🇧🇷 Panorama Brazuca #1: Fingerprints
Primeira parte de uma série que apresenta plataformas, coletivos e protocolos brasileiros de destaque na criptolândia, em 2021.
O mercado das criptomoedas é global e permissível. O Brasil figura como um dos países com a maior adoção relativa de criptomoedas do mundo. Portanto, não é surpresa que existam protocolos e plataformas brazucas se destacando no criptoverso.
Por isso, preparamos uma série de 4 artigos mostrando empreitadas brasileiras interessantes, em áreas distintas. Esta é a primeira das quatro partes.
A FingerprintsDAO

Fundada por brasileiros, a FingerprintsDAO transformou-se em uma das maiores curadoras de arte generativa on-chain.
Trata-se de uma DAO (Organização Autônoma Distribuída) - grupo de colaboradores online que se junta, sem incorporação formal, para alocar capital e trabalhar rumo a um objetivo em comum.
O ponto de partida para a sua coleção foram os Autoglyphs, projeto pioneiro de arte generativa on-chain, lançado pela Larva Labs. Antes de explicarmos a FingerprintsDAO, é necessário entender o que são os Autoglyphs.
Autoglyphs
Desde o lançamento dos Cryptopunks, a comunidade dos NFTs discutia sobre a permanência de suas imagens na blockchain. Isto é: por mais que tokens garantissem o porte de uma ideia por tempo indeterminado… muitas vezes a representação visual dessa ideia vivia em servidores centralizados. Até hoje, a maioria dos NFTs blue chips presentes no mercado - BAYC, Punks, Cool Cats - dependem de arquivos off-chain. O token na blockchain carrega uma URL que aponta para um servidor onde é guardada a imagem que o ilustra, no OpenSea e em outros marketplaces. Algumas coleções mais puristas armazenam suas artes propriamente ditas (e outros metadados) no IPFS - uma rede distribuída, mas que, ao contrário da Ethereum, não assegura a permanência daquelas informações dali a anos ou décadas..
Os pais dos Cryptopunks, ainda em 2017, tinham ciência desse impasse.. Subiram no IPFS uma matriz com a imagem dos 10.000 Punks originais, sendo que cada NFT individual referencia a posição do seu Punk nessa matriz - teoricamente acessível por qualquer pessoa. Mas a arte, em si, não "vinha junto" com cada token ERC-721 - sendo "meramente" referenciada por ele.

Um NFT apontando para arquivos exógenos; e outro, autocontido. Fonte: The broken promises of NFT Art
Esta dificuldade remonta às primeiras artes generativas concebidas por engenheiros da Bell Labs, nos anos 60, limitados pela infância tecnológica dos computadores da época.
Após testar uma infinidade de códigos, Matt Hall e John Watkinson chegaram ao que muitos consideram sua obra-prima: uma coleção de arte generativa concebida e armazenada inteiramente na blockchain.
Os Autoglyphs eram "mintáveis" diretamente do site da Larva Labs. Uma chamada para o contrato inteligente gerava um imagem randômica a partir de um conjunto de 9 símbolos geométricos, representados por caracteres específicos. As instruções para "traduzir" esses caracteres em formas visuais está no próprio contrato - a imagem vista e compartilhada pelos usuários é basicamente uma tradução de cada transação que deu à luz a cada Autoglyph… para caracteres ASCII. A arte literalmente vive na blockchain. E pode ser "recriada", sem a necessidade de dependências externas (até mesmo com papel e caneta!), enquanto a Ethereum existir.

Um “registro de eventos” do nascimento de um AutoGlyph (esquerda); instruções para traduzir os símbolos, comentados no contrato (à direita); uma visualização tosca do padrão resultante (centro).
Pela primeira vez, os detentores dos NFTs não careciam de dependências externas para gerar a representação visual do token. Outrossim, Autoglyphs são mecanismos auto-contidos para a criação e posse de uma obra de arte.
O lançamento dos Autoglyphs ocorreu em 2019, dia 8 de abril. Qualquer um podia mintar um Glyph ao preço de 0,2ETH - 30 dólares, na época. Hoje, o floor price dos Autoglyphs está em centenas de ETH.
A FingerprintsDAO nasceu fundada na premissa de que contratos autônomos são um novo meio para a expressão artística - coisa que não vem à tona todo dia. E de olho na tese de que, se NFTs de fato catalizassem um novo paradigma cultural… NFTs de arte generativa potencialmente capturariam boa parte do valor criado por essa tendência.
Como Surgiu, e Para Onde Vai a FingerprintsDAO
Notando a importância histórica dos Autoglyphs, e o fato de que poucas centenas de pessoas os portavam… os fundadores da DAO correram para juntar esse grupo de elite. A FingerprintsDAO foi fundada sobre uma coleção de vinte e poucos Autoglyphs - perto de 5% da oferta total dessa coleção.
A ideia era que os demais projetos curados, adquiridos e produzidos pela DAO teriam validade perante a comunidade, dado o "sinal de curadoria" emanado daquela que, à altura, já era a terceira maior coleção de Autoglyphs em existência.

