Paradigma

🤡 Política Como Guerra Cultural

Um guia para o pensamento crítico na tormenta dos anos 2020.

Esta é uma tradução livre, adaptada e remixada do texto “Understanding the Blue Church”, de Jordan Hall. Foi publicada originalmente em 2018.

“O principal eixo da política ocidental não mais opõe ‘esquerda’ vs. ‘direita’; nem conservadores vs. liberais - mas o establishment vs. o anti-establishment"

“We shape our buildings; there after they shape us” — Winston Churchill (arte de Selman Hosgor)

O livro “Making Things Work” descreve com minúcia as relações entre complexidade e estruturas de controle social. A ideia central é simples.

A coerência é um conceito-chave na gestão da complexidade. Quando se tem sistemas complexos, e se é capaz de sincronizá-los, a complexidade do sistema resultante é radicalmente simplificada. Não estamos falando de matemática, nem de física. Estamos falando de gente.

Imagine uma canoa comprida e larga, com um remador lá na frente e outro atrás. Se você já remou, sabe que não é tão simples. Tem certa arte envolvida. Se ambos falarem alto o suficiente, checarem um ao outro com frequência, e se concentrarem, conseguem manter a embarcação no rumo com relativa facilidade.

A relação entre a canoa, a água, os remos e os indivíduos é complexa. Os sistemas se retro-alimentam de modo sutil e difícil de prever no detalhe. Mas um adulto médio tem “capacidade de controle” suficiente para gerir essa complexidade: fazer a brincadeira funcionar sem a canoa virar, ou ficar encalhada no mesmo lugar.

Adicionemos um ou dois remadores no meio do barco. Torna-se mais difícil manter a sincronia entre os remos. Talvez seja preciso restringir certa liberdade para evitar acidentes e ganhar eficiência. Algo como colocar os remos num apoio que limite seus movimentos a um arco — entra na água, rema, sai da água, puxa — necessário para propelir a canoa. Induzir os remadores à “coerência” faz com que a complexidade do problema se mantenha dentro da capacidade de controle.

“Remem!”

Agora pense numa canoa com 12 remadores. Por mais que se tente, é difícil que um grupo grande de pessoas se “auto-organize” num organismo eficiente. A não ser que alguém esteja no controle.

Coloque um timoneiro na proa. Mesmo que a função desse líder seja somente a de gritar “remem!” na hora certa, reduzindo o trabalho de todos os remadores a responder este comando.

O que fizemos foi substituir uma dúzia de indivíduos por um “grupo” e um “líder”, numa hierarquia de controle. Isto é uma simplificação radical, claro. Como os gregos e romanos descobriram há muito tempo, o mecanismo é escalável.

A quantidade de “sinais” subindo e descendo a hierarquia tem de ser extremamente simples, para não escapar à “capacidade de controle” de cada indivíduo (“Remem!”). Já imaginou se os remadores tivessem de remar e debater sobre a direção da canoa ao mesmo tempo? É uma coisa ou outra.

Tomemos nota: (1) A complexidade do sistema. (2) Nossa habilidade de simplificar o sistema. A (3) “capacidade de controle” disponível para gerir o sistema simplificado.

A complexidade da vida moderna

Não precisa nem levar em conta as últimas duas décadas…

Nos últimos 150 anos, passamos por uma explosão populacional sem precedentes. Com ela, uma explosão de complexidade social.

Pela primeira vez na história, a humanidade migrou de uma maioria rural para uma maioria urbana, acelerando o ritmo do cotidiano e intensificando a interação social que decorre da vida na cidade. Cavalos deram lugar a ferrovias, que foram trocadas por carros, que foram suplementados por aviões. O mundo se encolheu a uma meta-comunidade conectada.

Fomos da primeira postulação da teoria evolucionista, por Darwin, em 1859, até a descoberta do DNA por Crick e Watson, em 1953. Fomos da primeira teoria do eletromagnetismo em 1864 ao desenvolvimento da bomba atômica em 1945. Que par de séculos! 😳

O crescimento exponencial de complexidade criou um problema. As formas de controle social que nos conduziram ao século XIX se mostraram inadequadas aos níveis inéditos de embaraço do século XX. A sociedade civilizada não funciona sem uma estrutura regulatória adequada ao seu nível de complexidade.

