Paradigma

❌ Irreconciliável [pt.2: O Que Acontece, Agora?]

Economia, política e cultura: uma breve "avaliação situacional".

PARTE 2: O QUE ACONTECE, AGORA?

As 3 seções seguintes são especulações direcionais. Isolam um eixo polarizador para cada tema — economia; política; cultura — , e um norte rumo ao qual é provável que a opinião pública evolua. Não acompanham cronograma ou horizonte temporal.

💸 8. Economia: Construtivistas vs. Destrutivistas

Para cada 1 dólar de riqueza que um americano produzir, ~1.35 dólares são requeridos para quitar a dívida da nação.

O líder do 1º mundo está mais endividado do que é capaz de produzir. A mesma situação se repete em países industrializados ao redor do globo. Não acontecia desde o fim da segunda guerra.

Todo débito representa uma transferência de riqueza do futuro para o presente. Um empréstimo que você faz "transporta" uma parcela do seu patrimônio no futuro para o agora. Quando uma empresa toma dívida, o mesmo se aplica. Quando um país empresta dinheiro, idem.

O grande eixo polarizador na economia diz respeito à natureza dessa dívida.

Dívida Pública X PIB — quanto mais escuro, mais endividado o país. Fonte: IMF WEO / AtlanticCouncil

Um dos polos enxerga a dívida como um construto social —uma ficção que criamos e mantemos juntos.

O outro polo vê a dívida como um fardo inescusável — uma instituição histórica com lógica intrínseca e desdobramentos irrevogáveis.

A primeira narrativa prega uma via construtivista: que continuemos empilhando débito e polindo a história que contamos para aqueles de quem cuja riqueza estamos privando.

A segunda narrativa apresenta um prognóstico destrutivista: a única maneira de se livrar da dívida é quitando ela (ou reduzindo-a). Num dia você clama pelo jubileu; no outro, é o seu dinheiro que está sendo devido. É mais importante salvar o status quo financeiro do que preservar a lenda do crescimento ininterrupto. Teremos de encarar a realidade mais cedo ou mais tarde, mesmo que isto custe alguns anos de progresso.


A não ser que algum ditador acelere a profecia malthusiana e resolva exterminar metade da população, só existem dois caminhos para pagar a montanha de débito que estamos acumulando.

O primeiro caminho é retomando o crescimento da produtividade. Acelerando a produção de riqueza. Fazer o PIB superar a dívida. No fundo, são empreendedores que criam trabalho e riqueza. A principal ferramenta de um governo para estimulá-los é (reduzir) a taxa básica de juros. 

Acontece que viciamos nossos sistemas a dinheiro barato e, com taxas rondando zero ao redor do mundo, esta é uma carta fora do baralho.

O segundo caminho se volta para o outro lado da equação: enxugar a dívida em si. Não dá pra dar de ombros e renegociar valores com meio mundo, mas nações monetariamente soberanas (como os EUA, hoje) tem um truque poderoso nas mangas. 

Um débito de 100 maçãs se torna muito menos oneroso depois de uma colheita prolífica que decuplica o número de frutas no mercado — e derruba o valor unitário em 90%.

O mesmo racional vale para dívidas denominadas em moedas fiduciárias. Um débito de 1 trilhão de dólares é extremamente penoso num universo em que existem somente U$ 100 trilhões. Mas muito menos pesado num universo em que existem 100 trilhões — mais 200 trilhões recém-impressos, e enviados direto para o bolso do devedor.

Esta metáfora das maçãs é um bom ponto de partida para se começar a entender as ideias por trás do quantitative easing (QE). QE é um termo complexificado justamente para dificultar o seu entendimento. 

Se o nome fosse fácil, mais gente perceberia que imprimir dólares a torto e direito (ou reais, no nosso caso) dilui não só a dívida denominada na moeda, mas também o poder de compra de todo mundo que recebe ou poupa nela.