Um vislumbre da coleção de Autoglyphs da Fingerprints.
A DAO distribuiu tokens de governança - PRINTS - para quem contribuiu peças para essa coleção inaugural. Parte da oferta de PRINTS foi vendida para quem quisesse participar do experimento com capital, em vez de contribuir com NFTs diretamente. Membros da DAO começaram então a realizar votações utilizando seus PRINTS para decidir quais NFTs adquirir, e em que direção expandir a coleção.
Aos poucos, a Fingerprints virou referência na curadoria de NFTs generativos. Deafbeef, Mutant Garden Seeder e Digital Zones of Immaterial Pictorial Sensibility foram alguns dos artistas e coleções adquiridas posteriormente

Alguns dos Mutant Garden Seeders da Fingerprints. A coleção pode ser conhecida melhor aqui.
Com o tempo, a DAO deixou de ser só colecionadora, para se tornar também criadora de cultura.
O primeiro projeto autoral do coletivo foi uma releitura dos próprios Autoglyphs - pegando carona na ideia de que estes são como "instruções inscritas publicamente" na blockchain, e reinterpretáveis ao bel prazer de qualquer um (em linha com os "Desenhos em Paredes de Sol Lewitt", que chacoalharam a arte conceitual nos anos 60 e 70).
A primeira coleção derivativa lançada pela DAO se chamou Avid Lines.
A Fingerprints convocou quaisquer detentores de Autoglyphs a inscreverem-se em uma lista, com seus NFTs. Estes mantinham-nos em suas wallets, mas autorizavam que o código-base de suas artes pudesse ser utilizado como base para a criação e mint dos Avid Lines - uma releitura colorida e ostentosa das mesmas instruções básicas! Em troca, os donos dos Autoglyphs receberiam 10% do custo da mintagem de cada Avid Line.
No dia do lançamento, os usuários podiam escolher os Autoglyphs que gostassem e mintar seus Avid Lines a partir deles (pagando 2 ETH para tal). O resultado foi a fusão entre a arte concebida inicialmente pela Larva Labs… e a estética vislumbrada pelo criador dessa nova coleção (o pseudônimo dele é Arihz):

Um diagrama do processo de criação dos Avid Lines, pela própria DAO.
Desde então, a Fingerprints ainda lançou outra coleção alavancando o talento e as redes dos seus membros, além de ter expandido significativamente seu "tesouro". E hoje é uma referência na curadoria, coleção e criação de arte on-chain.
Atualmente a coleção da DAO está avaliado em algo entre 10.000 e 20.000 ETH.
Seu sucesso tem atraído não só criptonativos, mas venture capitals e fundos de investimento como Union Square Ventures (USV), Andreessen Horowitz (A16Z) e 2TM Group. A estes, interessa a exposição à tendência dos NFTs de uma maneira sofisticada. Fazem-no, basicamente, adquirindo PRINTS - que tem liquidez limitada na Uniswap.
Hoje, qualquer um pode participar da DAO. Ela é aberta a comunidade, mas para poder acessar canais privados, contribuir e votar nas decisões de governança, é necessário holdar 5.000 PRINTS.
Recentemente, a Fingerprints incubou e lançou uma nova DAO, focada em NFTs de fotografias: a RAWDAO. Já possui em seu tesouro uma das obras mais valiosas no setor - a Twin in Flames #49 -, adquirida via PartyBid por ~850 ETH. Os compradores de frações da obra receberam em troca $FLAMES - fração do Twin Flames #49 - e $RAW - token de governança da RAWDAO.