Gino Severini (1909–1911), futurista.

Um novo tecido ideológico houve de emergir em resposta ao fenômeno.

Chamemos de Igreja Azul a estrutura de controle que resulta “naturalmente” do fenômeno das mídias de massa.

Trata-se de uma função que evoluiu (não “foi planejada”) ao longo do último meio século e acabou por se associar ao establishment democrático e ao “Estado Profundo” (falaremos mais adiante), originando uma força cultural politicamente eficaz e dominante no mundo ocidental.

Pode-se traçar as origens da Igreja Azul ao começo do século XX, quando emergiu em reação às vocações da mídia de massa para o controle social. No meio do século, passou a exercer papel cada vez mais ativo na formação e moldagem de instituições produtoras de cultura. Difundiu-se nas últimas cinco décadas e parece ter atingido um pico na primeira década do século XXI. De uns anos para cá, começou a desmoronar.

A paisagem midiática

A tecnologia não é de todo neutra. Como Marshall McLuhan escreveu, “quando inovamos, nós nos tornamos aquilo que vislumbramos. Damos forma a nossas ferramentas, e elas nos transformam de volta”.

Imagine uma paisagem com colinas. Aproxima-se um temporal — o que acontece? Não é preciso ser um gênio para prever: a água escoa, acumula-se nos vales e, dependendo dos sulcos, forma lagos ou corre por um rio.

Uma vez que se enxerga o “relevo” de uma determinada paisagem e se entende a natureza das forças agindo sobre ela, é possível fazer previsões mais ou menos certeiras sobre como fenômenos, ali, devem se desenrolar.

A paisagem da mídia é como… uma paisagem. Pode cair um meteoro, ou o lago pode transbordar e dar origem a uma cachoeira, é claro. Mas, em linhas gerais, se você conseguir enxergar o “relevo”, dá pra ter uma boa ideia do que vai acontecer.

Os tipos de dinâmicas socio-comportamental que emergem em torno da tradição oral são bem diferentes daqueles que tomam forma em torno da mídia letrada.

O século XX foi abundante em saltos tecnológicos. Um dos mais relevantes (o trocadilho com “relevo” é intencional) foi o desenvolvimento da “mídia de massa”. Por mais que estas novas “espécies” de mídia difiram (jornais, rádio, televisão), como meios de massa elas guardam um traço em comum: são assimétricas. De um para muitos. Do autor para a audiência. Do timoneiro para os remadores.

Nem todo mundo teve acesso à imprensa, à estação de rádio, ou ao estúdio de transmissão televisiva. Os poucos que o tiveram ganharam a chance de criar a narrativa dominante. O resto foi reduzido a audiência.

O insight que nos interessa aqui é o de que, como audiência, nós somos coerentes. Como massa, transformamos milhões de indivíduos diferentes em um grupo relativamente simplificado. Enquanto formos mantidos em tal estado de coerência, oferecemos algo que pode ser gerido.

Ao longo do século XX, o “problema da complexidade social” foi gerido através de mídias de massa capazes de gerar e manter coerência em escala.

Politicamente correto

Quando se compreende a estrutura de controle assimétrica mencionada acima, começa-se a enxergá-la em todo lugar.

Há um fluxo bidirecional básico. De baixo para cima, têm-se a corrente da “autoridade credenciada”: os especialistas autorizados (por algum processo legitimador) a formar e expressar opiniões através de alguma mídia de massa. De cima para baixo, opiniões “politicamente corretas” ancoram nossa coerência e traçam limites dentro dos quais reside o “socialmente aceitável”.

Lembre-se: não nos referimos aqui a uma instituição específica (e.g. uma colina), mas sim ao tecido social (e.g. a paisagem)

Tome a academia como exemplo. Estudantes são a audiência. O trabalho deles é prestar atenção na autoridade credenciada. Escutar, assistir de perto e aprender com o professor a natureza daquilo que é “correto” em cada domínio do conhecimento. Se fizerem um bom trabalho — isto é, se responderem “corretamente” às perguntas de acordo com o processo de avaliação imposto pela autoridade — eles passam de ano. Se não, repetem.

