🕹️ Jogador nº 1: Estratégias de Bancos Centrais na Corrida Cyber-Espacial
Os chefões acordaram. Só restam 9% dos BTC para se minerar. Como BCs podem se preparar para a próxima era do dinheiro?
10 anos depois, a presciência daquela thread no bitcointalk é incontestável.

Após muita especulação sobre as possessões cibernéticas não-tão-secretas (embora efêmeras) de nações-estado, finalmente há alguma evidência decente para os bitcoiners se debruçarem sobre.
Eles fantasiaram sobre os 200.000 BTC que a Bulgária confiscou de hackers e supostamente acumulou. Vasculharam as minúcias das múltiplas apreensões do DoJ americano. Debateram a ética dos empreendimentos de mineração da Coréia do Norte.
Não dá pra culpar as cyber-vespas pelo otimismo. Shill era o que não faltava.
O "lobby de cripto" vai muito além de lançar dardos em candidatos presidenciais — se você olhar em volta, há até propostas executivas oficiais para que BCs menores (como o das Bermudas) incorporem alguma poeira satoshiana em seus balanços.
Adivinha quem…
No entanto, foi apenas em outubro de 2020 que, pela primeira vez, um Banco Central sinalizou publicamente seu flerte cibercoiniano. Não há nenhum tipo de “confirmação on-chain” do Irã, até agora. Embora a mensagem seja alta e clara:
os Shāhs estão bullish.
Evitando julgamentos morais, eis 3 questões importantes que despontam:
- Como Bancos Centrais podem adquirir BTC ?;
- O quê eles farão com as moedas ?;
- Quem é o próximo da fila?
🤝 Sobre Motivação Política
Do Irã à Bielo-Rússia à Venezuela, há uma semelhança gritante entre os early adopters de cripto a nível estatal. Exclusão. Castigo institucional.
O mundo /kickou eles da sala. Não há mais bola para jogar.
Esquerda: regiões menos integradas economicamente, em cinza. Direita: não-membros da OMC, em vermelho.
A marginalização também foi o que originalmente atraiu os indivíduos para o Bitcoin, na década de 10. O propulsor da criptomoeda foi a necessidade, acima da ganância. Foram Charlie Shrems que tinham sido desbancarizados. Foram WikiLeaks’es cujas doações foram retidas pelo PayPal.
As lojas de meias de Alpaca foram icônicas, mas uma nota de rodapé na história da financeirização do BTC.
“Os pioneiros eram infratores e aventureiros oportunistas” — os no-coiners eternamente apontarão. E isso pode ser direcionalmente correto. Não é uma mancha no legado satoshiano.
Assim como os fardos pessoais dos Grandes Navegadores não são uma cicatriz na herança cultural da América Latina.
Cinco séculos atrás, havia essa nova terra longínqua e badalada para explorar — meio como hoje em dia -, e, se você não tinha nada a perder … por que não? Dissidentes, exilados; hackers, deep webbers. Os adjetivos são irrelevantes. No final, a história se lembra só do ouro que encontram.
Empreitadas conhecidas de governos com criptomoedas próprias; dinheiro eletrônico; e o Bitcoin. Fonte: Currency In The Digital Era (2018), BCB [adaptado]
🏹 Estratégias de Aquisição
Embora Satoshium (como escreveu NoelJones) seja tecnicamente uma commodity que qualquer um pode “extrair”, não é fácil encontrar analogias para a competição inter-estatal que tem potencial de originar.
Quando foi a última vez que uma sociedade encontrou em suas fronteiras riquezas novas, virgens; desse tipo?
A comparação com as Grandes Navegações é manca, uma vez que o BTC é distribuído globalmente. Ninguém tem um litoral mais próximo da terra prometida. O mesmo é válido para equivalências a quaisquer "corridas do ouro" (gold rushes). O Bitcoin está em toda parte. Novas minas podem se surgir em qualquer lugar. Não há privilégio geográfico sustentável em encontrá-lo.
A descoberta da pólvora, na China antiga? Diferente no sentido de que o bitcoin se fez disponível para o mundo simultaneamente; sem que atores específicos tenham tido muito tempo para desenvolver uma vantagem cronológica.
É correto, então, buscar paralelos para um potencial Bitcoin Rush na colonização do espaço sideral? Pode haver grau semelhante de "permissionless-ness" em ambos. Mas o custo de apossar um UTXO é ridículo comparado ao de comprar alguns metros cúbicos entre as estrelas. Além disso, o espaço é infinito.
A única assunção daqui para frente é de que as decisões em BCs de escalas diferentes são tomadas… de forma distinta. Conduzir a gloriosa nação das Bermudas a um long geracional em BTC deve ser menos custoso do que convencer o Tio Sam a encher suas bags.