Mais de 20% de todos os dólares em existência… foram criados em 2020. Fonte: FRED

A história construtivista é a que estamos encenando. 

São os bailouts aos grandes bancos depois de 2008. O aumento desvairado da base monetária do Dólar, do Euro e do Ien. O Banco Central Europeu financiando a compra da Tiffany pela Louis Vuitton com dinheiro do contribuinte. Multando a Bayer em 10 bilhões de euros por fraude médica e em seguida comprando-lhe o débito, transferindo a pena para a população em nome do “estímulo”.

A narrativa destrutivista, por outro lado, emerge de uma desconfiança insuperável para com as autoridades econômicas. 

É o meme do grande reset financeiro (não exatamente o que Davos quis dizer, mas o que as pessoas quiseram entender). São criptomoedas emitidas por bancos centrais para enterrar suas irmãs análogas nos anais da história. São 300 mil bielorrussos na porta da residência do ditador, não só clamando por um recomeço para a última grande órfã da Iugoslávia como também batendo nos policiais que tentam prender seus compatriotas.


A velocidade do dinheiro está em mínimas históricas; a natureza dessa crise é deflacionária; as pessoas não estão gastando. O dinheiro que está sendo conjurado a partir do nada flui para poupanças e ativos financeiros. O FED vai continuar com a impressora ligada, canalizando capital para instituições nacionais — essencialmente diluindo o resto do mundo (e sua dívida).

O FED não vai deixar faltar dólares. Seu balanço cresceu a uma velocidade anualizada de U$30 T em Março-Abril. Nada o impede de retomar e até manter esse ritmo. Se ações despencarem nos EUA, o PIB global encolhe, e, com os níveis de débito correntes, aumenta o risco sistêmico em dívidas soberanas.

O problema com a narrativa de que "o FED não pode desviar este curso" é que ela está errada. O FED tem toda capacidade de manobrar essa tormenta. Pode materializar mais U$100 T no seu balanço até o fim do ano, se assim julgar conveniente. 

Pode comprar ações. Pode comprar dívida soberana estrangeira. Soa loucura? Pois qual é a diferença entre fazê-lo e prover crédito que pode ser rolado indefinidamente para que os próprios BCs gringos o executem? Qual é a diferença entre comprar AAPL e oferecer empréstimos a juro zero — perdoáveis, ainda por cima— para que a Apple recompre suas próprias ações no mercado?

Na prática, pouca. 

O que ninguém sabe se o FED pode ou não pode fazer é, enquanto tudo isso acontece, garantir o status do dólar como reserva de valor global.

A inflação já está dando as caras. Se aumentar juros para contê-la, o FED arrisca afogar as pequenas e médias empresas cujos lucros não pagam nem o custo da dívida (as chamadas "companhias zumbi").

Porcentagem de companhias-zumbi listadas publicamente nos EUA, ao final de 2019, por capitalização de mercado. Fonte: Bloomberg / Arbor

Se essas empresas saem do baralho, o desemprego catapulta, e a economia doméstica perde o brio. 

Em vez disso, é mais provável que testemunhemos um calote disfarçado. Neste cenário hipotético, o dólar acabará sacrificado. A estratégia é racional (num horizonte suficientemente longo). A questão que realmente importa é: o que vão tentar colocar no lugar dele?

🤝 9. Política: Tecnocratas vs. Antropocratas

As próximas semanas serão de memes inescrupolosos, slogans toscos e uma super-simplificação grosseira das mazelas do império norteamericano.

A forma de organização que “funciona” com ~50 mil habitantes adoecendo diariamente de um vírus nebuloso, em meio à instabilidade política e focos de violência civil, é o nacional socialismo ocidentalizado. É uma fetichização do Estado e da sua capacidade de prover ordem, catalisando-se toda energia reprimida para os jargões arcaicos de “Viva o exército!” e “Bolsa na máxima!”.