Lembra de “o meio é a mensagem”? O conteúdo importa, mas, no fim das contas, toda aula é também uma lição sobre como jogar o jogo.

Professores, por sua vez, representam autoridade porque, de tão bons estudantes, foram convidados tacitamente à hierarquia autoritária.

Isto não é uma crítica à academia! Tal processo de credenciação se provou um motor poderoso para filtrar o non-sense e impulsionar a busca pela verdade. Por mais que haja bastante digressão (e.g. teoria das cordas), no geral, ao longo do século XX, a máquina de especialização do conhecimento foi a joia da coroa da civilização.

O que nos interessa aqui é a estrutura formal. Transmissão de informação. Assimetria. Uma arquitetura social que permite a divisão de trabalho, de forma escalável, para geração de sentido e tomada coletiva de decisões.

Ninguém é capaz de entender mesmo uma fração do que vem acontecendo na sociedade. Então quebramos o “problema” em pedacinhos, entregamos os menores ao topo da hierarquia credenciada, onde são processados por “especialistas” e mastigados até virarem “opinião politicamente correta”, que é transmitida para baixo, e se difunde pela população.

Imagine o que seria do trânsito se nós questionássemos o que significa o semáforo vermelho, ou se cada um tivesse a sua própria ideia sobre o sistema de cores / organização que melhor funciona.

por Brian Wertheim, no Unsplash

Similarmente, enquanto todos concordarmos que “o livre mercado é uma boa ideia”, ou que “fronteiras nacionais devem ser protegidas”, ou que “assistência médica é um direito universal”, ou que “todos devem ser tratados de modo igualitário”, ou que “emissões de carbono levam ao aquecimento global”, então o trabalho hercúleo de se desenhar e implementar políticas baseadas nessas premissas pode ser gerido, e a canoa do Estado pode navegar adiante.

“Remem!”

A Igreja Azul

Na Igreja Azul, possuir e expressar opiniões corretas significa pertencer ao bando, à tribo, ou ao time. Traz benefícios sociais. Mais importante, falhar em estar alinhado à opinião socialmente aceitável pode ser devastador.

O politicamente correto se retro-alimenta. Não há necessidade de políticas top-down para que seja reforçado. Uma vez que gente suficiente entra em coerência em torno de “opiniões corretas”, dinâmicas sociais naturais ao ser humano entram em cena para preservar tal coerência.

Experimento mental: imagine-se numa festa, fingindo acreditar, por exemplo, que o aquecimento global não é real. Ou que o Islã, ou o Feminismo, são ideologias perigosas. Não é preciso fazê-lo de verdade para saber que vai passar vergonha e ser excluído do grupo. Pergunte a Sam Harris, Jordan Peterson e Steven Pinker — especialistas que têm começado a se ver com frequência no lado oposto ao “politicamente correto”.

A parte negativa dessa dinâmica de reforço social são as câmaras de eco onde opiniões que violam o status quo são demovidas do discurso — mesmo quando valorosas ou importantes.

Cultura pop na Igreja Azul

Somos animais sociais, constantemente em busca de exemplos para assistir e aprender com. A domesticação da nossa espécie depende de um modelo simples: preste atenção às pessoas nas quais outras pessoas estão prestando atenção.

Por natureza, somos obcecados com quem atrai atenção — mas, notavelmente, cada vez menos interessados em questionar se essa atenção é merecida ou não.

Pense em celebridades. Como é difícil distinguir “atrair atenção” de “merecer atenção”, o simples fato de se ter uma câmera apontada para si implicitamente confere certos poderes/credenciais de autoridade. Não são raros os casos de figuras que exercem influência para muito além dos seus campos de domínio.

Estar na frente da câmera, por muito tempo, conferia autoridade mesmo se a pessoa em questão não era real. É por isso, em parte, que a cultura pop exerce função tão pivotal na narrativa da Igreja Azul.

