🛥️ O Uso do Bitcoin como "Bote Salva-Vidas" no 3º Mundo
Um olhar crítico sobre evidências da adoção da criptomoeda em 4 regiões: Venezuela, Argentina, África Subsaariana e Oriente Médio.
Uma das narrativas mais poderosas do Bitcoin é a de que ajuda cidadãos comuns a escaparem das garras de Estados tiranos. Por "garras", entende-se: a inflação (perda do poder de compra da poupança); controles de capital e o confisco.
O quanto dessa história é verdadeira, e o quanto é puro marketing?
A seguir, exploramos dados e casos de uso do Bitcoin em economias suscetíveis a tais contextos.
🛒 O "Potencial Mercadológico" do Bitcoin
O Bitcoin tem (1) uma política monetária algorítmica (não infla arbitrariamente); é (2) transmissível para qualquer lugar do mundo e, se auto-custodiado, é (3) inconfiscável.
Esses atributos soam mais concretos se você já viu alguma das 3 coisas acontecer no seu país: (1) hiperinflação; (2) limitação de compras de dólar / restrições a remessas internacionais; ou (3) congelamento de poupanças.
O Bitcoin Market Potential Index ranqueia a utilidade potencial do bitcoin em 178 países. Apoia-se em 40 variáveis e 7 sub-índices igualmente ponderados: penetração da internet, volume de remessas internacionais, inflação, tamanho da economia informal, repressão financeira, histórico de crises financeiras e penetração do bitcoin.
O estudo, feito originalmente em 2014, indica Argentina, Venezuela, Zimbábue e Malawi como pólos potenciais de adoção. Dentre os países da amostra, a Venezuela detém a maior inflação, e o Zimbábue, a maior economia informal (63% do PIB).

Outra pesquisa, baseada em dados de 2013–14, sugere que as variáveis econômicas mais fortemente correlacionadas com a adoção do bitcoin a nível nacional são (1) taxas de inflação e (2) índices de abertura financeira (Índice Chinn-Ito).
🔎 Necessidade VS. Curiosidade
A adoção pela necessidade precede aquela pela curiosidade.
Um momento pivotal na história do Bitcoin — a 1ª vez que muita gente ouviu falar na criptomoeda — aconteceu em 2010. Depois de ter sido cortada pelo PayPal, Visa e Mastercard, a Wikileaks precisou começar a aceitar doações em bitcoin para sobreviver.
De maneira equivalente, muitos bitcoiners entram em contato com a criptomoeda porque não lhes restava alternativa. No Runescape, um jogo de RPG online, existem zonas cheias de venezuelanos matando repetidamente dragões verdes. Por quê? Por que dá pra ganhar U$0,50/hora fazendo isso — cinco vezes mais que o salário mínimo no país chavista.
Os dragões soltam itens que os jogadores coletam e revendem para acumular ouro virtual, finalmente convertendo o ouro virtual por dólares ou bitcoin em algum mercado. O método não é inédito, e tem até nome: "gold farming". Chineses o praticam no mínimo desde 2005.
Em 2013, o CEO da empresa por trás do Runescape afirmou que 40–50% da base de usuários ativos, em qualquer dado mês, comprava ouro de "gold farmers" venezuelanos.
📊 Evidências Anedóticas VS. Dados Quantitativos
Você vai encontrar muito mais anedotas (como esta do Runescape) do que sumários quantitativos sobre casos de uso do Bitcoin para a evasão da tirania estatal.
A razão é óbvia: os usuários em questão não querem que vaze nenhuma informação sobre eles.
Por motivo parecido, ouvimos frequentemente narrativas sobre governos que empreitam programas nacionais de mineração (como o Irã) ou acúmulo de bitcoin (como a Bulgária), ainda que seja difícil validá-las factualmente.
Você encontra um compilado dos melhores estudos quantitativos e qualitativos sobre o tema no rodapé desde texto.
💱 Mercados P2P
Em mercados latino-americanos, é comum o uso do bitcoin para se transferir valor através de fronteiras controladas. Na forma mais simples, o processo consiste em encontrar uma contraparte e trocar BTC por um crédito em conta bancária de outra nacionalidade — ou vice-versa.
Por exemplo: José, um venezuelano, vende BTC recém minerados por 100 pesos colombianos, a serem depositados na conta de um parente que vive na Colômbia. Veja essa apresentação para entender o passo-a-passo de tal transação hipotética — assim como o seu inverso.
O LocalBitcoins é o mercado P2P (peer-to-peer) de criptomoedas mais popular do mundo. Abaixo, você vê o seu volume diário somado.

