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Quais são as abordagens para se criar uma rede social descentralizada? Como diferem os protocolos? Dá para capitalizar em cima?

Redes sociais estão se tornando as lentes pelas quais enxergamos o mundo. 

Isso dá um poder enorme às companhias que são donas das principais plataformas.

Devido aos efeitos de rede, aplicativos sociais tendem ao monopólio. Uma vez que uma rede atrai usuários o bastante e alcança massa crítica, fica difícil para outras competirem - mesmo que seu produto seja melhor.

E conforme essas redes centralizadas crescem, o incentivo de operar para maximizar o lucro invés do interesse dos usuários também aumenta.

Após a compra do twitter pelo Elon Musk, o debate em relação às redes sociais centralizadas vs. descentralizadas entrou em foco novamente.

Nesse artigo, vamos comparar alguns projetos de redes sociais descentralizadas.

Nostr

Nostr não é um aplicativo ou plataforma, ele é um protocolo (assim como o HTTP). 

Seu objetivo é criar uma rede social global que seja resistente à censura.

Seu nome é uma sigla para “Notes and Other Stuff Transmitted by Relays". Foi criado por fiatjaf, um Brasileiro.

Seu design é intencionalmente simples.

Não depende de nenhum servidor central, o que lhe confere resiliência. 

Se baseia em chaves criptográficas e assinaturas, sendo então inviolável. 

Você pode utilizar qualquer um dos vários Clientes para acessar o protocolo. Qualquer um pode rodar um Relay (pense nele como algo similar a um Nó). 

A função de um Relay é simples: eles aceitam publicações de pessoas, e as enviam para outras pessoas.

Resumidamente, funciona assim: para publicar alguma coisa, você escreve seu post e o assina com sua chave - provando que aquela publicação realmente é sua.

Então, você envia para vários Relays - que vão espalhar sua publicação pela rede.

Para saber das publicações de outras pessoas, você “pergunta” para algum Relay se ele tem alguma novidade sobre aquele usuário. 

Você não precisa confiar naquilo que o Relay te enviou, já que pode sempre checar a assinatura pelo seu lado do Cliente. Não confie, verifique.

Você pode compartilhar com outros sua chave pública, para ser encontrado.

Ainda não entendeu? Vamos ilustrar:

A imagem acima foi adaptada do material do Jamal Rakibi.

Não há nenhum incentivo econômico para se rodar um Relay - pelo menos a princípio. 

Por enquanto, segundo o criador, as pessoas estão rodando um Relay simplesmente porque querem apoiar a rede e fazer parte do experimento.

O Nostr, inicialmente, não tem nenhuma relação com BTC ou criptomoedas. 

Mas atraiu a atenção de bitcoiners famosos, devido à proximidade ideológica - uma rede incensurável, aberta a todos e cuja beleza de seu design está na simplicidade.

Jack (criador do Twitter) e Saylor (CEO da MicroStrategy) já possuem suas “contas”. 

Jack chegou a doar 14 BTC para o fiatjaf (criador do Nostr).

Vamos a algumas métricas de uso do protocolo:

No gráfico acima, temos o número de usuários ativos diariamente no Nostr.

Até antes do Jack começar a twittar sobre o protocolo e trazer atenção, estava em menos de 5000. Rapidamente esse número subiu para mais de 25000, e vem caindo após essa euforia inicial.

Esses dados apresentados acima filtram os Eventos (posts), para só mostrar aqueles relevantes - que partem de contas que usam o NIP-05 (Nostr Implementation Possibility 05). Os números não filtrados são bem maiores.

Na imagem acima, temos o número de postagens por dia. Apesar da queda nos usuários ativos, essa métrica segue alta.

Segundo informações do nostr.watch, no momento existe um total de 263 Relays - 150 são públicos, 54 restritos e 59 estão offline (esses dados mudam com frequência).