A seguir, quebramos 4 abordagens para a aquisição de bitcoin a nível estatal:
🤴 1. O Jeito Colonialista
O Jeito Colonialista consiste em enviar mão de obra marginalizada (ou militar) para explorar a terra recém-descoberta, sob um pesado imposto sobre tudo o que é produzido. Geralmente acompanha a promessa etérea da "livre iniciativa".
Isso é o que os portugueses fizeram no Brasil. Os holandeses fizeram na África Ocidental.
É o que o Irã está fazendo com o cripto-solo.
Empreendedores individuais são “livres” para cavar Satoshium … contanto que vendam tudo direto para as carteiras dos Shāhs. Não está claro como o preço é determinado.
Se a história revelar possíveis desdobramentos, podemos esperar que o mercado doméstico iraniano de bens precificados em BTC cresça. Muito esforço nas minas de ouro coloniais foi feito para prevenir o contrabando e a evasão — recorria-se a casas de fundição oficiais, taxas sobre tudo que os mineiros pudessem trazer para dentro e para fora das minas (como gado não registrado) e assim por diante.
Desenvolvimentos análogos seriam a de-fungibilização das moedas mineradas no Irã (o que deve acabar acontecendo, de qualquer maneira) e um aumento na vigilância financeira doméstica — uma externalidade negativa da adoção do Bitcoin.
Quando se trata do Jeito Colonialista, também convém olhar para o outro lado da moeda.
Alguns historiadores mencionam que o déficit comercial de Portugal com os ingleses (Google “Tratado de Methuen”) contribuiu para redirecionar grande parte do ouro extraído no Brasil durante o século 18 para a Grã-Bretanha. É digno de nota que os maiores credores e fornecedores do Irã são a China e os Emirados Árabes, portanto, a maioria dos sats dos Shāhs pode ter fim na mão de príncipes árabes ou do PCC (mais sobre isso na próxima seção).

Foto por Sebastião Salgado.
😈 2. O Jeito Ditador
O Jeito Ditador consiste em confiscar moedas circulantes.
Isso pode acontecer dentro do país. Ou além de suas fronteiras físicas — caso em que a abordagem poderia ser melhor descrita como “Jeito Pirata”.
Normalizar a apropriação de bens privados é como um dedetizador para empreendedores — não se pode esperar que cripto-negócios floresçam na Venezuela, por exemplo.
Nenhum grupo sobrevive na pirataria para sempre, mas, em águas desconhecidas, um único tesouro pode fazer a jornada valer a pena. Sempre há uma chance de agarrar o tesouro de uma vida e nunca mais ter que se preocupar com dinheiro novamente (veja a lenda de Barbanegra; também a apreensão de 200.000 BTC da Bulgária).
Rumores sugerem que a Coréia do Norte já acumulou mais de U$1 bilhão em criptos hackeadas pelo cyber-oceano.
A manifestação mais comum do Jeito Ditador, no entanto, são apenas velhos autocratas perseguindo as pegadas energéticas e posses de mineiros locais.
Alguns dos ditadores mais aventureiros chegam até a criar suas próprias cyber-moedas, e tentam monetizá-las para potencial conversão em bitcoin, mais adiante.
💸 3. O Jeito Financista
O Jeito Financista é provavelmente o mais sutil. Compreende todos os incentivos criados com engenharia financeira que governos podem implementar para estimular os agentes do mercado livre a lhes darem bitcoin.
Alguns estados dos EUA já se movimentam para subsidiar hashrate dentro de suas fronteiras — taxar criptomoedas, mais à frente, poderia transformar isso em parte de uma política de aquisição mais ampla.
Vender bonds em troca de cyber-moedas é outra opção. O Banco de Construção da China, um dos 5 maiores do mundo, está tentando fazer isso (US $ 3 bilhões, caso você queira apenas o número).
O Financista está interessado em maximizar retornos com o mínimo risco— existe um caminho mais seguro pra fazer isso do que emitir dívida fiduciária em troca de ouro digital?
Nada mais que um puxão de tapete inteligente, discreto e multigeracional, se você me perguntar.
👷 4. O Jeito Empreendedor
O Jeito Empreendedor é a abordagem mais improvável, pois requer um reconhecimento humilde da superioridade do Bitcoin como Estado. Ou seja, atribuir uma chance não trivial à probabilidade de que a rede sobreviva por mais tempo que a maioria dos países da Terra.
Estados empreendedores sacrificarão boa vontade política de curto prazo pela chance de prosperar em um cenário pós-governança.
Eles podem exportar bens por bitcoin. China, Emirados Árabes Unidos e Índia têm um canal aberto para debater ideias assim com o Irã, cujas importações vêm principalmente deles.
