👁️ Macro Vision 2020: Tirando o Máximo de Um Ano Atípico no Bitcoin
Descubra em que momento do ciclo nós estamos. Veja 11 gráficos para ficar ligado nas informações-chave da blockchain.
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- Uma comparação com os ciclos passados do Bitcoin revela relativa “normalidade” neste. Em termos de tempo, estamos na metade do caminho entre o mais longo e o 2º mais longo. Em termos de preço (distância do fundo), o bitcoin anda próximo ao patamar que sustentava em momentos equivalentes de 2012 e 2016.
- O BTC continua em trajetória de descolamento: sua correlação com outras moedas líderes de mercado caiu em 2019; seu nome dominou a discussão pública sobre criptomoedas; e seu mercado foi o que mais se beneficiou com o avanço da infraestrutura financeira legada, que amplexa o ativo.
- Entre altcoins, uma leva de moedas lançadas em 2014-15 se aproxima de completar um ciclo inteiro de existência. Em 2019, alguns dos destaques foram SNX, LINK, BNB e XTZ.
I.a. Panorama do Mercado
No último quadrimestre de 2019, o BTC viu aumentar sua correlação com o ouro, subiu em seguida ao assassinato do general iraniano, e andou junto a alguns dos principais índices globais de incerteza.
À caminho da adolescência, portou-se firme diante de testes que colocaram à prova sua natureza descorrelata. É demasiadamente cedo para dar-lhe a medalha de “porto seguro” (safe haven) - mas os sinais são promissores.
Tratou-se do primeiro ano em que o ativo fechou com retornos positivamente correlacionados aos do ouro; mas a correlação com o VIX (índice de volatilidade do S&P), por exemplo, ainda se revela errática.
Conforme caminhamos para 3º redução programada na velocidade de aumento da oferta do Bitcoin, proxies para a demanda (de varejo) parecem ter se estabilizado, após encontrar pico local no meio de 2019. É o caso de índices de busca online, de medidores do grau de diálogo em múltiplos fóruns e dos tráfegos a sites especializados de negociação e educação.
Os volumes de bitcoin em mercados à vista acompanharam a progressão nos preços, como de costume - a Binance consistentemente abocanhando a maioria do “volume real”. Os volumes nos mercados de derivativos cresceram ainda mais acelerados (comentaremos adiante).
I.b. Ano de Halving: O que é Ruído, o Que é Sinal
Em maio de 2020, a política de emissão do Bitcoin muda, em um evento programado (acontece a cada 4 anos) e de conhecimento público - o halving.
Nas vésperas, tende a aquecer o debate em torno da escassez da moeda. É época em que muitos flexionam a hipótese dos mercados eficientes (EMH) até que ela sustente aquilo no que se quer acreditar. Um extremo jura que qualquer alteração previamente conhecida no protocolo tem de estar precificada de antemão. O outro extremo argumenta que o mercado é menos eficiente porque não tem clareza sobre a informação que importa. A realidade fica provavelmente em algum lugar no meio de ambos.
O digladio não tem uma resolução binária. As informações em cima das quais o mercado precifica o bitcoin não têm efeito linear. Um novo adepto não “capta” o bitcoin por causa de um evento específico, mas sim sente-se confortável enquanto digere o paradigma, até um ponto no qual não há mais retorno.
O momento no qual se dá o “a-ha!” é variado, de pessoa para pessoa, ao longo de um espectro amplo - mesmo aquelas com acesso à mesma informação, durante o mesmo período. O processo requer uma fusão de conceitos filosóficos com perspectivas pessoais sobre política, economia e o mundo lá fora.
Essa complexidade está intimamente relacionada com a velocidade em que “a informação sobre o Bitcoin” se dispersa (fator-chave na hipótese dos mercados eficientes). É como um arquivo de 10GB viajando pela internet em 1997.
De fato concreto, sabemos que, até hoje, os preços reagiram positivamente nos meses subsequentes (3-12) ao halving - e a trajetória atual tem andado em linha com as prévias (gráfico ao lado).