Apesar do criador brasileiro, a maioria dos Relays se concentra na América do Norte e Europa - e poucos na América do Sul.

Já quanto a aplicativos sendo construídos em cima do Nostr, já temos alguns similares ao Telegram ou Twitter.

Para quem quiser se aventurar mais pelo Nostr, neste repositório aqui temos uma lista de Relays, Clientes, ferramentas e informações diversas.

Farcaster

Farcaster é uma “rede social suficientemente descentralizada”.

Usuários criam sua “conta” ao registrar um par de chaves públicas e privadas em um contrato na Ethereum.

O protocolo possui Hubs, que são similares aos Nós em uma rede blockchain. Hubs compartilham mensagens através de um protocolo peer-to-peer, e cada Hub armazena todas as mensagens da rede. 

Os Hubs usam uma estrutura de dados conhecida como Delta Graph para chegar no consenso sobre o estado da rede.

Desenvolvedores podem criar aplicativos - que se conectam aos Hubs - para que os usuários interajam com a rede. 

Também podem criar servidores para armazenar dados, gerar feeds, recomendações a usuários, notificações e tudo que uma rede social normal pode fazer.

Já temos Clientes para fotos, vídeos, pesquisa e vários outros.

Segundo dados da rede, há cerca de 8800 usuários, sendo destes 2800 ativos mensalmente e 1500 ativos semanalmente.

Na imagem acima, temos a quantidade de mensagens enviadas por dia utilizando o protocolo. Percebe-se que seu uso só ganhou tração do meio para o final de 2022.

Já está disponível na Apple Store.

Nesse repositório temos uma lista de Clientes, ferramentas e vários recursos.

Mastodon

Mastodon é um software.

Implementa uma forma de descentralização conhecida como federação. Em vez de um servidor central que todos usam, existem vários servidores, que qualquer um pode usar.

É similar a um serviço de e-mail. Você pode usar o Protonmail, e receber ou enviar e-mails para pessoas que utilizam o gmail ou hotmail.

Mastodon usa um protocolo aberto chamado ActivityPub para implementar a federação. Qualquer outro software que use o ActivityPub também se comunica com o Mastodon, da mesma maneira que os sites que usam o Mastodon comunicam entre si.

Na prática, o que o Mastodon permite é o seguinte: imagine que você possa seguir alguém no Instagram, usando sua conta do Twitter e comentar nas fotos dele, pela sua conta do Twitter. 

Com uma conta do Mastodon, você pode interagir com qualquer site que suporte o ActivityPub (mesmo que ele não esteja rodando sobre o Mastodon). Uma só conta serve para qualquer serviço.

Você pode criar sua conta em qualquer servidor do Mastodon, ou usar um aplicativo.

O Mastodon em si não implementa nenhum tipo de monetização, mas os sites e servidores que o utilizam podem implementar suas próprias políticas, tanto na questão de moderação de conteúdo quanto de monetização.

O problema principal desse tipo de implementação é que um servidor específico pode te banir dele, ou até banir outro servidor.

Mastodon chegou a ter 1 milhão de usuários ativos mensais após a polêmica do Twitter.

Também houve um pico nos downloads do aplicativo:

Mas esses números podem enganar. Estima-se que, assim como no Twitter, boa parte podem ser bots.

TON

TON é a sigla para The Open Network. 

Diferente dos protocolos e software que apresentamos acima, TON é uma blockchain de primeira camada.

Como muitos projetos, se descreve como uma rede rápida, segura e escalável. Sabemos pelo trilema das blockchains que, para isso, sacrifica a descentralização. 

Foi feita pelos mesmos fundadores do Telegram, mas em 2020 o Telegram parou de apoiar seu desenvolvimento, após serem processados pelo SEC. 

Daí em diante, uma comunidade de desenvolvedores de código aberto continuaram o projeto.

Por ser uma blockchain, o projeto possui uma moeda, Toncoin ($TON).

