Paradigma

⚙ OPL (On-Chain Profits & Losses): Um Mergulho no Indicador Que Aponta Topos de Preço

Tem como saber se quem transacionou bitcoin hoje teve lucro ou prejuízo - e quanto? Como isso pode te ajudar a valorar o Bitcoin e medir o risco-retorno de cada operação?

Se você só está atrás de um exemplo passo-a-passo sobre como o OPL é calculado, vá direto para o rodapé deste texto.

Ao longo dos anos, pioneiros dos dados descobriram maneiras de derivar algo equivalente a uma razão “price-to-earnings”-like do bitcoin, de rastrear ondas geracionais entre donos quem possui o ativo, de medir a velocidade do dinheiro, e muito mais.

Porém, na perspectiva de um trader, muitos indicadores, ainda que valiosos, funcionam como não mais do que sinais de confirmação. A natureza "atrasada" de alguns indicadores on-chain frustra operadores acostumados à sensibilidade de dados oriundos de livros de ordens de exchanges.

Suspeito que tal peculiaridade não seja inerente à toda informação on-chain, mas sim um produto das ferramentas que se vem usando.

Renato Shirakashi recentemente publicou uma análise sobre um indicador que nomeou como SOPR ("Spent Output Profit Ratio", algo como "Lucro das Transações Realizadas On-Chain). Vínhamos trabalhando em uma métrica muito parecida, que chamamos de OPL ("On-Chain Profits & Losses), e compartilhamos alguns achados abaixo. Comecemos com o raciocínio por trás do indicador, para então mergulhar no que dizem seus sinais recentes.


📅 🔥 Olhando Além dos Dias Destruídos ("CoinDays Destroyed")


CoinDays Destroyed é uma métrica popular no universo do Bitcoin. Depende somente de dados on-chain, e dá uma aproximação do encarteiramento entre participantes da cibereconomia (o quão propensa à poupança a população de possuintes de Bitcoin está). É especialmente difícil de ser burlada ou corrompida, e indiferente a eventuais manipulações nos preços do mercado.

As menções mais antigas a CoinDays Destroyes que encontrei são esta thread no Hacker News e respectiva pergunta no StackExchange, em 2011. Por alguns anos, gráficos do CDD foram hospedados em exploradores de bloco populares como blockchain.ingo. Não são mais fáceis de encontrar, estes dias, mas você ainda pode baixar dados no formato CSV da Blockchair.com.

Reza a lenda que, lá atrás, era até possível que mineradores incluíssem em blocos transações sem taxas, mas que fosse pagas com "suficientes CoinDays", uma vez que transações que destruíssem a maior quantidade de CD tinham prioridade entre certas pools.

O CDD (CoinDays Destroyed) é encontrado quando se pega todos os UTXOs movidos em um dado período, e se soma os dias durante os quais eles ficaram dormentes (data do movimento menos data na qual o UTXO foi criado vezes a quantidade que carregava em bitcoin, para cada UTXO).

Abaixo, vê-se uma média móvel de 50 dias do CDD, nos últimos 9 anos.


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No gráfico, vemos que holders de longa data tendem a aumentar movimentos de moedas para novos endereços (potenciais vendas) conforme o preço sobe.

Esta é só uma maneira alternativa que dizer que o dinhero inteligente (holders antigos) realiza lucros no caminho para cima, não no caminho para baixo.

Uma observação interessante é que, tanto em 2014 quanto em 2017, nos picos (e em 2013, menos notavelmente), o CDD desenhou topos duplos. 

Uma hipótese plausível parece ser a de que os segundos topos representam holders que já viram o filme antes, e que antecipam um longo período de baixa uma vez que a parábola altista em voga até então foi quebrada. Estes "queimariam" moedas antigas, parcialmente em reação a baleias que o fizeram pouco antes (o primeiro topo).

Este segundo pico parece um lugar bom para queimar os seus CoinDays, depois do próximo topo de preço.