Estados empreendedores podem transformar bancos nacionais em parceiros de custódia multi-sig para pessoas comuns, em troca de uma taxa. Eles podem disponibilizar hubs na LN. Podem descriminalizar o BTC completamente.
🏦 O Que Fazer Com as Moedas?
Adquirir bitcoin é o primeiro passo. Mas, uma vez que esteja holdando… o quê um Banco Central faz?
I believe this will be the ultimate fate of Bitcoin, to be the “high-powered money” that serves as a reserve currency for banks that issue their own digital cash. Most Bitcoin transactions will occur between banks, to settle net transfers. — Hal Finney, 2010
A visão de Hal ainda está um pouco distante, em 2020. Bancos centrais não estão preparados nem interessados em “oferecer uma autoridade central para resolver cheques eletrônicos”.
Uma comparação em escala proporcional: market cap do BTC VS. valor do balanços dos 4 maiores Bancos Centrais. Fontes: FED, BOJ, PBOC, ECB | Nov 2020
No entanto, há um monte de outras coisas a fazer com suas moedas:
- Financiar importações (plano declarado do Irã);
- Ameaçar o mercado — a rede é imune à concentração de riqueza, embora um ator irracional e desesperado possa causar estragos nos preços com uma grande fatia da oferta em mãos;
- Estabelecer uma versão soberana da Grayscale;
- Emitir bonds à LNRR (Lightning Network Reference Rate).
A lista não tem fim. Pode-se também acumular sats e arriscar ficar podre de rico no processo. “Lastrear uma stablecoin não resgatável” soa como uma ótima desculpa para fazê-lo.
🕹️ Jogador nº1: Qual é o Jogo?

Qual é o próximo capítulo? Qual dominó cai a seguir?
Aqui vai uma heurística simples para avaliar a propensão de um país a abraçar o BTC. Pense em dois vetores principais: grau de marginalização vs. independência política. O primeiro é o quanto ele precisa de Bitcoin. O segundo é o quanto ele tem a perder.
Países destacados em ambos os sentidos são os próximos da fila. Os passos do Irã serão seguidos primeiro por monarcas, vilões e outsiders— na ótica ocidental.
Isso fornecerá entretenimento de curto prazo, mas o que realmente importa é o BTC como uma frente cada vez mais importante na guerra cibernética sino-americana.
A posição política da China sobre a mineração tem sido tão bipolar quanto as monções, mas o império está long em bitcoin (por meio de indivíduos, mineradores subsidiados, exchanges amigáveis ao PCC).
Irã e Venezuela são dois atores importantes e imprevisíveis. Ambos parecem dispostos a arriscar qualquer legitimidade para recuperar autonomia econômica. Não é um exagero, neste ponto, conceber a possibilidade de que uma transação em cripto logo ocorra entre eles. Seria simbólico tentar isso com petróleo. O estabelecimento de uma cripto-OPEP é uma ideia selvagem mas não tão distante quanto há alguns anos atrás.
Outros vizinhos importantes da China e dos EUA são, respectivamente, as potências tecnológicas do Sudeste Asiático e do Caribe.
Politicamente independentes, economicamente liberais, ambos os hubs financeiros já ostentam intenso intercâmbio e migração de capital. Isso pode aumentar— e fluir pela webz — tanto quanto Pequim estiver disposta a replicar o que fez em Honk Kong, em outros lugares.
A janela de oportunidade para os EUA cortarem a erva daninha do dinheiro mágico da internet silenciosamente se fechou (de fato, eles o fizeram, algumas vezes antes do Bitcoin). A BitLicense logo se tornará uma relíquia histórica.
Hoje, um ex-funcionário da CoinBase é o chefe do Office of the Comptroller of the Currency. A discriminação de bancos contra cripto-empresas está sendo combatida. Incentivar hashrate a migrar para solo americano é um pitch digerível entre investidores e políticos. Tio Sam quer que VOCÊ o ajude a ganhar terreno… em mais uma luta contra o Oriente.
Mas qualquer passo excessivamente entusiástico na direção de Satoshi … e os "líderes do mundo livre" podem sinalizar um afrouxamento do compromisso com o dólar — aumentando a propensão do resto do mundo a dumpá-lo por bitcoin.
Essa propensão permanece no ar. Ela pode despencar se/quando os EUA agirem obtusamente para proteger o dólar dos seus adversários criptográficos. Ela pode disparar se/quando agirem sem rodeios para garantir qualquer influência percebida sobre o Bitcoin.
Quanto mais tempo passarmos no meio do caminho — neste limbo de tantas possibilidades adjacentes para o futuro do dinheiro eletrônico — mais tempo as Bermudas, o Suriname e as Bulgárias terão para encontrar suas cadeiras, antes que a música termine.