🏗️ O Plano da Yearn Para Engolir Fundos e Bolsas Incumbentes | Pt.2
Parte 2: entendendo a Yearn, peça a peça. O que são as Vaults? Qual impacto a yETH pode ter no ecossistema?
Uma vez que a Yearn capturou 1 bilhão de dólares em liquidez, ficou claro que seu potencial não se restringia a mover dinheiro entre protocolos terceiros.
O insight que se seguiu é o mesmo a acometer toda fintech que cresce seu AUM (assets under management — capital sob custódia) rápido a ponto de se questionar se não deve aspirar virar um banco.
Por que a Yearn não poderia "juntar as peças", e oferecer todo tipo de serviço financeiro para sua base crescente — e religiosa — de usuários?
Foi essa realização que levou Andre Cronje a delegar tarefas ligadas à espinha dorsal do projeto para a comunidade, e focar sua energia no desenvolvimento de novas peripécias.
O produto central da operação (Earn) está funcionando on-chain. Não requer manutenção. O inventor pode se voltar para expandir o império.
📦 Entendendo as yVaults
A 1ª versão da Yearn tinha uma só estratégia, genérica. A partir da 2ª versão, qualquer um pode propor (e a comunidade aprovar) novas estratégias, específicas.
A v1 da Yearn era composta somente pelo que hoje chamamos de Earn — uma estratégia de arbitragem entre juros oferecidos por AAVE, dYdX e Compound.
A v2, lançada no fim de julho, introduziu formalmente o conceito das Vaults.
A ideia se originou de uma necessidade urgente. Uma das inúmeras cópias da YFI (a chinesa YFII; que depois mudou de nome pra DFI) começou a ganhar tração. Seus yields viraram tentadores, e atraíram alguns dos provedores de liquidez da Yearn. A resposta foi rápida.
Andre Cronje implementou, isoladamente (num "contêiner", ou, em inglês, "vault"), uma estratégia que diferia da Earn, e fora desenhada especificamente para subverter o sucesso da YFII… "capturando-o" para beneficiar a comunidade de portadores de YFI.

Ilustrando a estratégia que contra-atacou o sucesso da cópia chamada YFII. Fonte: Olivier VDB
Depositava-se uma stablecoin (yCRV) na Vault da estratégia; a stablecoin era usada para farmar YFII; os YFII eram vendidos a mercado imediatamente e o lucro reinvestido em mais stablecoins. Ad infinitum.
Portadores de YFI não só lucraram em cima da euforia do mercado com um concorrente barato, como suprimiram os preços do token competidor devido à pressão de venda constante exercida.
As próximas Vaults surgiram de forma menos reativa, e mais proativa.
Estipulou-se um pequeno incentivo para que membros da comunidade submetessem propostas de novas estratégias para análise. A implementação genérica dele é simples (veja na imagem abaixo). Ideias começaram a pipocar.

Visualizando a implementação do incentivo para criadores de estratégias. Ilustrações originais por Finematics.
Foi aberta uma Vault de DAI. Depois, de outras stablecoins. Hoje, já tem até Vault de YFI, e de ativos como LINK.
Dá pra comparar os retornos da Vaults ativas em stats.finance/yearn. Na hora de prover liquidez, a interface da Zappier é um pouco mais amigável que a da própria Yearn (veja abaixo).

🔸 A yETH Vault
A yETH Vault gerou um rebuliço pelo suposto potencial de sugar ETH indiscriminadamente.
A Vault recebe ETH de usuários. Esse ETH é usado como garantia para emprestar DAI na MakerDAO. O DAI é alocado à yDAI Vault, que provê liquidez em DAI na Curve, coleta recompensas em CRV, as prende no contrato de governança da Curve para mais recompensas em CRV, periodicamente vendendo estas posições na Curve a mercado, para acumular mais ETH.
Segue um diagrama ilustrando o funcionamento da estratégia:

O fluxo da yETH Vault, por Barry Gitarts.
Beneficia-se de uma integração íntima da Yearn com a MakerDAO para se alavancar em DAI e ter 1 hora de “buffer” (uma espécie de aviso prévio) em caso de liquidação iminente — o que permite à estratégia quitar o débito / se desalavancar à tempo. Poucos outros projetos no ecossistema têm esse privilégio — que foi aprovado no processo de governança da Maker.
A yETH Vault engoliu mais de 330k ETH nas primeiras 24h de operação, a um ROI anualizado que rondava 100% no começo. Ele obviamente foi esmagado, e hoje paira em torno de um décimo desse valor.
Ainda assim, instiga implicações importantes para a segurança da Ethereum na sua transação para o Proof-of-Stake (o incentivo para fazer stake diminui se há retornos maiores para se colher depositando ETH em outro contrato).
A capacidade da Vault foi inicialmente restrita (o protocolo da Maker tem um teto além do qual não dá mais para emitir DAI); travando a escala da estratégia na sua forma original. Em poucos dias, a "captação foi fechada". A equipe agora trabalha para diversificar as maneiras pelas quais a Vault se alavanca, e poder "reabrir" a estratégia.

Um diagrama mais visual do funcionamento da yETH Vault. Fonte: Finematics.
📅 O Futuro das yVaults
O pleno potencial das Vaults não está em usá-las como produtos finais, mas sim como blocos fundamentais. Entre as mais recentes, é uma constante a reciclagem de uma ou mais Vaults pré-existentes no fluxo da nova estratégia.
A próxima fase do aprimoramento passa pela criação de meta-estratégias capazes de otimizar a alocação entre Vaults, para diferentes funções objetivas (e.g. maximizar o aproveitamento de capital no sistema; minimizar a volatilidade dos retornos; manter retornos não-correlacionados entre Vaults; etc).
Uma ideia em discussão é configurar formalmente "limites de capacidade" para cada Vault, assim como regras para migrar o eventual capital excedente para "a próxima Vault na fila".
Outra ideia estende o conceito de uma "estratégia containerizada" ao venture capital: “vcVault” seria uma pool que investe em tokens ainda sem liquidez, ou em equity (on chain) de projetos emergentes. Suas alocações provavelmente dependeriam de votações por parte de detentores de YFI. Quase como um mini TheDAO.
A Yearn já ostenta quase 10 Vaults, e seu portfólio de estratégias só tende a ganhar em variedade.
Conforme derivativos em sidechains da Ethereum se popularizarem, assim como pontes para outras blockchains, a Yearn evoluirá para buscar os melhores yields em qualquer ambiente. Sua caixa de ferramentas é teoricamente ilimitada (arbitragens basis-spot; arbitragens entre juros; operações oxigenadas por empréstimos-relâmpago), e seu custo é extremamente competitivo (devido a escala).
Não nos surpreenderia se, em breve, as interfaces da Yearn omitissem as Vaults em si, deixando aos usuários a possibilidade de subscrever à meta-estratégia que lhe agradar.
Meta-estratégias podem ser cunhadas para refletir diferentes estilos de gestão. Ou seja, combinações entre Vaults, montadas mirando-se um perfil bem específico de retorno ou audiência.
Exemplo: uma meta-estratégia de arbitragem de juros a partir de DAI, usando 4 Vaults diferentes e canalizando parte dos lucros para atividades de venture capital, “assinada” pela Alameda.
Uma meta-estratégia hipotética que direciona parte dos lucros para investimentos ilíquidos, e denomina o capital em stablecoins.
🎫 Apólices de Seguro
Seguradores recebem renda passiva na forma de prêmios. Segurados protegem o valor monetário dos ativos que colocam em risco.
Em seguida às Vaults, Andre Cronje cunhou um novo produto: yInsure. O intuito é oferecer apólices de seguro não-permissionadas.
"Clientes" da Yearn que já tem uma quantidade considerável de dinheiro sendo "gerida" pelo protocolo passaram a poder também assegurar o capital em risco. Funciona assim:
- Seguradores depositam um ativo (ex: USDC) em um contrato específico e recebem em troca yiUSDC.
- O yiUSDC é um IOU para os USDC depositados por seguradores. Eles podem resgatar os USDC originais + prêmio ao fim do período da apólice.
- Usuários que buscam seguros depositam o ativo que desejam assegurar. O interessante é que este pode ser um token que represente participação numa Vault. Por exemplo, você pode emprestar LINK na AAVE (recebendo aLINK em troca — um IOU para seus LINK); depositar o aLINK na Vault de aLINK da Yearn (recebendo aiLINK em troca); e então depositar o aiLINK neste contrato de seguro— recebendo em troca yaiLINK.
- O yiaLINK é um IOU para os aiLINK do usuário. Os aiLINK são um IOU para os aLINK (alocados na estratégia da Vault). Os aLINK são um IOU para os LINK emprestados na AAVE.
- Na eventualidade de um incidente, o "clamor" é aprovado (ou não) pelo processo de governança da Yearn, e o capital dos seguradores (USDC) é transferido para os portadores dos IOUs correspondentes.
Obter um seguro custa um prêmio semanal de 0.01% (mais 0.1% para o iniciador).
Comprando uma apólice de seguro na yInsure.
O serviço "pega carona" numa pool de underwriters da NexusMutual (um protocolo de seguros com KYC), mas emite um token novo para representar apólices. Trata-se de NFTs (tokens do tipo ERC721) que carregam direitos específicos dentro de um período pré-determinado (a validade do seguro).
Esses NFTs podem ser vendidos livremente em qualquer mercado secundário — e não requerem identificação do usuário nem mesmo para emissão primária, na yInsure.
Eles podem ser fracionados, agregados, emprestados, re-colateralizados: com um pouco de criatividade, dá pra vislumbrar um bocado de derivativos exóticos.
Por exemplo, qualquer agente suficientemente munido pode
- (1) vender um lote gigantesco de "cover" contra posições em Tether (yUSDT);
- (2) empacotar os NFTs recebidos da yInsure (que representam as obrigações por trás das apólices e o direito delas — o prêmio a ser pago por segurados); e
- (3) revender pacotes destes e outros NFTs (o mesmo produto, mas contra USDC, por exemplo), acrescidos de um largo spread.
Os compradores terão acesso a um instrumento líquido que dá um yield suculento (0.01% por semana), e que só vira pó… se o se o seguro sobre o capital primário for "chamado" (se algo devastador acontecer com uma das stablecoins seguradas, como o Tether).
Caso esta descrição não tenha lhe soado nenhum alarme: a estrutura é parecida com a dos CDOs (collateralised debt obligations) — protagonistas do filme "A Grande Aposta".
Aquele tipo de instrumento "sedutor demais para ser verdade"… até ir a zero da noite pro dia.
⚖️ StableCredit & ySwap
A Yearn ainda tem dois outros produtos dignos de nota. Uma fábrica de AMMs própria (ySwap), que permite a troca entre quaisquer dois tokens na Ethereum. E uma stablecoin própria, chamada StableCredit.
Esta última combina alguns primitivos de #DeFi num mecanismo elegante cujo resultado final, para fins práticos, é parecido com o de moedas pareadas ao dólar (como a DAI).
Nenhum destes dois serviços faz frente aos que dominam as respectivas categorias. No entanto, a existência deles sinaliza predisposição da Yearn em diversificar fontes de receita.
Hoje, boa parte do cashflow angariado pelo protocolo remete a subsídios inflacionários capturados em troca de participação na Curve, na Balancer e na Uniswap. Estes não durarão para sempre. Os programas de liquidity mining dos três têm data marcada pra acabar.
Dispôr de um AMM no qual se pode cobrar suas próprias taxas transacionais, ou de uma stablecoin cuja emissão pode ser monetizada (ainda que indiretamente), garante à Yearn certo espaço de manobra para experimentar com novas vias de captura de valor.