👮 O Imbróglio da Uniswap com Reguladores
As nuances que nem bitcoiners e nem etherinos vão te contar. E um possível beneficiário da novela toda.
A Uniswap Labs, empresa cujo CEO é o inventor do protocolo Uniswap, fez um anúncio que deixou DeFi em polvorosa.
Com efeito imediato, o aplicativo hospedado em app.uniswap.org passou a bloquear mais de 100 tokens para negociações, em sua interface. A lista completa dos tokens pode ser encontrada aqui. Tratam-se, na maioria, de ações tokenizadas, sintéticos que espelham a performance de certos "ativos-alvo" e opções. Por exemplo, mTESLA e mAMZN (emitidos pelo protocolo Mirror), stablecoins que oferecem yield nativamente (emitidos pelo protocolo UMA), opções de Ether (emitidas pelo protocolo Opyn) e uma variedade de tokens emitidos pelo protocolo Synthetix.
Não é a primeira vez que uma "blacklist" do tipo é implementada pela equipe - inclusive, já houve casos de tokens "barrados" por serem bugados (como o Tether Gold).
👀 Contexto
O anúncio foi feito menos de uma semana depois que Gary Gensler, o atual chefão da SEC (CMV dos EUA), fez um alerta sobre regulações mais restritivas em torno de swaps (um tipo de contrato) atrelados a valores mobiliários (como ações). Gensler foi enfático quanto ao "espaço das finanças descentralizadas", e citou nominalmente "ações tokenizadas" e "stablecoins". Alguns comentaristas legais especulam que certos times por trás de serviços de DeFi e sediados nos EUA possam ter recebido intimações nos últimos dias (se for o caso, eles são proibidos de falar a respeito).
Vale lembrar que a Binance e a FTX, há poucas semanas, também suspenderam negociações de ações tokenizadas que suportavam.
💬 A Discussão
É difícil encontrar opiniões equilibradas em espaços limitados (como threads no Twitter). Esta nota foi escrita para esclarecer as nuances da situação.
Ilustração de Leighton Cusack, fundador da PoolTogether. Detentores do token UNI votam para implementar ou não alterações no protocolo codificado em contratos na Ethereum. Mas não tem poder algum sobre quaisquer interfaces que "conversam" com esses contratos.
Boa parte dos bitcoiners mais afetuosos divulgaram o episódio aos quatro ventos, aproveitando-o para zombar do compliance da Uniswap, e sugerir sua aproximação com reguladores.
Boa parte dos etherinos mais apegados defenderam o protocolo do unicórnio rosa, dizendo que frontends não importam ou não tem impacto no serviço provido pelo protocolo.
A verdade, provavelmente, fica no meio do caminho.
Anda que o frontend feito pela Uniswap Labs tenha efetivamente delistado uma centena de tokens... todos eles seguem sendo acessíveis para quem quer que interaja diretamente (ou por outras interfaces) com os contratos do protocolo, que vivem na blockchain da Ethereum e são, acredita-se, imparáveis. Algumas das outras interfaces que interagem com estes contratos, hoje, são roteadores como 1inch e Matcha, e agregadores como Zapper e Zerion.
Etherinos não estão de todo errados em sugerir que é um exagero afirmar que "a Uniswap está se dobrando aos reguladores" - e que essa lógica, de certa forma, equivaleria a dizer que "o Bitcoin se dobra a um regulador" a cada vez que uma exchange fecha ou é obrigada a cessar negociações da criptomoeda-mãe.
Por outro lado, é impossível negar que aplicativo hospedado em app.uniswap.org é muito mais importante para a perenidade do protocolo Uniswap... do que qualquer exchange ou aplicativo jamais será, a essa altura, para a perenidade do Bitcoin. E bitcoiners também não estão errados em apontar que a mera existência de um time identificável, e um endereço para o qual enviar uma cartinha judicial... já torna o protocolo da Uniswap significativamente mais centralizado que o protocolo do Bitcoin.
Os efeitos sociais da decisão de Uniswap Labs precisarão de tempo para se cristalizar. Pensamos, hoje, ser leviano acreditar que o protocolo do unicórnio rosa possa se manter completamente imune a interferências judiciais.
Um exemplo simples: independentemente da interface usada, você agora teria a mesma predisposição em prover liquidez para uma pool de tokens "na lista negra" - ou preferiria se ater aos tokens "whitelisted"? Já parou pra pensar nas consequências que isso pode ter para a liquidez dos tokens "banidos"?
No mais: hoje, a maior parte do volume do protocolo já não vem da URL mantida pela Uniswap Labs. Mas você acha que agregadores e roteadores como os que mencionamos acima vão ficar fora do alcance do braço regulatório por muito tempo?
🤖 Rodando sua Própria Versão do Uniswap
Criptofanáticos não perdem tempo. Poucas horas depois do anúncio da Uniswap Labs, uma miríade de cópias da interface original já haviam sido lançadas em domínios diferentes, por figuras anônimas ou pseudônimas. Uniswap.rip é provavelmente a mais divulgada. Não endossamos o uso - ⚠️ o risco de phishing aumenta consideravelmente conforme se migra de uma URL conhecida para endereços novos.
A maneira mais segura de "replicar" a interface "antiga" do aplicativo hospedado em app.uniswap.org envolve um pouco de familiaridade com Git (se você já mexeu com código, vai tirar de letra, se não, peça ajuda para algum parente ou amigo que o fez). Basta ir até o GitHub do projeto, escolher um commit anterior ao dia 24 de julho, clonar o repositório, e rodá-lo localmente (git clone; yarn; yarn start). Se você tiver uma MetaMask instalada, conseguirá interagir com os contratos (e com qualquer token) do seu próprio localhost.
🔵 Liquity: Um Caso a Se Estudar
Um projeto que ganha proeminência com essa novela toda é a Liquity.
Trata-se de um protocolo de crédito (à lá MakerDao) que permite a emissão de uma stablecoin (LUSD) a partir de um depósito de ETH como garantia. Um diferencial é a ausência de custos recorrentes (leia-se: juros). Existe somente uma taxa one-off para custear a emissão.
Outro diferencial, que nos interessa aqui, é o fato de que o time por trás do protocolo nunca implementou um frontend. Desde o início, instaurou incentivos para que terceiros criassem e mantivessem suas próprias interfaces para acessar o serviço. A decisão fez com que a tração fosse inicialmente mais lenta... mas agora se revela presciente. Já existem mais de 20 interfaces confiadas pela comunidade para se usar a Liquity.
🤔 Curiosidade: a Líder de Growth da Uniswap Labs (que também já foi figura importante na MakerDao) é advisor de longa data na Liquity.
O protocolo Liquity paga recompensas pro-rata (em LQTY) para usuários que depositam LUSD numa pool específica (Stability Pool). Operadores de frontend "marcam" com uma "etiqueta" os depósitos que facilitam, e recebem uma porcentagem dessas recompensas.
A ideia não é nova. Em 2017/18, 0x tentou fazer algo parecido. Inclusive, recusou-se a construir interfaces para "conversar" com o protocolo, que foi pioneiro em "trades off-chain com compensação on-chain" - um antepassado das DEXs atuais.
Há quem ainda se lembre dos "relayers", entidades terceiras que mantinham orderbooks conectados aos contratos da 0x. O modelo não vingou. Hoje, o time por trás da 0x mantém o Matcha - agregador que é basicamente o principal frontend para o próprio protocolo deles.
Talvez a 0x estivesse no caminho certo, mas trilhando-o antes da hora. Talvez DeFi precisasse de algo como o que aconteceu com a Uniswap para amadurecer (e começar a ganhar robustez) de verdade.