Vale ressaltar, ainda, ao menos uma "espetada inorgânica", em dezembro de 2018. Advém de um movimento protocolar de fundos por parte de uma grande exchange (a Coinbase moveu 5% de todos BTC em circulação). A inclinação no gráfico é bastante distinta.

Outra hipótese (amostra ainda é muito pequena para refutar ou comprovar) é ilustrada em rosa: que há uma certa resistência no nível de coindays destroyed, testada pelo menos um par de vezes durante invernos no mercado cripto, que deve ser rompida para dar início às temporadas de alta.


🐢 A Natureza "Atrasada" de Certas Métricas On-Chain


A incompletudo intrínseca ao CDD é que ele nos dá uma medida de tempo destruído. Mas obviamente não conta a história toda no que diz respeito ao valor destruído (ou criado) em uma série de transações.

Nesse sentido, um subconjunto de indicadores o complementa: aqueles que medem a "saúde financeira" da blockchain.

Em todos estes, no entanto, toda a oferta circulante de moedas é levada em conta. Por outro lado, CoinDays Destroyed revela comportamento granular especificamente porque só sobe quando tempo é efetivamente consumido - ele não liga para a acumulação passiva de dias.

Para medir a lucratividade de atividades que de fato estejam movendo valor na blockchain, pode-se pensar em um approach alternativo, em vez de uma aproximação que incluir uma pilha de moedas inertes.

Isto é, medir o valor (em U$) combinado que moedas sendo efetivamente transacionadas (spent outputs) acruíram ou perderam desde o momento em que foram movidos pela última vez. Assim, pode-se ter uma visão granular do valor criado / destruído on chain, ao longo do tempo. 

Para cada UTXO gasto, simplesmente se calcula

quantia em bitcoin * market price atual — market price quando o UTXO foi criado


🎱 O OPL (Média Móvel de 10 Dias)


Disclaimer: para evitar o processamento de todo UTXO individualmente, o que estamos fazendo aqui é calcular o número de dias destruídos por bloco, aproximando um preço realizado por bloco, e plotando o preço atual em cada bloco menos o preço realizado dele vezes a quantidade de bitcoin que transacionou.

Chegamos a uma medida granular o suficiente para este exercício, mas vale a ressalva: não estamos auditando a lucratividade de literalmente toda transação individual.

Abaixo, veja como numa média móvel simples de 10 dias, topos de preço coincidem com pontadas anômalas no OPL:



Note que o indicador é visivelmente mais eficiente em apontar topos que fundos.

Como Renato Shirakashi postulou, o oscilador converge a 0%, e testa a faixa ao redor deste nível como resistência, durante ciclos de baixa; enquanto quica na mesma faixa, tendo-a como suporte, durante ciclos de alta.

Pontos de contato com o dito nível podem ser úteis em iluminar topos e fundos locais, enquanto reversões na qual o indicador rompa resistência e a transforme em suporte estão entre os sinais mais claros de que um novo ciclo altista começou.


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Acima, reversões baixista-altista estão marcadas com círculos verdes cheios, onde uma resistência foi quebrada pelo OPL. Reversões altista-baixista estão em vermelho. Note a transformação incipiente da zona de resitência em suporte, em maio/2019.

16 de Janeiro de 2019 teve o segundo pior dia da história do OPL, perdendo somente para um dia no começo de 2013. Na média móvel simples de 10 dias, 16 de Janeiro foi o ponto mais baixo da história - ou seja, teve-se uma sequência incomum de transações realizando prejuízos on-chain.

Os gráficos ainda revelam 2 padrões curiosos:

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Acima, na esquerda: 1, 2, 3 — a resistência é rompida. Direita: não mais que um topo triplo, no máximo quádruplo, no OPL, antes de os preços cederem.

