Paradigma

❌ Irreconciliável [pt.1: Como Chegamos Até Aqui]

Uma tese de investimento para o longuíssimo prazo.

2016 foi tachado por muitos como “O Pior Ano da História”, mas não demorou muito até perder o título. Ainda longe do fim, 2020 já entregou queimadas históricas na Austrália, a pandemia do Coronavírus e protestos contra ou a favor qualquer tipo de medida governamental temporária. 

Além disso, a anexação de Hong Kong pela China. Uma escalada inédita na normalização do Estado de vigilância. Um suicídio high-profile que fez tremer os círculos de tráfico humano por baixo de Washington e Hollywood. Uma guerra de classes furiosa e re-escritora de Histórias, instigada pelo establishment.

Esta série em 3 partes é nossa tentativa de extrair sentido dessa bagunça, focando-se na preservação da sanidade mental e do capital de quem nos lê.


PARTE 1: Como Chegamos Até Aqui

🌎 1. Mapa-Múndi: Consolidação & Fragmentação

👣 2. Tecnologia e Guerra: Pegadas no Mapa

🏰 3. Países Como Sindicatos Bélicos

⚔ 4. Onde Poder e Dinheiro se Encontram

💉 5. Pessoas: o Sangue das Nações

👵 6. O Abismo Geracional

🌱 7. A Semente da Discórdia


PARTE 2: O Que Acontece Agora?

💸 8. Economia: Construtivistas vs. Destrutivistas

🤝 9. Política: Tecnocratas vs. Antropocratas

📺 10. Cultura: Igreja Azul vs. Fé Memética


PARTE 3: Um Futuro Preferível

🔮 11. A Próxima Versão do Estado

🔏 12. Criptografia (para Apressados)

👤 13. Cypherpunks, Occupy, Anonymous, Satoshi: o Coletivo Sem Face

🏴 14. Ilhas na Web, Enclaves Livres e Zonas Autônomas Temporárias

🗺 15. O que Significa “Ser um País”?

👑 16. O Bitcoin como um Estado Soberano

🕊️ 17. A Última Zona Neutra


Introdução

A tecnologia reverteu categoricamente o equilíbrio de poder entre o público e as elites que gerem as instituições hierárquicas da era industrial: governos, partidos políticos, a mídia e órgãos supranacionais.

Não é só sobre cloroquiners e quarenteners. Esquerda e direita. Ou construtores e destrutores.

Atravessamos uma rota de choque irreversível entre visões de mundo diametralmente distintas. Irreconciliáveis.

Pode parecer que nada faz sentido. Que estamos escorrendo rumo ao futuro, sem um norte discernível. Órfãos de uma narrativa coesa que torne o amanhã moralmente habitável.

Não se desespere. Isto é uma ilusão. Pra perceber, basta dar um passo atrás.

Esta é ume tese de investimento para o longuíssimo prazo.

"I dreamt that the ruling class was instigating a race war after deliberately releasing a virus made in a chinese lab, all out of spite because we elected a former wrestling star as president" — Zero Lovecraft


PARTE 1: COMO CHEGAMOS ATÉ AQUI?


🌎 1. Mapa-Múndi: Consolidação & Fragmentação

O início dos anos 2000 foi um período de “estase cartográfica”.

De 2000 a 2019, apenas 3 novos países entraram formalmente na lista oficial da ONU: Montenegro, Sudão do Sul e Timor Leste (Kosovo se esforçou muito, mas nunca foi “permitido” pela Rússia).

Um mapa interativo de territórios sob disputa (2019) coloca a China no topo da lista de "vizinhos indesejados".

O planeta está ansioso. Mas as fronteiras andam inquietamente inertes.

Por outro lado, o final do século anterior provocou uma ebulição de nações recém-nascidas. O exemplo mais proeminente foi o dos ex-membros da URSS — um breve núcleo de poder anomalamente centralizado. 

Mas fragmentação semelhante também ocorreu no “terceiro mundo”. Dos países que compunham a Ásia, por exemplo, mais de ¾ (32) tiveram sua independência declarada entre 1900 e 2000.

No livro “Países Invisíveis”, o autor Joshua Keating explorou a aparente “trégua no rebuliço das fronteiras” que havia sido o caso nos primeiras 2 décadas dos anos 2000. Essa não era, contudo, uma tendência de longo prazo.

Este gráfico do nº de estados soberanos na Europa pode te ajudar a dar um zoom out:

Pelo menos na Europa, a tendência de longo prazo, no começo do milênio 2000 (olhando para os ~150 anos anteriores) não era de consolidação, mas fragmentação.

O Velho Continente, entre 1000 e 2000, não era um lugar de fronteiras estáveis. Alguns séculos trouxeram consolidação (linha vermelha descendo); outros, fragmentação (linha vermelha subindo).

As pessoas foram ensinadas (e obedecidas) a servir seus exércitos e honrar suas bandeiras; acumular suas moedas fiduciárias; economizar para a aposentadoria em títulos “soberanos” de 100 anos.