Assim como os remadores são entretidos à cadência do timoneiro, nós todos fomos treinados, pela maior parte da vida, para encontrar, adotar e executar uma forma ou outra de “narrativa maior”. Uma narrativa complicada o suficiente para responder aos anseios da vida moderna, mas simples o suficiente para ser gerida.

Trata-se não só do trabalho no escritório das 9AM às 6PM. Trata-se de conjuntos de premissas, axiomas, verdades e processos geradores de autoridade que simplificam a complexidade estafante do mundo contemporâneo e dão a nós, pobres primos de chimpanzés, jeitos digeríveis de nos movermos adiante de modo mais ou menos coordenado.

Muitos destes axiomas estão deixando de funcionar. Nossa ansiedade coletiva vem crescendo em curva parabólica.

O novo cenário da mídia

Tive muitas aulas sobre “mídia digital” na faculdade. O foco sempre foi vender anúncios. Nunca me levaram a questionar a supremacia (e o colapso inevitável) da Igreja Azul. Muito menos me conduziram a imaginar a forma que tomaria a emergente, reformada Fé Memética (não ligue para o nome, por enquanto — entraremos em detalhe adiante).

Por AdWeek

A internet é muito mais simétrica que a transmissão televisiva ou a imprensa. E oferece um “nicho para a geração de coerência” que não existia antes. Difere em muito daqueles que deram origem às grandes narrativas passadas. A paisagem mudou. É se adaptar ou padecer.

Brexit, Trump, a ressurgência do nacionalismo, o globalismo na berlinda, Bolsonaro e tantos outros fenômenos, correlatos ou não, são sintomas da insurgência da Fé Memética. Se for pra destrinchar essa nova paisagem, temos que mergulhar mais a fundo. Se for pra mergulhar mais a fundo, temos que aceitar o fato de que não vai ser nada confortável.

O nível de complexidade do século XXI está simplesmente fora da “capacidade de controle” provida pelas estruturas formais da Igreja Azul. A não ser que rompamos com suas premissas antiquadas e nos movamos para approaches novos, nossa corrida em direção ao futuro vai decorrer de modo cada vez mais caótico. É se adaptar logo, ou padecer rápido.

“I like chaos. It really is good.” — Donald Trump
  1. Modus operandis para se gerir sistemas complexos como o meio ambiente falharam. Até tarde no século XX nós não éramos poderosos o suficiente, como espécie, para que isso fosse relevante. Agora, precisamos evoluir logo.
  2. Não temos ideia de como dar o próximo passo. Precisamos lidar melhor com antro-complexidade. A governança clássica se tornou disfuncional.
  3. Precisamos aprender a navegar as consequências reais das tecnologias exponenciais. Talvez não passemos da virada do próximo século. Há quem acredite que a singularidade deve acontecer antes de 2045.

No contexto destes desafios, a Igreja Azul é simplesmente despreparada. O mundo está se movendo num ritmo que as hierarquias de controle não conseguem acompanhar.

E as novas formas de “inteligência coletiva” ainda não são claras o suficiente para nos reconfortar.

Sabemos muito pouco sobre elas. Talvez a versão mais robusta de uma inteligência descentralizada a ter emergido até hoje tenha sido a insurgência Trumpista de 2016. Quero ver explicar como ela opera!

A Fé Memética

A coerência das novas formas de inteligência coletiva não é determinada por fatores exógenos, mas pela infraestrutura da informação, em si. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, enxames digitais não são unidos por sentimentos (como a raiva) ou por ideologias (como o supremacismo branco). O que agrega membros disparatados da Fé Memética é o fato de que redes se estruturam para recompensar ideias que atingem massa crítica memética independentemente da origem do meme. Recompensa-se com a amplificação da atenção (muitas vezes, inclusive por parte de “lideranças”), não importa a seita de onde tenha vindo o meme.