Mas não dá pra se apegar ao dado: a configuração altista já estava em voga quando ambos halvings aconteceram; no mais, qualquer outro evento sincronizado com o cronograma de emissão do Bitcoin serve à função. Dizer que “BTC sempre cai em ano de Copa do Mundo” seria tão preciso quanto.
A volatilidade do ativo oscilou positivamente nos meses anteriores aos halvings passados - a repetição de uma configuração similar não nos surpreenderia.
⛓️ II. "Escutando" a Blockchain
- A soma dos lucros não-realizados (MVRV) entre portadores de bitcoin se mantém no verde, sugerindo continuidade da tendência primária de alta.
- A influência dos mineradores de bitcoin sobre os preços declinou vertiginosamente com o tempo. A reação deles ao halving de 2020 é menos relevante para investidores, dessa vez, do que jamais foi.
- Uma transferência bilionária de riqueza (1-2 milhões BTC), de portadores antigos para novos entrantes, está acontecendo enquanto você lê - e deve continuar por pelo menos mais alguns meses. O mesmo padrão on-chain já decorreu antes, e acomoda demanda recém-chegada.
- A preços atuais, ~2/3 dos portadores de BTC estão sentados sobre lucros não-realizados.
II.a. Termômetro do Ciclo
O MVRV é um indicador que aponta o nível de ROI (retorno sobre investimento) médio para as posições mantidas no mercado - a “linha d’água” da média dos portadores de bitcoin em qualquer dado momento.
O MVRV vem oscilando entre 1.2 e 1.6 (20% e 60% de lucros médios não-realizados) desde outubro passado até agora. Sugere a predominância de forças compradoras e continuidade da tendência de alta nesta fase do ciclo.
Em junho de 2019 chegou a 2.5 - em 2017, foi só depois de superar esse limiar (linha pontilhada no gráfico abaixo) que adentramos a última (4ª) e mais violenta fase de alta do ciclo. O mesmo patamar serviu de suporte em momentos de recuo durante o bull market passado (vide as zonas rosas, no gráfico abaixo). É uma linha para se ficar de olho, conforme progredimos no ciclo atual.
Destacamos também a resiliência da fortaleza de nós completos que protege a rede do Bitcoin. Ao longo de 2019, o número de nós completos públicos e "escutáveis" seguiu os preços, decaiu no segundo semestre, e fechou o ano perto de onde começou - acima dos 50.000. O mesmo não se pode dizer dessa métrica no caso de outras criptomoedas.
II.b. Perfil dos Participantes do Mercado
Olhando para o perfil de idade das moedas inertes on-chain, pode-se inferir que, às vésperas de ambos os halvings anteriores, houve uma transferência massiva (da ordem de 20% da oferta circulante) de moedas de portadores antigos (>12 meses, as faixas verdes e azuis no gráfico abaixo) para novos entrantes (<6 meses, as faixas avermelhadas embaixo).
Hipotetizamos que essa transferência não causa - tampouco atrasa - escaladas nos preços, mas meramente reflete o aquecimento do lado comprador no mercado - uma vez que é necessária para acomodar a demanda de recém-chegados (por moedas). Trata-se de, outra vez, de um sinal de confirmação.
Note como, durante 2019, esse movimento parece já ter começado: portadores das faixas amarelo e verde clara (6m-18m) distribuíram algo em torno de 2 milhões de moedas (mais de 10 bilhões de dólares) para novos participantes no mercado (a seta verde à direita do gráfico).
Em 2020, é importante acompanhar as faixas inferiores (avermelhadas) para confirmar se repetem o padrão (de crescimento) de outrora.
III. Notas Finais
Política & Tecnologia
A postura das Big Tech em relação a criptomoedas mudou nos anos recentes.
Google, hoje, é a mais omissa das titãs: discreta em público, continua banindo arbitrariamente anúncios relacionados a cripto. Twitter assumiu publicamente o compromisso em evoluir o código (aberto) do Bitcoin. O Facebook arquiteta uma moeda própria (ainda bane anúncios de futuros concorrentes em sua plataforma).