O discurso político predominante hoje foi forjado em chats entre gamers, onde Steve Bannon conjurou a estratégia de campanha que viria a eleger Donald Trump. 

"Estes caras, estes homens brancos destemidos, carregam um poder monstruoso" — Bannon admitiu em 2016. 

Poucas pessoas sabem, mas ele (ex-CEO de uma empresa que semi-escravizava chineses para minerar e revender ouro de Warcraft, antes de virar estrategista da Casa Branca) contou que teria entrado de cabeça na indústria das criptomoedas não fosse a convocação inesperada do então desacreditado candidato presidencial

Seu interesse em formas de organização autônomas na internet não era financeiro, mas político. 

"Muito do instinto revoltoso reprimido vai ser canalizado por essa ideia da criptomoeda", postulou, há anos atrás. "Quase todas as pessoas inteligentes que eu admiro, incluindo aquelas que temo, estão mergulhadas no assunto. Elas entendem que esta é a força motriz da 4º Revolução Industrial". E concluiu: "entendem que haverá guerra pelo controle de tudo isso".


Levou mais de uma década para que o poder geopolítico das redes sociais fosse finalmente reconhecido no Ocidente como uma ameaça à democracia. Publicidade online só virou questão de segurança nacional quando o inimigo escancarou ter um sistema de inteligência muito mais bem preparado para infiltrá-la do que as nossas próprias agências domésticas são capazes.

A primeira faísca foi há 10 anos, na Península Arábica. A mais recente foi o incidente do comício de Trump em Tulsa.

Zuckerberg, Bezos, Schmidt & cia. monopolizaram os canos pelos quais escoam todas as informações digitais privadas do planeta. Eles poderiam ter sido impedidos.

Mas quem tem o poder de impedi-los… também está em posição de tirar uma casquinha. A história mal contada da venda forçada da ByteDance (TikTok) para controladores americanos escancara uma verdade incontestável.

Nenhum Estado deveria, a priori, vasculhar informações privadas e vigiar a intimidade de seus indivíduos. Mas se o oponente já é craque nisso, e a tua jurisprudência não se estende até ele… qual opção resta?

É esse “dilema do prisioneiro” que alinha os interesses de oligarcas da internet com os das elites políticas.

A escolha que te cabe não é entre ser ou não ser geolocalizado; conceder ou resguardar seus históricos de mensagens; ser ou não ser espionado pela câmera do próprio celular. 

É entre entregar todas estas informações para os chineses… ou para os ianques.


Há algo profundamente paradoxal aqui. A ideia de uma crise denota necessidade de atenção excepcional e foco decisivo. No grego original, o termo krisis freqüentemente aludia a uma decisão entre dois futuros possíveis.

A onipresença da “crise” na nossa política alimenta um estado ininterrupto de emergência. Mas as promessas de agência e resolução que a acompanham raramente se cumprem. 

Foi o mantra das “decisões difíceis” que justificou reduções drásticas nos gastos públicos em grande parte do Ocidente após 2008. Foi a retórica da ameaça chinesa e do declínio terminal — de “fábricas enferrujadas espalhadas como lápides pela paisagem da nossa nação” — que levou Trump ao poder em 2016. Do outro lado, não é de hoje que progressistas se mobilizam em torno das narrativas da desigualdade e do cataclisma meteorológico.

Protestos triunfam ou se esgotam — mas o público nunca se dá por satisfeito. Insurgências não são dissolvidas por causa de concessões políticas.

O Occupy Wall Street culminou com novas regulamentações financeiras. O Black Lives Matter inspirou reformas policiais. O Tea Party forçou Obama a cortar gastos.

Mas o quanto estas mudanças endereçaram o temperamento dos protestantes? O quanto representaram rearranjos políticos inofensivos entre as mesmas elites?

Alguém supõe que os manifestantes do Occupy ficaram satisfeitos com as leis financeiras cunhadas pela alta estirpe do establishment? Ou que os militantes do BLM andam tranquilizados pelas reformas policiais em voga?