Está aí uma das regras primazes. A rota para a amplificação pela liderança é visível. O jogo é claro para quem joga. A Fé Memética não toma decisões em salas de reunião editorial ou gabinetes, mas em fóruns públicos de mensagens incensuráveis, em redes sociais, em tempo real, no Periscope, no YouTube, no Reddit, no 4Chan.

Central a todas as dinâmicas da Fé Memética é a moeda da atenção. Trazer atenção à criação de alguém é uma maneira igualitária de se recompensar sua contribuição. Cada participante da rede tem a própria atenção para dar, e, ao fazê-lo, tem o poder de levar uma ideia a atenção de outrem. Prestar atenção não tem custo financeiro e não requer infraestrutura de produção. Todo mundo tem atenção pra dar.

Neste contexto, Bolsonaro é um feliz impressor de “dinheiro”. Memes que atingem seu “pódio” alcançam a recompensa final.


De Sidrolândia para o mundo.

“Abelhas escoteiro” na Fé Memética

Quando abelhas precisam decidir entre potenciais novos lares para suas colmeias, algumas delas assumem um novo papel — o de “escoteiro”. “Abelhas escoteiro” voam em busca de espaços secos, quentes, do tamanho de algumas bolas de futebol. Cada uma retorna para contar sobre o cantinho que encontrou. Fazem uma dança que, se entusiasmada e bem sucedida, recruta novas abelhas para conhecer o local. A segunda leva de “abelhas escoteiro” procede para o local em questão. Então essa leva volta à colmeia, e performa sua própria dança de recrutamento. Em certo ponto, uma quantidade suficiente de abelhas já foi convencida pelo entusiasmo coletivo, e uma nova abelha rainha foi nomeada: a aventureira original da “seita” vencedora. Enquanto as convencidas se movem para a casa nova, “abelhas escoteiro” seguem indo e vindo entre a nova e a velha colmeia, garantindo que o máximo de suas irmãs não se perca pelo caminho.

A inteligência coletiva Bolsonarista é irrefreável. Para se opor, só competindo à altura.

A Fé Memética tem incontáveis “abelhas escoteiro” que originam memes, amplificam-nos e guiam o caminho para o “novo rumo”. Estas são as figuras que estão sempre ligadas no WhatsApp — e o cerne de suas mensagens é sempre pertinente à tarefa em mãos.

Os “escoteiros” da Fé Memética são amplificadores de mão dupla. Caçam ideias do resto do “bando”, e também ecoam as que vem de cima — especialmente quando o que vem de cima parece reforçar algo que se originou de baixo, ou quando materializa algo que o coletivo “previu”/antecipou.

Há também os “escoteiros institucionais”: no Brasil, a plataforma midiática MBL foi recompensada não somente com atenção, mas também com voz na câmara dos deputados e um vereador eleito. Nos EUA, o InfoWars de Alex Jones ganhou o reconhecimento de um press release da Casa Branca; e o site de notícias Breitbart, passe livre no salão oval.

A Igreja Azul não tem equivalentes — ao menos com tração parecida. Seus líderes não tem a mesma responsividade. Entre seus valores arraigados está a noção de que cada um é dono da sua própria propriedade intelectual. Na Fé Memética, o prazer em se amplificar o meme de outrem ou ter uma ideia roubada é tão grande quanto o de se produzir e divulgar uma própria.

O “fenômeno das abelhas escoteiro” ganhou tanto vigor que nem mesmo oponentes declarados da Fé Memética conseguem se manter alheios. Pior, não conseguem deixar de ser vetores dele.

O meme do Pepe Frog, símbolo da ”direita”, ganhando o reconhecimento do líder supremo.

Na dinâmica da abelhas, basta um pouco de amplificação e alguns “escoteiros” comprometidos para que um meme ganhe tração. A oposição não importa. Geralmente, ela só amplifica o meme ainda mais.

Em comparação, a Igreja Azul segue buscando a unanimidade em vez do consenso. Acomodando interesses de certas seitas enquanto assiste às suas subnarrativas se desmantelarem em fricção interna (Alcirina? Amoedo? Uma coalizão milagrosa de última hora no fim de semana das eleições?).