Não se deve apostar fichas na repetição exata de nenhum desses padrões no futuro, é claro. O takeaway é que provavelmente não será comum ver (1) tendências de alta no OPL sustentando topos ascendentes por muito tempo; nem (2) resistências aguentando mais que um par de testes.

Os gráficos acima tornam a capitulação do fim de 2018 ainda mais pronunciada que os preços sugeriram, com o OPL diário mergulhando a níveis violentamente negativos em alguns dias de Dezembro 2018 e Janeiro 2019.



🌡 Sobre a Volatilidade do OPL


A volatilidade do OPL parece ser um termômetro útil para detectar mudanças sazonais no humor do mercado.

Dados preliminares indicam que baixa volatilidade do OPL é historicamente associada com fases de acumulação (o que é auto-explicativo), enquanto aumentos consistentes denotam a virada em direção ao espírito bullish (altista).

Suspeito que períodos altistas prévios tenham visto um pico na volatilidade do OPL perto de topos de preço (provavelmente, logo em seguida deles). Fica como objeto de uma próxima peça, quando tivermos dados mais conclusivos à mão.


📝 Apêndice: Um Exemplo Passo-a-Passo De Como É Extraído o Indicador


O gráfico abaixo mostra uma visão diária do OPL, na linha azul. Emlaranja, vemos o preço médio no qual UTXOs foram gastos, a cada bloco. Em roxo, o "preço realizado" médio para UTXOs gastos no mesmo período (o quanto valiam na última vez em que foram movidos).


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O OPL é a linha laranja (preço atual) menos a linha roxa (preço realizado). Pode ser visto como um índice de lucratividade para as transações sendo realizadas on-chain.

Granularmente:

Olhemos para o UTXO A, que carrega 1 BTC, criado em Março 2017, quando o bitcoin valia U$1.000. UTXO A foi movido em Maio 2019, com o bitcoin a U$5.500. A transação representou 790 Dias Destruídos. Ela também representou +U$4.500 (1*(5.500–1.000)) em On Chain Profits & Losses (OPL).

Agora, vamos assumir que houve 2 transações na blockchain hoje. A primeira foi essa, do UTXO A. A segunda veio do UTXO B, que carrega 3 BTC, criado em Dezembro 2017, com o bitcoin precificado a U$15.000. Dezessete meses (540 dias) depois, essa transação representa 3*540=1620 Dias Destruídos, e também -U$28.500 de OPL (3*5.500–3*15.000).

No agregado, este dia hipotético teria sido um dia medíocre no quesito Dias Destruídos, com o indicador em 2410 dias para 4 moedas movidas (a dormência média geralmente flutua abaixo de 180 dias) — permitindo-nos inferir que, provavelmente, um bocado de valor foi realizado por participantes do mercado.

No entanto, o OPL conta uma história diferente, a -U$24.000, revelando um bocado de perdas materializadas. Em termos relativos, o OPL neste dia hipotético ficou em aproximadamente -48%. Há mais sangue do que sorrisos nas ruas.

A distinção entre as duas mértricas (CDD e OPL) é especialmente útil entre ciclos de mercado, quando o preço passou por correções severas e Dias Destruídos não são a maneira mais sensível de se medir a prosperidade financeira da blockchain.

O OPL é similar ao MVRV (Valor de Mercado / Valor Realizado) em intenção, uma vez que se propões a capturar o quão "abaixo da linha d'água" ou lucrativo o mercado se encontra. Mas tem o escopo reduzido, de toda a oferta circulante de moedas (MVRV) para somente aquelas envolvidas em trocas ativas de valor on-chain (OPL).

No exemplo acima (UTXO A e UTXO B), mesmo que houvesse um milhão de UTXOs a mais blockchain afora, e que o MVRV estivesse em 0.90, denotando que o conjunto de posições não realizadas se encontra numa média de -10% em prejuízos, o OPL seria capaz de revelar uma medida mais granular sobre o quão ótima está sendo a performance de bitcoiners em termos de lucratividade "real".

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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