO participou na governança da Nouns DAO, 83% dos votos realizados foram ditados pelo Nouner, demonstrando a fragilidade na governança da organização.

Por outro lado, temos um eixo de polarização diferente na Maker DAO.

Com uma governança comandada por Delegados, estes dividem-se em 2 ideologias distintas: a centralização e a descentralização.

Hasu, monetsupply e outros unem seu poder de voto para aprovar pautas vinculando o protocolo a investimentos tradicionais e uma estruturação mais corporativa.

Doo, schuppi. Flip Flop Flap e seu partido, unem-se para conseguir expandir a DAI no cripto-mercado, sem abrir mão da descentralização.

Em ambas as DAOs, ainda há pessoas neutras, abertas a votar em qualquer proposta.

No fundo, é impossível mensurar quantas e como são organizadas as lideranças internas de uma organização descentralizada.

Diferente dos partidos políticos tradicionais, não há um registro do partidarismo on-chain Surge, assim, um obscuro universo de metaDAOs. Estas são capazes de aprovar pautas contrárias ao objetivo da coletividade e suprimir propostas alheias aos grupos de lobby.

Nesta disputa por poder, vencem as pessoas que organizam-se com mais eficiência.

Apesar da força política dos partidos - tradicionais e on-chain -, nem sempre seus membros são suficientes para aprovar as propostas. Para conseguir aumentar esta influência, políticos dependem de um lobby eficiente para conseguir apoio para suas pautas.

🗳️ Lobby: do Congresso para o Discord

O termo “lobby” nasceu de uma referência aos empresários que ficavam rondando o lobby do hotel Willard - que o presidente americano Ulysses Grant frequentava -, tentando oferecer drinks e cigarros aos políticos presentes para influenciar decisões na Casa Branca.

O dinheiro gasto no lobby com pautas do cripto-mercado supera setores como petróleo, transporte e defesa. Fonte: Bloomberg.

Esta prática é legalizada e comum na política tradicional. Segundo a Statista, foram gastos U$3.7B com lobby, só nos Estados Unidos. No Brasil, não temos dados precisos, mas pesquisadores apontam o uso das mesmas ferramentas pelo setor privado para aprovar suas pautas na Câmara e no Senado.

Os bilhões gastos nesta indústria são destinados para a compra de apoio para criar legislações favoráveis e/ou atrasar debates negativos para determinados setores.

Além do lobby privado, há também aquele realizado pelos parlamentares.

Estes usam de subterfúgios para convencer seus colegas a aprovarem suas pautas, não só com dinheiro, mas também com troca de favores e um bom relacionamento..

Por fim, mas não menos importante, a compra de voto acontece de modo mais ou menos escancarado.

Estes artifícios todos não são exclusivos de um ou outro sistema, mas emanam da natureza política do próprio ser humano.

A compra de voto é uma prática comum nas DAOs, com plataformas que analisam a variação do Custo por Voto (esquerda) e pessoas oferecendo propina em fóruns (direita). 

Alguns protocolos DeFi a institucionalizaram, criando contratos inteligentes focados na distribuição de propinas aos votantes. Existem projetos focados na otimização de subornos, automatizando a venda do voto pelo melhor preço.

Esta dinâmica, antes exclusiva de protocolos interessados em aumentar a liquidez de suas pools, começa a ganhar proeminência em outros modelos de organizações. A Paladin possibilita alugar poder de voto, atuando como um protocolo de empréstimo para subornos.

Ironicamente, a venda de voto através de protocolos é a maneira mais transparente para comercialização de influência política on-chain, atualmente.

Assim como na política tradicional, no entanto, o lobby mais poderoso não é visível para todos.

Bom relacionamento: criar amizades com todos na DAO é uma ótima ferramenta para captar votos. A baixa participação de seus membros na governança, leva-os a apoiar propostas por critérios subjetivos, votando em ideias de amigos sem analisar seu benefício real para a DAO.

Trecho do pitch de Flip Flap Flop, delegado da Maker DAO. Discursos que apelam para o sentimentalismo dos holders podem ser um método para atrair votos delegados.

Todas as maneiras para conseguir mais poder em organizações descentralizadas refletem as mesmas deficiências da política tradicional. A inserção de contratos inteligentes somente digitalizou o lobby, e o tornou mais transparente

Este jogo de influência só funciona porque há pouca participação dos membros na governança das DAOs. São os mais ativos queditam o futuro dessas organizaçõesO turnout baixo não é problema exclusivo das organizações descentralizadas: sistemas democráticos sofrem do mesmo.

🙅‍♂️ Votar? Não, obrigado

Oceania e Europa foram os continentes com o maior declínio no turnout em eleições nacionais nas últimas décadas. Fonte: IDEA.

Dados do IDEA apontam uma diminuição na participação das pessoas em eleições de governos democráticos. O desinteresse nas votações não é restrito a um único continente, encontrado em nações do mundo inteiro.

Cientistas políticos apontam que a apatia eleitoral é uma das principais causas dessa diminuição no turnout. Dentre os motivos para ela ser desencadeada, estão:

Mesmo em relação a países com votação compulsória e punições àqueles que não comparecem, como no Brasil, diminui o comparecimento de eleitores nas eleições.

As DAOs esbarram na mesma apatia de seus membros.Muitos deles:

A ApeCoin DAO é um exemplo de baixa participação numa DAO com um “caixa” de U$30M. via beetle.

Diante das fragilidades das governanças, o turnout de uma DAO pode ser 20x menor do que um país num regime democrático.

Na ApeCoin DAO, por exemplo, há uma participação média de 4% entre os holders de APE. Este problema acarreta na aprovação de propostas pelas poucas pessoas engajadas na sua governança, mas que afeta todo o seu ecossistema.

Outras organizações descentralizadas conseguem melhorar sua eficiência, fomentando na comunidade a delegação para pessoas mais envolvidas com o dia a dia das operações.

Sob este regime, a Nouns DAO conseguiu aumentar seu turnout para 35% e a Maker DAO segue obtendo sucesso, remunerando seus Delegados Reconhecidos para trabalharem ativamente na governança.

Independente dos problemas, há uma grande diferença entre as democracias de Estados e a a governança nas DAOs: a capacidade das organizações descentralizadas experimentarem novos modelos para melhorar sua eficiência.

Seja incentivando a participação com remuneração para os votantes ou centralizando o poder de voto naqueles mais participativos, moldar um sistema adequado para as DAOs pode ser feito sem as amarras burocráticas da legislação.

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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