A Igreja Azul não consegue se “defender”

Depois de tanto tentar antecipar qual frente ou “mentira” da Fé Memética a combater em seguida, a máquina aparelhada da Igreja Azul se exauriu. E hoje, só serve para amplificar o jogo memético de quem tanto desdenha.

Depois de cunhar a expressão fake news, a grande mídia norteamericana agora faz campanha para que paremos de usar o termo.

Jair Messias não conquistou por conta própria o espaço que desde o começo lhe foi negado na TV — chegou aos confins do país pelas mãos de um atentado que é resposta da Igreja Azul às “abelhas escoteiro”.

A hashtag #elenao, até agora, parece só vir aumentando a aceitação de Bolsonaro entre eleitoras mulheres.

por rawpixel, no Unsplash

A coerência está no processo, e não na ideologia/sentimento que une o bando — por isso é tão difícil criticar/atacar com eficácia.

“Bolsonaro é homofóbico!” — “mas o Ciro já falou coisas muito piores envolvendo homossexualismo”. “Bolsonaro nunca fez nada de útil na Câmara!” — “melhor do que se tivesse roubado como fez o PT”.

A Fé Memética conhece a nova paisagem midiática e joga com ela a seu favor. A sua descentralização evita pontos singulares de ataque.

Uma guerra em 4 frentes

Esta guerra é sobre mais que ideologia, dinheiro ou poder. A maioria dos participantes nem entende por completo o que está em jogo. Num nível mais profundo, atravessamos um conflito existencial entre duas formas diferentes e incompatíveis de se formar inteligência coletiva e manter coerência social.

De agora em diante, vai ser cada vez mais confuso. Para buscar clareza, vamos destilar 4 frentes em que a guerra vem se desenrolando:

1. Infraestrutura de comunicações

“Lego repairs”, por Jan Vormann

Corromper a infraestrutura de comunicação e controle do inimigo é lição básica de guerra.

Trump o faz martelando a acusação de que a grande mídia é esquerdista-manipuladora. Bolsonaro segue a cartilha à risca.

Em vez de tentar tomar o controle da estrutura de comunicação tradicional, ambos miram destruí-la, ignoram-na, e a substituem por arquiteturas diferentes (Bolsonaro responde seus grupos de WhatsApp toda noite durante o horário eleitoral).

A eficiência memética da Folha, da Record, da CNN, do Washington Post — você escolhe — está despencando ladeira abaixo. Não me surpreenderia ver boa parte dessas entidades falindo nas próximas décadas.

2. O “Estado profundo”

Na política tradicional, espera-se que um candidato eleito integre-se ao aparato do Estado existente, fazendo pequenos ajustes e influenciando na carreira de burocratas que compõem boa parte da máquina governamental.

Aécio não teria alterado o rumo do aparato estadista em comparação com o que fez Dilma, apesar de prováveis mudanças pontuais. A Igreja Azul no máximo aspira a cortar laços estabelecidos décadas, ou séculos atrás. Por outro lado, a Fé Memética identifica o Estado em si como antagonista, e se engaja diretamente num conflito existencial contra ele.

“O Estado Profundo” nos EUA.

O Estado está no negócio de monopolizar o poder faz tempo. Mas (1) ele está fragmentado; e (2), como já falamos, suas táticas são lentas e antiquadas.

Como exemplo, tome o meme das fake news. Carrega os traços clássicos de uma iniciativa da Igreja Azul. Cuidadosamente planejado, o povo sendo educado a respeito através da mídia, alto grau de coordenação, timing preciso antes das últimas eleições presidenciais americanas, sinais vindo de todas as diretivas autoritárias.

Uma leitura possível é a de que o meme das fake news foi uma resposta do “Estado Profundo” à batalha na frente (1) — a batalha pela infraestrutura de comunicações.

Ao que parece, a iniciativa não só falhou, como serviu de munição para que a Fé Memética subvertesse o conceito em uma ferramenta sua. Como? Movendo-se rápido, de modo não-convencional, descentralizado e dotado de comprometimento absoluto com a vitória.