Os Coletes Amarelos franceses por acaso pararam de protestar depois que o imposto sobre combustível — a faísca que os levara à rua — foi eliminada? As multidões da Praça Tahrir não voltaram para a mesmíssima praça depois que derrubaram Hosni Mubarak, para exigir a queda de seu sucessor, devidamente eleito?


Sistemas de governança modernos — engenhocas devagares e engessadas — não foram feitos para acatar as aspirações heroicas do cyber-cidadão.

Essa variedade de clamores populares têm uma inquietude em comum. Ela diz respeito, em última instância, aos tipos de líderes que queremos ter.

A web derrubou muros, e exterminou os "em cima do muro". Não resta um meio-campo fértil ao debate político. Este foi suplantado pela erva daninha do debate memético. 

Você traz à tona políticas de inclusão e o ouvinte te chama de satanás. Aborda o tópico delicado do aborto e o outro lado invoca o papa, não conseguindo nem distinguir entre a questão moral e o problema de saúde pública. Quando existe um abismo entre as premissas dos debatedores, não tem conversa que as aproxime.

Nenhum líder humano é neutro o suficiente para conciliar todos os extremismos que a internet tira das sombras.

A entropia nos força a rebaixar o mínimo denominador moral comum (entre as preferências díspares que nutrimos) — aquele que conjuramos na figura de um engravatado eleito a cada 4 anos.

O mínimo denominador comum de um conjunto numérico altamente entrópico (digamos, somente primos) é 1. 

O mínimo denominador comum de um conjunto social altamente entrópico (uma civilização hiper-fragmentada) é uma figura rude de tão simplista, que fala a língua das ruas, e encarna nossos instintos mais primazes.

Presidente Dwayne Elizondo Mountain Dew Herbert Camacho — o líder da América no filme Idiocracy.

Não é coincidência que o cenário político se assemelha cada vez mais às piadas (ruins) do filme Idiocracy.

Não é à toa que inovações de governança cada vez menos se materializam pelas mãos de líderes de carne e osso, e cada vez mais por tecnologias autônomas de geração de consenso.

Não estamos exatamente prestes a ceder nosso sistema de justiça à Inteligência Artificial, muito menos às vésperas de eleger um presidente 100% virtual (embora talvez não fosse má ideia). Mas já entregamos aos algoritmos o manuseio de toda a nossa atenção, a faxina dos nossos feeds, a programação da nossa TV e quiçá o volante dos nossos veículos.

A cisão que balizará as narrativas políticas da próxima década não é entre esquerda e direita, ou conservadores e progressistas. 

É entre tecnocratas e antropocratas.

Antropocratas desejam (e esperam) que os humanos permaneçam firmemente à frente do governo, da economia e de todas instituições sociais.

Tecnocratas enxergam a agência como um jogo de soma zero. Minimizar o quanto dela reside em mãos humanas é, portanto, uma questão utilitária. No extremo, o ideal é eliminar a "política humana", maximizando o grau de agência atribuído aos sistemas e algoritmos autônomos.

A questão mais profunda, como estamos para descobrir, não é sobre o tipo de humano que queremos que nos governe. É sobre se, e em que medida, queremos ser governados por humanos em primeiro lugar.

Foto por Andy Kelly no Unsplash.

📺 10. Cultura: Igreja Azul vs. Fé Memética

A esquerda ganhou a 1º Guerra Cultural, entre os anos 1960–1990. O que está acontecendo agora não é a insurgência da “velha direita”, mas a emergência de uma nova forma de inteligência coletiva.

O crescimento exponencial de complexidade criou um problema. As formas de controle social que nos conduziram ao século XIX se mostraram inadequadas aos níveis inéditos de embaraço do século XX.

Chamemos de Igreja Azul a estrutura de poder que emergiu em reação às vocações da mídia de massa para o controle social.

