Paradigma

🔚 O Fim da Infância do Bitcoin

A criptomoeda entra na sua adolescência, valendo 1 trilhão de dólares. É tarde demais para surfar a onda?

A infância do Bitcoin acabou.

Os nerds estavam certos. A criptomoeda fascina CEOs de empresas do S&P 500, fundos multibilionários e banqueiros centrais.

Muito se fala que o ativo deve ser domesticado, daqui em diante. 

O senso comum alerta: o upside não é mais o mesmo de alguns anos atrás. Prescreve que a volatilidade deve diminuir. Que os ciclos devem ser mais demorados, menos violentos.

Esse texto apresenta o outro lado da moeda: o Bitcoin virou adolescente, sim. Mas é agora que começa a incomodar de verdade.

DrawDown da máxima histórica X Dias até uma nova máxima | O 3º ciclo do BTC foi mais curto que o 2º. Não "deveria" ser mais extenso e vagaroso?

1. Tulipas, Exponenciais e Logarítmicas

Mudanças de paradigma costumam parecer inevitáveis, em retrospecto. Como se acontecessem do dia pra noite.

Cada vez mais gente enxerga a invenção de Satoshi Nakamoto como tal. Mas não foi sempre assim.

A interpretação predominante sobre a trajetória da criptomoeda já mudou inúmeras vezes. Até hoje, em alguns cantos obscuros da internet, ainda se encontra quem compare o fenômeno a tulipas, e outras modas passageiras.

Tulipas

Este é o modelo mental do negacionista típico. Amplamente difundido entre 2010 e 2014.

No século XVII, surgiram mercados à vista para negociar tulipas, na Holanda. O negócio se provou lucrativo. Um mero bulbo da flor chegou a valer o equivalente a 24 toneladas de trigo. Quando, décadas depois, introduziu-se mercados futuros, ficou evidente que a demanda era maior que a capacidade de produção. E o setor colapsou.

Tulipas subiram uma vez. E caíram uma vez. 

O Bitcoin já morreu e renasceu mais de trezentas vezes.

Compare a derrocada das tulipas com o histórico de preços do Bitcoin para aniquilar a semelhança proposta por essa narrativa, num piscar de olhos.

Preço histórico do BTC ('10-'17) versus duas bolhas famosas. Fonte: James Todaro / BlockTown

Exponenciais

Em 2013, um usuário do reddit regrediu linearmente preços do Bitcoin e projetou o futuro extrapolando uma exponencial — um canal reto (em escala log) para cima e para a direita. O BTC escaparia desse corredor em seguida, obsoletando a previsão.

Logarítmicas

Em 2014, outro redditiano evoluiu para uma regressão não-linear. Propôs uma curva logarítmica para projetar a evolução futura do BTC. Isto é: uma subida que desacelera conforme se aproxima de um limite. 

Esta forma de regressão é uma das mais populares entre analistas hoje, ainda que seus parâmetros tenham sido adaptados com o tempo.

2. Curvas em S

O cenário alternativo — desconsiderado pelos modelos acima — é o de que a curva de adoção do Bitcoin está traçando a forma de um S. Não se trata de uma anatomia desconhecida. É resultado de uma regressão logística: usada tipicamente para modelar o crescimento incontido de uma população, até que exaurido pela indisponibilidade de mais recursos.

É o rumo pelo qual a TV, a internet e smartphones conquistaram o planeta. Assim como tantas outras tecnologias que começaram como brincadeira, e mudaram o curso da história.

Gradualmente, até que… de repente.

3. O Ponto de Inflexão

Se o Bitcoin estiver seguindo uma curva de adoção em S, a maneira como perceberíamos ela variaria com o tempo.

  1. No começo, testemunharíamos um crescimento aparentemente exponencial (em azul, na imagem abaixo). 
  2. Em seguida, uma fase transacional, em que a exponencial assumiria a forma de uma curva logarítmica, assíntota (como se estivesse tangenciando um teto eminente).
  3. Então, a curva "sairia pela tangente", e aceleraria, readquirindo a aparência exponencial (em verde, na imagem). 

Este último período, no caso do Bitcoin, representaria o "começo do fim" do padrão dólar. O preço da criptomoeda cresceria indefinidamente.

Não significa que 1 BTC vá se tornar capaz de comprar todos os bens e serviços do mundo; só significa que o USD hiperinflou. Que o denominador não presta mais. Que o BTC virou unidade de conta.

Este rascunho projeta arbitrariamente o “ponto de inflexão” no final da década de 20, o que importa é o formato da curva. Fonte: S. Barbour

Boa parte da população mundial ainda ri de uma hipótese como esta.

As seções seguintes são escritas para quem já passou desse ponto. Já se acostumou com o desdém do mainstream, depois de uma década memetizando esta profecia em realidade. Para quem está mais interessado(a) na pergunta:

"Quando o ponto de inflexão chegar… como é que eu vou me dar conta?"

4. "Este Filme" Já Se Passou Antes

O exemplo ao qual profetas da hiperbitcoinização geralmente recorrem é o da Alemanha de Weimar. O caso mais famoso de colapso da moeda governamental na literatura recente.

Assolado pela inflação rampante e alto endividamento, o governo tentou "imprimir" sua saída para a crise. Trabalhadores precisavam ser pagos 2x ao dia porque, na hora do almoço, o salário da manhã já valia muito menos. Apostar na bolsa era um imperativo para não se perder poder de compra.