Em 2019, a plataforma facilitou a negociação de U$315 milhões somente em bolívares — a moeda venezuelana é a maior responsável pelo volume global, tecnicamente empatada com o dólar americano, e seguida de perto pelo naira nigeriano.
📌 Panoramas Regionais
🇻🇪 Venezuela
Por um lado, a inflação galopante e as políticas econômicas irresponsáveis criaram uma demanda concreta por moedas alternativas na Venezuela. Por outro lado, é uma cripto-distopia onde a ditadura usa uma criptomoeda estatal para se financiar.
Desde 2003, o único jeito de conseguir dólares é via uma agência do governo. A primeira exchange do país nasceu em 2014.
Anos de eletricidade praticamente gratuita deram origem a uma comunidade de mineradores robusta e, hoje, a Venezuela é o país com os maiores volumes de negociação no LocalBitcoins.
Em outubro de 2017, estimava-se que ~100,000 venezuelanos mineravam criptomoedas, de uma forma ou outra. Um site que analisa a economia virtual em jogos de RPG localizou tráfego de cerca de 17,000 venezuelanos únicos, durante um semestre em 2019 — até a Economist já reportou a respeito. Parece razoável assumir que algumas dezenas de milhares de habitantes busca salvaguarda em versões eletrônicas de dinheiro.
Alberto é um destes. Minerava U$1.200 em bitcoin por dia, durante 2016. Usava as moedas para comprar cartões-presente da Amazon, em sites que as aceitavam, enquanto mascarava seu IP usando um serviço baseado em Miami. Tendo vindo direto de blocos recém minerados, seus bitcoin eram praticamente impossíveis de se atribuir à sua geografia.
Na Amazon, importava comida, inclusive para familiares. As operações de mineração ficavam escondidas em múltiplos locais nos subúrbios mais pobres de Caracas — onde era improvável a presença de polícia. Alberto vestia roupas baratas e dirigia um carro usado.
Economizava para aplicar a um visto americano e tentar empreender nos EUA. Vinha prototipando um "controle remoto" que permitiria a qualquer um monitorar seus equipamentos de mineração e reativá-los em caso de pane — mesmo à distância, o que em Caracas significava evitar jornadas arriscadas ou eventuais confrontos com a polícia.
Alberto é um nome fictício. Assim como sua identidade real, seu paradeiro é desconhecido.
🐦 Acompanhe na fonte: Eduardo é um venezuelano expatriado que hoje mora na Argentina graças aos BTC que juntou e ao emprego que conquistou na área. Frequentemente reporta sobre a situação de seu país de origem.
📻 Assista/ouça/leia: A Bitcoin Reality Check in Venezuela (podcast).
🇦🇷 Argentina
Poupar dinheiro para depois vê-lo evaporar é quase um rito de passagem na Argentina. A desconfiança nas instituições financeiras é tão grande que metade dos adultos do país não tem uma conta em banco.
A inflação do peso já superou os 10.000% anuais, e nos últimos anos rondou os 30–50%. Durante a crise financeira de 2001, às vésperas do Natal, o governo impôs o corralito (um congelamento bancário) para conter a fuga de capitais. Protestos eclodiram pela capital e culminaram com dezenas de mortes e o escape do presidente (De La Rua) da Casa Rosada de helicóptero.
Durante 2011–15, o acesso a dólares foi artificialmente restrito, eliminando opções legítimas de poupança em moeda estrangeira, e fomentando um mercado negro. Em 2016, mais de 150 comércios aceitavam bitcoin em Buenos Aires — número maior que o de Nova Iorque ou São Francisco.
A capital se orgulha de ter tido os primeiros taxistas a aceitarem BTC na América Latina, e sedia a Casa Voltaire: uma residência-escritório coletiva que deu origem a alguns dos produtos e serviços latinos mais icônicos da indústria nos últimos anos. Na Argentina, criou-se a Xapo, a RSK, a OpenZeppelin e a Decentraland.
🐦 Acompanhe na fonte: Santiago é um argentino que teve atuação política em Buenos Aires e hoje, radicado nos EUA, lidera iniciativas ligadas ao dinheiro eletrônico e a democracia.
📻 Assista/ouça/leia: How I Survive Argentina’s 50% Inflation (palestra).