Acabou por se associar ao establishment democrático, originando uma força cultural politicamente eficaz e dominante no mundo ocidental. No meio do século, passou a exercer papel cada vez mais ativo na formação e moldagem de instituições produtoras de cultura. Difundiu-se nas últimas cinco décadas e parece ter atingido um pico na primeira década do século XXI. De uns anos para cá, começou a desmoronar.

Ninguém é capaz de entender mesmo uma fração do que vem acontecendo na sociedade. Então quebramos o “problema” em pedacinhos, entregamos os menores ao topo da hierarquia credenciada, onde são processados por “especialistas” e mastigados até virarem “opinião politicamente correta”, que é transmitida para baixo, e se difunde pela população.

A domesticação da nossa espécie depende de um modelo simples: preste atenção às pessoas nas quais outras pessoas estão prestando atenção.

Se mapearmos a guerra cultural dos anos 50 aos anos 90, encontramos um conjunto de estratégias, técnicas e alianças que foram sendo aperfeiçoadas com o tempo por parte da Igreja Azul. Por exemplo, o poder crítico dos epítetos “racista” ou “sexista”, que tinham pouca ou nenhuma tração nos anos 30–40, e ao final dos anos 90 tornaram-se pivotais.

Como bactérias tornando-se cada vez mais imunes a um antibiótico, via exposição constante, os traços da "oposição" que foram suprimidos (e sobreviveram) durante décadas de esmagamento por parte da Igreja Azul começaram a se cristalizar e expandir. O que agora irrompe no zeitgeist é inédito, e quase completamente imune às técnicas retóricas da Igreja Azul.

Chamar um trumpista de “racista” não vai incitar mais do que um “meh…” e um olhar desdenhoso de demissão.

Além do mais, um trumpista médio não tem a aspiração de engajar-se no discurso com a Igreja Azul. Considera que seus membros agem de má fé por definição. Habitou-se a rejeitá-los por completo. É bactéria vs. antibiótico.

A Igreja Azul está em desespero porque percebeu que o inimigo não é mais o Conservadorismo Cristão batido que derrotaram décadas atrás, mas sim uma “fé” nova, baseada em identidade cultural apolítica e na rejeição à própria noção de coordenação top-down.

“I like chaos. It really is good” — Donald Trump

A coerência das novas formas de inteligência coletiva não é determinada por fatores exógenos, mas pela infraestrutura da informação, em si. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, enxames digitais não são unidos por sentimentos (como a raiva) ou por ideologias (como o supremacismo branco).

O que agrega membros disparatados da Fé Memética é o fato de que redes se estruturam para recompensar ideias que atingem massa crítica memética — independentemente da origem do meme. Recompensa-se com a amplificação da atenção (muitas vezes, inclusive por parte de “lideranças”), não importa a seita de onde tenha vindo a ideia.

Está aí uma das regras primazes. A rota para a amplificação pela liderança é visível. O jogo é claro para quem joga. 

Grafo social da batalha memética de 2016, nos EUA. Fonte: John Swain

A Fé Memética não toma decisões em salas de reunião editorial ou gabinetes, mas em fóruns públicos de mensagens incensuráveis; em redes sociais; em tempo real; no Periscope, no YouTube, no Reddit, no 4Chan.

Central a todas as dinâmicas da Fé Memética é a moeda da atenção. Trazer atenção à criação de alguém é uma maneira igualitária de se recompensar sua contribuição. Cada participante da rede tem a própria atenção para dar, e, ao fazê-lo, tem o poder de levar uma ideia a atenção de outrem. Prestar atenção não tem custo financeiro e não requer infraestrutura de produção. Todo mundo tem atenção pra dar.


A comunicação na internet não somente é muito mais simétrica que a transmissão televisiva ou a imprensa, como o modelo de negócio também evoluiu drasticamente. Você se tornou o produto.