O que Michael Saylor, CEO da MicroStrategy, está fazendo hoje — ao tomar bilhões de dólares a 0% (!) para comprar BTC — é análogo ao que os Stinnes fizeram na década de 20, sugando todo o crédito ao qual tinham acesso, em marcos alemães, para acumular ouro antes do colapso da República.

"Pessoas ficavam raivosas por não terem aderido ao dinheiro fácil das bolsas; olhando, mas não conseguindo entrar. A taxa de criminalidade disparou. A especulação tornou-se um hobby nacional. Todos, do ascensorista até a elite, apostavam no mercado. Os volumes na Bolsa de Berlim superaram a capacidade da indústria de acompanhar a papelada … e a Bolsa foi obrigada a fechar vários dias por semana para varrer trabalho acumulado. Todos os marcos que existiam no mundo no verão de 1922 não valiam o suficiente, em novembro de 1923, pra comprar um único jornal ou passagem de bonde". Fonte: When Money Dies |Fonte do gráfico: PlanB

Hoje, o custo do crédito é duas ordens de magnitude menor que o retorno histórico de se deter BTC. O apelo de se alavancar é proporcional as expectativas de que o passivo vá diminuir em termos nominais - ou seja, se espera-se que a inflação seja maior que a taxa de juros.

Neste ponto, cada vez mais gente empresta moeda fraca para comprar moeda forte. O feedback cíclico entre a inflação de moedas governamentais e a deflação do BTC catalisa um processo (até hoje teórico) de "hiperbitcoinização". 

Um insight importante nessa heurística é o de que o propulsor da criptomoeda são as crises em moedas fiduciárias causadas por investidores, não a aprovação de jornalistas ou a adoção de "consumidores mainstream".

A ideia dos "ataques especulativos" é antiga no cânone bitcoiniano. A proliferação deles seria sinal de que "o ponto de inflexão" é iminente.

Não é porque Michael Saylor está seguindo a cartilha à risca que o "momento chegou". Pelo contrário. 

Você vai saber que a coisa ficou séria conforme Saylor não for mais tachado de louco entre seus colegas. Quando "louco" for quem não estiver fazendo o mesmo.

5. Depois do Primeiro Trilhão

Em 2021, o homem mais rico do mundo comprou U$1.5 bilhões em BTC. O Morgan Stanley pediu pra abrir um ETF de bitcoin. A BlackRock criou uma divisão pra investir no tema. Braços do FED estão ativamente pesquisando sobre #DeFi.

Ninguém segura o dinheiro mágico da internet. Arte: Jumos

A maior potência da Terra está endividada até as calças. Para cada dólar de riqueza produzida, 1.3 dólar precisa ser pago para credores. Aumentar os juros básicos acarreta mais encargos financeiros, e sufoca o resto do orçamento. Por outro lado, manter as taxas praticamente zeradas depois da explosão monetária mais conspícua da história recente significa escancarar as portas para a inflação.

O FED está entre a cruz e a espada; não é de hoje. A dinâmica do jogo é clara desde a última grande crise 👇

O cidadão comum pode deixar seu capital em (1) uma moeda condenada à corrosão do poder de compra; alocá-lo em (2) títulos de perda fixa (literalmente); ou despejar grana no (3) moto perpétuo do mercado de ações, surfando preços mantidos nas alturas por juros negligíveis e políticas monetárias permissivas.

No caso das ações, tem de tomar cuidado para não ficar "no lado errado do trade", ocasião em que a corretora pode te impedir de operar do dia pra noite. 

Se estiver do lado certo, deduza 25% da conta (40%, no caso do Real) já que o denominador vem inflando a um ritmo desproporcional a qualquer coisa que sua geração já viu. 

Sabe a metáfora do rato que corre dentro de uma rodinha? Pois a rodinha girou ~10x mais rápido em 2020 do que em 2019.

A ascensão de um dinheiro credivelmente neutro é o sinal de uma nova ordem em que cada vez menos agentes soberanos se dispõem a carregar o débito americano nas costas em troca de uma vaga no barco do dólar. Em que entre um império em dissolução e uma ditadura emergente, talvez valha apostar numa terceira via. 

Em que a diferença entre uma ação e um token se torna irrisória. Em que o entretenimento se mistura com o investimento. Millenials comandam mais capital do que boomers.

Em que um fórum obscuro tem mais poder que o maior market maker do planeta. Um líder anônimo tem seguidores mais ávidos que os de qualquer profeta. E fazer parte de um enxame de vespas cibernéticas tem mais apelo que qualquer sabor de patriotismo.

A ira dos economistas que vilanizam o Bitcoin é contraponto irônico à natureza pacífica da criptomoeda.

O mundo não conseguiu concordar sobre fazer um lockdown simultâneo; ou sobre se juntar para combater o aquecimento global — mobilizar autoridades para se preocupar com a criptomoeda é tão ingênuo quanto fútil. 

Se o Bitcoin ameaça um governo, significa que é aliado de outro.

Não existe solução política para os dilemas centrais entre as visões de mundo que se digladiam pelo trono da arena global. A demanda por uma plataforma apolítica de negócios nunca foi tão latente.

O Bitcoin saiu da infância, e o tratamento zombeteiro do status quo se transformará em combate altivo. Primeiro, eles te ignoram. Depois, o bicho pega.

Não se deixe inflamar pelos hereges. Neste jogo, o único movimento vencedor é não jogar. Desconfie de quem confunde o ímpeto do Bitcoin com violência. 

Ele não é uma espada com a qual enfrentar o Minotauro. É só um novelo de linha indicando a saída do labirinto.

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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