3. Globalismo

A retórica anti-globalista é comum a líderes na Fé Memética. Note a relativa facilidade com que Trump se opõe à “falsa serenata globalista” — como abandonou sem dificuldade o acordo TransPacífico, por exemplo.

O Banco Mundial, a ONU, tratados internacionais e, mais importante, instituições globalistas como a Federal Reserve, são os próximos alvos na fila. As armas do contra-ataque globalista são a ameaça às elites e doses cavalares de propaganda.

A esse ponto, vejo só duas jogadas estratégicas para o globalismo. (1) Desestabilização econômica à guisa de se “jogar o povo” contra a Fé Memética; (2) algum tipo de desestabilização social/militar coordenada.

Acontece que a insurgência da Fé Memética é imune à propaganda globalista. E muito eficiente em associar problemas econômicos ao discurso globalista (“os imigrantes estão tomando nossos empregos!”).

Pare pra pensar: dentre as maiores potências globais, hoje, somente a União Europeia é controlada por globalistas.

As consequências da batalha nesse front são o enfraquecimento da ordem institucional-global do pós-guerras, e um rebalanceamento do poder em alinhamentos nacionalistas ainda não muito claros/compreendidos.

Por exemplo, podemos esperar que problemas “de escala mundial” como o aquecimento global ou o combate ao terrorismo saiam um pouco de foco — mas ainda não é claro.

É plausível que alianças “de nação com nação” sejam capazes de progredir significativamente em tais questões. Particularmente se assumirmos que agendas globalistas vinham extraindo valor de crises em escala global, mais do que ajudando a resolvê-las.

Além do mais, não há razão para desacreditar que um nacionalismo multi-polar deva ser menos estável, no longo-prazo, que a hegemonia. A história já pendulou para ambos os lados. Mais claro, talvez, seja o período de alerta que se estabelece na transição entre forças globalistas lutando para manter o poder vs. forças nacionalistas que ainda não encontraram um equilíbrio estável entre si.

4. A guerra cultural

OK: se você chegou até aqui, parabéns. Vamos dedicar uma seção exclusiva a essa frente.

A verdade objetiva morreu onde começou a guerra dos memes. Você pode achar que isso soa como brincadeira. Mas não é bem o caso.

A guerra dos memes (2015-presente)

Graças à internet, adentramos condição completamente pós-moderna. Como algum gostam de chamar, “a crise da realidade”.

Código aberto para se manipular vídeos (verossímeis) de qualquer outra pessoa falando o que você quiser.

Onde a mídia tradicional antes provia consenso em torno do real… a descentralização da tecnologia informacional agora permite que qualquer indivíduo documente eventos, crie narrativas e desafie percepções em tempo real, sem um pingo de consideração por qualquer ética jornalística.

A esquerda ganhou a 1º Guerra Cultural, entre os anos 1960–1990. O que está acontecendo agora não é a insurgência da “velha direita”, mas a emergência de uma nova forma de inteligência coletiva.

Código aberto para se manipular vídeos de qualquer pessoa fazendo os movimentos corporais que se quiser aplicar.

A Igreja Azul está em desespero porque percebeu que o inimigo não é mais o Conservadorismo Cristão batido que derrotaram décadas atrás, mas sim uma “fé” nova, baseada em identidade cultural e na rejeição à própria noção de coordenação top-down.

Se mapearmos o arco evolutivo da guerra cultural dos anos 50 aos anos 90, veremos o surgimento de um conjunto de estratégias, técnicas e alianças por parte da Igreja Azul que foram sendo aperfeiçoadas com o tempo. Por exemplo, o poder crítico dos epítetos “racista” ou “sexista”, que tinham pouca ou nenhuma tração nos anos 30–40, e ao final dos anos 90 tornaram-se pivotais.

Meme criado por Alex Van de Sande

Como bactérias tornando-se cada vez mais imunes a um antibiótico, via exposição constante, os traços da Fé Memética que foram suprimidos (e sobreviveram) durante décadas de esmagamento por parte da Igreja Azul começaram a se cristalizar e expandir. O que agora irrompe no zeitgeist é inédito, e quase completamente imune às técnicas retóricas e políticas da Igreja Azul.