No jargão publicitário, a propaganda contextual foi engolida pela comportamental. Em vez de um anunciante escolher um programa ou veículo no qual se exibir, agora opta pelo perfil individual que quer atingir.

Anúncios chegam até você porque um lance foi dado com base nos seus traços comportamentais, catalogados por gigantes Big Tech e "atacadistas de informações" online.

Este lance aconteceu em um leilão. Quase toda página que você abre no navegador engatilha um ou mais leilões. Sabe quando um quadradinho cinza carrega por alguns milésimos… antes de pipocar uma propaganda do SportingBet? No meio tempo transcorreu um destes leilões — envolvendo, potencialmente, milhares de "proponentes".

Se a homepage do Pornhub, sozinha, já dispara uns 10 anúncios destes, você pode imaginar quantos milhões de leilões o Google não roda por minuto.

O Pornhub captura o seu cookie, "aufere" a sua identidade em múltiplas bases às quais tem acesso, e então faz uma oferta (através do Google Ad Network) para que alguém te mostre 340x340 pixels dali a alguns milésimos. Centenas de revendedores repassam essa oferta a "mercados secundários", onde robôs programados por anunciantes executam estratégias de precificação pré-determinadas (daí o nome "anúncios programáticos").

Nessa fração de segundo, um anunciante se sai vencedor. E conquista um espaço efêmero diante dos teus olhos.

Mas muito menos discutido — e talvez mais importante — é o que acontece com os perdedores destes leilões.


Cada um dos perdedores ganha a chance de enriquecer o dossiê que guarda sobre você, com uma nova etiqueta que diz: "usuário do Pornhub". Comprar mídia no Pornhub é caro. Você é caro: o valor está em mostrar alguma coisa para usuários do Pornhub, não importa se for no Pornhub ou em qualquer outro lugar.

Sabe quando você termina de ler uma matéria no site da Folha e topa com um carrossel de postagens espalhafatosas — "Estas são as 22 celebridades com quem DiCaprio já dormiu em Ibiza"? Basta um clique para que cada uma das 22 páginas de destino sejam vendidas para anunciantes sedentos por leitores da Folha — a uma fração do que a própria Folha cobra.

Taboola: carrosséis de conteúdo tendo o click-bait como modelo de negócio.

É assim que acabamos criando corporações multi-bilionárias cujo função objetiva é malabarizar a atenção de 2 bilhões de pessoas para arbitrar ineficiências no mercado de mídia online e aspirar valor outrora retido por quem de fato criava conteúdo.

É assim que sites que incluem "behavioral advertising" (spoiler: todos) acabam dando um tiro no pé, e sufocando a indústria no longo prazo.

É assim que somos perseguidos por banners de "Aumente Seu Pênis" ou “Emagreça 16kg em 2 semanas” pintados com nossas cores favoritas.

É assim que a internet vira um labirinto de estímulos forjados à imagem dos teus instintos mais primatas — seduzindo-te com todas e quaisquer fantasias em que você sempre quis acreditar. Click-baits. Iscas.

É assim que o antagonismo reina como tática para comandar atenção. O engajamento é a unidade de medida chave. Não existe propaganda ruim; ruim é nenhuma propaganda. Qualquer clique que você dá online é um átomo de atenção que alguém revende. A sua atenção é a moeda deste jogo.

É assim que lulistas elegem Bolsonaros. É assim que o Itaú e a XP trocam farpas com naturalidade em pleno intervalo do Jornal Nacional. É assim que Anitta e Leo Dias batem boca diariamente pra dar de comer à fama.

É assim que a verdade objetiva padece junto com as instituições que historicamente a coalesceram.


O pecado original da internet foi ter nos condicionado à gratuidade. Por ela, vendemos os pixels diante dos nossos olhos para os mais ricos leiloeiros. E desregulamos os processos geradores de sentido com que nossos neurônios aprenderam a trabalhar pelos últimos séculos.