Os governos que regem seus países-sede não se dão o luxo de manter silêncio - o Bitcoin cresceu a ponto de não ser mais ignorável.
Primeiro, você percebe que não pode detê-lo - como vociferou um congressista americano, em plena audiência no plenário, neste ano passado. Depois, se dá conta de que ele não é a “pior” das opções.
Pense, por analogia, no embate entre aplicativos de transporte e forças estatais. O governo da Califórnia podia ter freado o Uber enquanto ainda era tempo. Mas, por mais que o Uber compita com seus serviços logísticos (e.g. ônibus), os Estados Unidos (dentre os quais, a Califórnia) competem também com a China - em outro plano.
Se o Uber morresse há anos atrás, talvez o seu jantar de hoje viesse pelo Didi Eats (o “Uber” chinês). O Uber sobreviveu, o governo da Califórnia encheu os cofres com os impostos que recolhe, e a China recebeu o recado: “quem é inimigo do meu inimigo, passa a ser meu amigo”.
A mesma dinâmica é válida para outras frentes onde política e tecnologia dependem uma da outra.
Compartilhamento de dados pessoais online, por exemplo: você acha que as “leis de proteção” aprovadas em onda nos anos recentes têm o intuito de proteger você das corporações… ou de proteger “elas” (e seus governos padrinhos) dos “inimigos do outro lado do mundo”?
Tecnologia & Dinheiro
Toda startup quer ser uma fintech.
Todo aplicativo de delivery (de comida, de documentos ou até mesmo de pessoas) já tem uma carteira nativa. Boa parte do seu orçamento alimentar e de transportes provavelmente já passa por Rappi, iFood, Uber ou Yellow.
Qualquer negócio que se monetiza taxando pagamentos (e.g. desde Spotify e Apple Store até sites que vendem ingressos) têm incentivos para seguir pelo mesmo caminho. “Vestir-se de banco”, zerar taxas, e oferecer crédito ou outros serviços financeiros valendo-se da crescente interoperabilidade entre contas de diferentes instituições.
Assim como já há carros que dirigem a si próprios, logo haverá dinheiro que faz igual.
Com “Google Maps financeiros”, basta saber onde se quer chegar, para que os robôs tracem a melhor rota - e se adaptem pelo caminho.
Nesse contexto, quem é dono da “conta bancária primária” do usuário (geralmente, aquela em que recebe o salário) é também dono do “roteador” que distribuirá todo seu fluxo de caixa, fará investimentos, pedirá adiantamentos, e por aí vai.
Modelo de negócio? Nada de vender anúncios, ou assinaturas. É emprestar (e tomar emprestado) dinheiro, mesmo. A aquisição bilionária da Plaid pela Visa dá indícios do apetite dos gigantes da indústria financeira por essa oportunidade.
Da próxima vez em que estiver usando um produto financeiro sem pagar nada, lembre-se de que, “quando é de graça, é porque o produto é você”.
Dinheiro & Política
O ímpeto fintech-iano entre negócios digitais é óbvio. O dinheiro passa por um ponto de inflexão na sua trajetória milenar.
Tornar-se banco é o oceano azul em que todo tecnologista ambiciona molhar o pé.
Não são só as interfaces do dinheiro que deixam de ser analógicas. Junto com o comércio, os bancos, os relacionamentos e tudo mais, ele próprio - o dinheiro - também migrou para a internet.
Não cabe a nós prever sua forma daqui 10 ou 20 anos. Cabe entender os incentivos dominantes na trajetória que se projeta adiante, e nos posicionar de acordo.
É impossível antever o sucesso da Libra, criptomoeda do Facebook; da moeda digital do banco central chinês; ou até mesmo do Bitcoin. No entanto, sabemos com clareza quem é amigo (e inimigo) de quem. E é com esse arranjo de incentivos que temos de jogar.
Entre um projeto comunista, uma moeda de gravata azul-e-vermelha, e o único dinheiro apolítico do mundo… nós já fizemos a nossa escolha.