A rede usa o mecanismo de consenso Proof of Stake, mas houve um período inicial em que era possível minerar moedas - com o intuito de haver uma distribuição mais igualitária de tokens. 

Atualmente não existe mais a mineração de TON, e há uma inflação de cerca de 0.6% ao ano para pagar os validadores da rede.

Para se tornar um validador, é necessário colocar 350.000 TON em stake - US$ 840.000 em valores atuais. 

Isso mostra como a rede é centralizada, já que tem uma barreira de entrada muito grande para a maioria das pessoas - a rede possui atualmente 262 validadores. 

É possível delegar um mínimo de 50 TON para algum validador e receber recompensas de staking. No momento, existem cerca de 5.800 participantes que delegaram seus tokens, recebendo um rendimento de cerca de 7.5% APY.

Após a aquisição do Twitter e a polêmica subsequente, a moeda engatou em uma tendência de alta:


Existem diversos aplicativos construídos sobre a rede.

Carteiras, projetos de NFTs, corretoras descentralizadas e redes sociais.

DeSo

DeSo também é uma blockchain de primeira camada. Seu nome é uma sigla para “Decentralized Social”.

DeSo não é uma blockchain para propósitos gerais. Invés disso, foca em um pequeno conjunto de recursos sociais.

Boa parte do conteúdo criado é armazenado on-chain. Os perfis, posts, comentários, etc. 

Já imagens e vídeos são guardados em repositórios centralizados, mas públicos e facilmente replicáveis. Somente um link para eles é armazenado na blockchain em si.

Além das funcionalidades normais de uma rede social, a DeSo permite algumas coisas a mais, por ser uma blockchain. NFTs, tokens sociais e sistema de “gorjetas”. Isso permite aos criadores maneiras interessantes de interagir com seu público, e de monetizar seu conteúdo.

Possui uma moeda nativa, $DESO. DESO tem algumas utilidades dentro da plataforma, sendo a mais notável comprar as “Creator Coins” - que são tokens sociais.

Todo perfil tem sua própria moeda, que qualquer um pode comprar ou vender. Essas são as Creator Coins. 

Na imagem, lista de criadores mais populares e suas Creator Coins, em um dos aplicativos construídos sobre a DeSo.

Creator Coins são um modo de investir na influência/reputação de um indivíduo. 

Por exemplo, o preço da Creator Coin do Elon Musk poderia subir uma vez que ele conseguisse pousar um foguete tripulado em Marte. Ou se ele falar alguma bobagem em uma entrevista, o preço teoricamente deveria cair.

Ou você poderia encontrar um criador de conteúdo excelente, mas com poucos seguidores ainda, e apostar no futuro sucesso comprando sua Creator Coin.

Também possibilita dinâmicas para o criador de conteúdo - como limitar certos conteúdos exclusivos apenas para pessoas que possuem uma quantidade específica de suas moedas.

Imagine que uma celebridade possa fazer um “Pergunte-me Qualquer Coisa” e responder às perguntas daqueles que têm mais de suas moedas. Ou você poderia pagar usando essas moedas para a dita celebridade “retweetar” um post seu.

Contas com muitos seguidores ainda podem usar suas moedas para filtrar spam e bots - os comentários em uma postagem podem aparecer na ordem de quem tem mais de sua moeda, para quem tem menos. O mesmo pode se aplicar para a caixa de mensagens. As possibilidades vão tão longe quanto a imaginação permite.

Quando se trata da própria moeda da Decentralized Social, a $DESO, sua performance não tem sido muito boa:

Existem 1.7 milhões de carteiras na blockchain da DeSo, um volume transacionado de 1.4 bilhões de dólares, e vários projetos - incluindo alternativas ao twitter, instagram, spotify, linkedin, tiktok, aplicativo mobile e de fundraising.

Lens

Lens é um protocolo social construído na Polygon. Temos um artigo detalhado sobre ele aqui.

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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