Estamos sendo “fisgados” em direção ao futuro. Nossas narrativas perderam o rumo.

Milhares de pessoas estão se aglomerando em praça pública pra protestar contra… eleições presenciais. O Facebook está pagando usuários que optarem por não usar a plataforma até novembro. Festas de revelação de sexo de bebê com artefatos pirotécnicos estão entre as principais responsáveis por incêndios catastróficos na Califórnia. Ministros da saúde se mobilizam para ensinar as pessoas a usar máscara durante o sexo.

Isso tudo soa ridículo a ponto de teus instintos desconfiarem? Não os ignore.

Operações de guerra psicológica (psyops, em inglês) não são conto da carochinha. Muito pelo contrário - inverossímeis mesmo são as fábulas em que te fizeram crer.

Menos de 10% de todo o plástico que já produzimos foi de fato reciclado. Em 1974, o presidente do lobby "Plastics Industry Association" confessou duvidar que a reciclagem fosse viável em escala. Mas isso não os impediu de criar aquele símbolo verde; pagar assessores de imprensa para criar o mantra do “Reduzir, Reutilizar, Reciclar”; e "comprar" a inclusão dele no seu currículo escolar.

Do mesmo jeito, dá pra te estimular a desejar praticamente qualquer coisa. "Diamantes são raros" — já ouviu essa pérola? Sabia que a narrativa foi criada por uma única empresa — a maior produtora de diamantes do planeta — , e que a pedra não é escassa como sugeriam seus livros de geografia?

Do modo parecido, dá pra te fazer votar em qualquer coisa. Em 2010 (!), o Facebook descobriu que uma única notificação no dia das eleições influenciava o turnover nas urnas. Dois anos depois, o estudo foi publicado na Nature. Há mais de uma década Zuckerberg sabe que tem nas mãos o poder mais cobiçado do planeta!

O que você faria se tivesse uma tecnologia que pode vender a qualquer indivíduo ou empresa uma porcentagem da opinião pública?

Zuck enxergou antes de todos nós a bazuca política que aquilo representava. Lembra quando deu voz a aspirações presidenciais, e começou uma turnê por todos os 50 estados americanos falando com o "povo nas ruas"?

A empreitada durou até que a elite se deu conta do monstro que tinha criado, e resolveu retratá-lo como tal.

A jornada do herói. Quer dizer, do vilão.

Zuck se recolheu à repugnância da sua figura pública. O mais importante era blindar a sua operação psico-industrial. Mesmo que não pudesse conquistar votos para si; ainda dava para conquistá-los para os outros. A categoria recém criada das "plataformas mercenárias do convencimento popular" tinha potencial para se tornar um dos maiores mercados do planeta.

Zuck foi pioneiro, mas viriam outros. A democracia liberal não resistiria ao choque. Estava "escrito nas paredes".

Há basicamente dois tipos de reação ao caos informacional que se instaurou:

A primeira postura é a da Igreja Azul. Assume que o custo da coesão social é a liberdade. 

A segunda postura é a da Fé Memética. Assume que o custo da liberdade é a coesão social.

Alguns aspiram “desmembrar” redes sociais, como se fosse possível restaurar o silêncio dos tempos pré-digitais. Não tem jeito. O colapso da decência humana online não será remendado com mais algoritmos, nem com o enforcement do anti-truste. 

O show só cessará quando parar de entrar gente na plateia. Será um desmonte penoso: um "usuário" por vez. O fardo é pessoal, individual, intransferível — não é técnico nem político. A culpa é nossa, não é deles.

Nenhum movimento, por mais apaixonado ou inequívoco, vai desviar o rumo da civilização. Nenhum político, por mais eloquente, vai outorgar almas vazias de significado. Nenhum governo, por mais benevolente, vai validar a sua identidade. 

Estes são anseios espirituais — melhores sanados pela fé do que por qualquer outra instituição. 

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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