🇮🇷🇦🇫 Oriente Médio
Um caso emblemático de opressão política (e resistência civil) é o do Irã, afundado em sanções internacionais. Em 2018, o Slack cortou o suporte a contas iranianas. Em 2019, o GitHub, maior plataforma de colaboração em software do mundo, baniu iranianos por completo (além de sírios, cubanos, criméios e norte coreanos). Incontáveis desenvolvedores ficaram órfãos de seus próprios projetos, antes hospedados no site. Não é preciso nem dizer que os bloqueios financeiros já estão em nível muito mais avançado.
Uma pesquisa com +1500 iranianos em grupos de Telegram sugere que um terço deles tem envolvimento com mineração, e mais da metade negocia moedas ativamente em exchanges ou redes P2P locais.
Outra anedota poderosa vem do Afeganistão. Uma empreendedora de tecnologia reconhecida por ter criado um estúdio de desenvolvimento só de mulheres se viu em dificuldades quando tentou pôr de pé uma rede de jornalistas remuneradas via publicidade.
99% das contribuidoras não tinha conta bancária — como em muitas nações islâmicas, a Hawalla predomina, no Afeganistão. Trata-se, muito resumidamente, de um sistema informal (peer-to-peer) de crédito e repasse de balanços. A remuneração às mulheres foi uma novidade para muitas famílias, e não foram poucos os maridos que retiveram o dinheiro por conta de tradicionalismo.
Roya, a empreendedora, adotou o bitcoin como forma de pagamento — e cumpriu tanto com o objetivo de repassar os lucros quanto com aquele de empoderar suas compatriotas. Mais adiante, ela chegou a patrocinar uma equipe de robótica 100% feminina que causou furor na mídia ao ir competir nos EUA.
🐦 Acompanhe na fonte: Ziya é um dos membros mais proeminentes da comunidade bitcoiner no Irã.
📻 Assista/ouça/leia: How Bitcoin Solved This Serial Entrepreneur’s Problems (podcast).
🇳🇬 África Subsaariana
Matt Ahlborg tem produzido a melhor pesquisa que conhecemos sobre o uso do Bitcoin na África subsaariana.
O autor vasculhou a Paxful para desvendar a razão por trás dos volumes gigantescos oriundos da Nigéria. A Paxful é uma plataforma peer-to-peer focada na negociação de créditos/milhas/pontos por bitcoin, através de carteiras virtuais impromptu (de terceiros), como cartões-presentes de grandes varejistas.
Metade do volume da Paxful pode ser atribuído à negociação de gift cards — boa parte deles pertencentes à Amazon. Como o autor viria a descobrir, constituem um esquema elaborado (mas surpreendentemente prático) de remessas entre imigrantes nigerianos nos EUA e seus lares na África.
"O processo inteiro leva 20–30 minutes. O resultado final é dinheiro da Nigéria na conta bancária do meu familiar" - declara um de seus entrevistados.
Ahlborg notou que muitos dos cartões-presente obedeciam a um padrão: o item era comprado em uma loja de conveniência americana horas antes de ser redimido na Paxful… por um IP nigeriano. A razão?
Imigrantes compram o cartão num posto, tiram uma foto dele junto ao recibo, e imediatamente enviam-na para o parente (destinatário) na Nigéria, pelo Whatsapp. O receptor cadastra o gift card na Paxful (com os dados da imagem), e vende seu valor por bitcoin, posteriormente convertidos em nairas (ou não).
Mas quem compra dólares presos em gift cards? Pois os incentivos do outro lado do trade abundam.
A Nigéria sofre de controles de capitais amplos, e a naira tem um mercado negro vigoroso. Transferências bancárias internacionais obedecem às taxas oficiais, revelando-se quase sempre impráticas. Remessas por "canais alternativos" permitem que qualquer um compre moeda estrangeira a preços mais próximos que aqueles oferecidos no mercado negro local — conseguindo obter mais dólares por naira. Em certas ocasiões (como no último mercado de alta nas criptomoedas), o premium sobre gift cards dolarizados na Nigéria chegou a ser tamanho que imigrantes nos EUA podiam pagar até 30% mais do que o valor do cartão, e ainda assim fariam chegar mais nairas a seus familiares do que usando qualquer outro método.