Chamar um adepto da Fé Memética de “racista” não vai incitar mais do que um “meh…” e um olhar desdenhoso de demissão. As armas antigas não servem ao combate pós-moderno.

Além do mais, a Fé Memética não tem a aspiração de engajar-se no discurso com a Igreja Azul. Habitou-se a rejeitá-lo por completo. É bactéria vs. antibiótico.

A Fé Memética considera que a Igreja Azul (e seus membros) age de má fé por definição, e enxerga as doutrinas desta quase como doença mental. A Fé Memética não tem a intenção de dialogar, interagir ou dividir o poder com a Igreja Azul.

Muitos dos símbolos da Fé Memética são designados a partir de elementos banais, no intuito de literalmente fazer membros da Igreja Azul se passarem por loucos quando estes, histericamente, apontam-nos e os rotulam como “apologia” a qualquer valor que condenam.


O símbolo de OK: será um ícone dos supremacistas brancos… ou isso é mera histeria “da esquerda”? Ambos.

Se quiser sobreviver, a Igreja Azul deve se preparar para a guerra. E, nessa guerra, a Fé Memética larga com ampla vantagem.

A Igreja Azul aprendeu a dominar pelo cinema e pela novela. A Fé Memética, pela trolagem e pelos memes.

Pós-política — ou “como nos organizamos agora”?

Kleroterion: na democracia ateniense, políticos não eram eleitos, mas sorteados.

A política pode ser interpretada como a organização da disputa pelo poder entre homens. O que acontece quando não se tem mais como monopolizar o poder?

A disputa por ele se torna caótica. Em vez “a cada turno” (ou termos de 4 anos), a batalha agora acontece todo dia. É preciso aprender a jogar. Para quem quiser começar, 4 conselhos:

É tempo de transição. Estruturas de controle social bem sucedidas durante muito tempo tornaram-se insustentáveis. A mudança vai ser turbulenta e chegar à extrema violência, em alguns casos. Trata-se de um padrão clássico para que a instabilidade e “cisnes negros” surjam.

Sinta-se livre para selecionar recortes específicos da realidade e acreditar na visão da Poliana (“mas os dados mostram que a pobreza vem diminuindo historicamente!”). Enxergar o mundo em cor-de-rosa não altera os fatos.

Ciências químicas e físicas comprovam que praticamente metade das calotas polares na Terra foram irreparavelmente perdidas nos últimos 100 anos; que mais de 90% dos “estoques de peixe” foram removidos do oceano; que a emissão de gases estufa continua crescendo ano a ano (desacelerando somente quando se tem um crash financeiro de proporções globais); que as tundras Árticas e oceanos em altas latitudes já deixam escapar metano na atmosfera.

É difícil ignorar o prospecto de que estamos no meio da sexta extinção em massa na história de 4.5 bilhões de anos da Terra.

Ciências econômicas e sociais sugerem que a desigualdade é crônica e extrema; que a confiança em instituições públicas está em mínimas históricas; que há mais gente viva do que em qualquer outra era; que o crescimento econômico (na berlinda) é fator-chave para conter o apocalipse malthusiano; que as tendências mais relevantes a moldarem a evolução da sociedade encaixam-se em curvas exponenciais de crescimento ou queda — o tipo com o qual não estamos preparados para lidar.

Ser realista te soa como o fim do mundo?

Índice (nada científico) de “tribos meméticas”. Clique aqui para ver a tabela completa.

Pois se é pra ser otimista — ou ter alguma esperança — eu prefiro analisar e encarar a realidade com o pé no chão. Evitar o “negativo” tem um nome na psicologia — chama-se negação.

Muitos de nós estão em negação. Esperando por um salvador.

Olhe para seu próprio umbigo. Se há esperança na humanidade, ela reside na sua capacidade de seguir seus talentos, pensar por conta própria, e iluminar o mundo com sua vocação, mesmo nos tempos mais sombrios.

Adiante, Brasil. Adiante, humanidade.

Referências

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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