🗺️ Outros Métodos de Pesquisa
Uma vez que transações de bitcoin não têm um identificador geográfico (como um IP, no caso do tráfego pela internet), fica difícil precisar-lhes uma localidade. Algumas empresas de monitoramento de blockchains já aproximaram o fluxo de criptomoedas entre países via dados de exchanges:
Report on International Bitcoin Flows, 2013–2019 (Crystal/BitFury)
Esses fluxos mudam de figura quando se foca em transações peer-to-peer (desintermediadas). A visualização a seguir soma os volumes da LocalBitcoins e da Paxful, denotando o quanto se negociou de bitcoin contra cada moeda-base em maio de 2020:
No site UsefulTulips.org, você consegue quebrar esses volumes ao longo do tempo, e entre países/regiões específicas:
Outra frente são as pesquisas de opinião. Uma das mais recentes em escala global, feita pela Statista, com ~40.000 respondentes, sugere que a Turquia é o país com a maior quantidade relativa de donos de criptomoedas — seguida de perto pelo Brasil:
Vale destacar também estudos que comparam o perfil de utilização, por região. Matt Ahlborg, que já citamos, mantém um mapa interativo que ilustra o nº de transações, o valor médio e outros dados-chave do LocalBitcoins para cada país:
Em 2016, pesquisadores de Stanford flertaram com uma heurística para comparar o balanço médio de endereços e a quantidade de entidades oriundas da América do Norte, Europa, Ásia e América Latina. Os dados (já bastante defasados) indicam que os balanços asiáticos tendem a ser maiores, bem como o número de entidades envolvidas em transações na blockchain:
🏰 Por Que as Nações Falham
Em "Por que as Nações Falham", Acemoglu & Robinson desenvolvem uma teoria centrada em instituições político-econômicas herdadas da colonização.
Hipotetizam que métodos extrativistas destroem muito do potencial econômico de uma região, engendrando no sistema social a desigualdade maciça e o desincentivo ao labor. A tendência se retroalimenta.
As instituições ideais dos autores protegem direitos de propriedade privada, incentivam o investimento e oferecem oportunidades econômicas igualitárias. Instituições extrativistas, por outro lado, são caracterizadas pelo usufruto do poder político para reprimir e explorar a maioria da população. É difícil interromper o ciclo quando ele já está se auto-alimentando.
O Bitcoin desponta como alternativa. Enxuga o financiamento institucional e contribui para uma confluência de fatores que podem ajudar a quebrar o ciclo do extrativismo.
Ele não vem com manual de instruções. Tampouco com um catálogo de histórias de refugiados nas quais se inspirar. Estas não são razões para desqualificá-lo.
A dificuldade de se obter dados para quantificar, endereços para localizar, e rostos para visualizar essas anedotas todas é justamente evidência do contrário. Finalmente, dispomos de uma tecnologia dissidente que funciona, 24 horas por dia, 7 dias por semana, em qualquer canto do planeta.
📚 Referências
- Unable to Get Dollars, Venezuelans Turn to Bitcoins (Vice News, 2014)
- The Bitcoin Market Potential Index (London School of Economics, 2014)
- Can Bitcoin Conquer Argentina? (Nathaniel Popper, 2015)
- Opportunities and Risks Associated With The Advent of Digital Currency in the Caribbean (Nações Unidas / ECLAC, 2015)
- Bitcoin: The Techie’s Refuge from a Collapsing Bolivar (Caracas Chronicles, 2016)
- Bitcoin Pricing, Adoption, and Usage: Theory and Evidence (SIEPR/Stanford, 2016)
- The Secret, Dangerous World of Venezuelan Bitcoin Mining (Reason, 2017)
- The Gold Game: Farming Virtual Money to Fight a Real-Life Crisis (Caracas Chronicles, 2017)
- O Bitcoin Foi o Que Impediu Minha Família de Morrer de Fome na Venezuela (Mises Brasil, 2017)
- An Inside Look on How Crypto Projects Are Made (Ryan Vanzo, 2017)
- Steemit: A Lifesaver Amid Hyperinflation (Caracas Chronicles, 2018)
- Bitcoin in Troubled Economies: The Potential of Cryptocurrencies in Argentina and Venezuela (Latin American Law Review, 2018)
- Out of 1,650 Iranian Bitcoiners… (Gate.Trade, 2019)
- State Adversaries Seeking Blockchain Sanctions Resistance (Foundation for Defense of Democracies, 2019)
- Money on the Edge: Designing for Extremes in Venezuela (Open Money Initiative, 2019)
- Money on the Edge: Provoking Products (Open Money Initiative, 2019)
- UsefulTulips.org (2019)
- Paxful is the Most Important Bitcoin Company You Aren’t Paying Attention to (Matt Ahlborg, 2019)
- Nuanced Analysis of LocalBitcoins Data Suggests Bitcoin is Working as Satoshi Intended (idem, 2019)
- Will Argentina Be the Next Venezuela? (idem, 2020)
- How RuneScape is helping Venezuelans Survive (Polygon, 2020)