No entanto, a guerra internacional havia sido exponencialmente improdutiva desde o advento do equipamento militar DIY. Moedas fiduciárias duram menos de 3 décadas na média. A expectativa de vida dos países fica abaixo dos 50 anos, poucos jamais superando os 100 anos.

“Ignorância é força”, escreveu um velho ficcionista. Durante muito tempo, de fato foi.

O mapa-múndi está prestes a ser despedaçado. E você não está prestando atenção.

👣 2. Tecnologia e Guerra: Pegadas no Mapa

Sempre houve apenas um meio de redesenhar fronteiras: guerra.

A guerra tem dois sabores. Nasce dentro de nações soberanas; ou entre elas.

A agitação internacional (que gera os maiores conflitos) leva a um efeito de consolidação no nº de estados (o imperialismo anexando territórios conquistados).

Número de células nacionais na Europa. Agregado em quartos de século. Dados ausentes para o intervalo 1850–1900.

A agitação intra-nacional (que só prospera na ausência de grandes cismas com outros poderes estatais, ou relativa “paz”) ​​leva à fragmentação (descolonização e independência).

A guerra é onipotente, mas, ao longo do tempo, a vantagem na guerra pode ser conquistada de diversas maneiras. A tecnologia é a principal.

Declínio da “mortalidade em batalha”: dos 1900s em diante, a guerra se tornou mais "etérea"? Fonte: OurWorldInData

A descoberta do pó deu à China uma vantagem de 400 anos na corrida armamentista moderna, antes que esse conhecimento viajasse para o Oriente Médio. O Renascimento e a Revolução Industrial mantiveram a Europa no topo da cadeia alimentar colonialista por meio milênio. O domínio das ciências nucleares e da criptografia foi decisivo na vitória da Segunda Guerra Mundial.

Pode-se ter a impressão de que a guerra diminuiu. Mas, o que aconteceu foi que, no século 20, a guerra começou a se tornar preemptiva.

🏰 3. Países Como Sindicatos Bélicos

“Países” são um fenômeno recente, com menos de um milênio completo. Eles operam como sindicatos bélicos. Grupos de pessoas unidas para defender direitos de propriedade sobre o que consideram sob sua soberania.

Quem não quer se envolver nas forças armadas ou no aparato legislativo paga uma taxa sobre basicamente tudo, de modo que terceiros são financiados para fazê-lo.

Terra sempre esteve no topo da lista de prioridades a serem defendidas. De fato, eras atrás, a ideia de propriedade se referia quase que exclusivamente à terra.

Com o tempo, o conceito se expandiu. Começou-se a designar e rastrear a posse de coisas abstratas, como direitos autorais e ideias.

O significado moral da propriedade — a história nos ensina — sempre foi um debate mais profundo, dificilmente sujeito a consenso.

Platão era contra a propriedade privada na maioria de suas manifestações, incluindo a guarda de crianças. Via a propriedade como uma força corrupta que alimenta inveja e violência.

Aristóteles, seu aluno, discordava. Rejeitou o argumento de que um sistema de propriedade comum eliminaria os vícios, já que as pessoas tendem a lutar mais pelo que compartilham do que pelas coisas que possuem sozinhas. Via a propriedade privada como crucial para o progresso, afinal, somos incentivados a trabalhar duro apenas por coisas que são realmente nossas.

Ao longo de ~ 2500 anos, a tese aristotélica foi corroborada. As nações que falharam em proteger a propriedade privada de seus cidadãos foram inevitavelmente eliminadas, anexadas ou desmanchadas. As nações que sucederam em fazê-lo persistiram por tempo suficiente para deixar uma marca no caminho da humanidade.

⚔ 4. Onde Poder e Dinheiro se Encontram

O sucesso na proteção da propriedade é intimamente correlacionado com o poderio militar. Não que os maiores exércitos causem as nações mais duradouras — na verdade, parece haver um equilíbrio na relação entre militarização e longevidade, quando se trata de estados-nação.

Os estados mais longevos não são os mais militarizados, nem os menos. Dados de 2019.

A maioria, porém, esforça-se para alcançar o topo do ranking, de olho num privilégio muito especial: impor um padrão monetário ao resto do mundo.

Quando um país emite sua própria moeda, ela é inconversível (e.g. por ouro), e só contrai dívida denominada nessa moeda — este país atingiu a soberania monetária. 

Não precisa gerir seu orçamento como uma família ou empresa o faria. 

Pode explorar a capacidade emissora arbitrariamente para implementar políticas que mirem o pleno emprego (Kelton, 2020), "manobrando" os efeitos domésticos do aumento da oferta circulante de dinheiro. Tem a prerrogativa de exportar inflação para nações estrangeiras que guardem reservas denominadas na sua moeda.

Desde sempre, países com os exércitos mais fortes consistentemente transformaram seu dinheiro nacional na moeda de reserva global.

A história começa com o Dracma de Prata, em Atenas. Em seguida foi Roma, com o Áureo (de ouro) e, mais tarde, o Denário (de prata). O dinar islâmico ocupou o trono durante o ápice do império bizantino. Depois veio o Fiorino, de Florença; seguido no século XV pelo Ducato, de Veneza. Mais tarde, o Florim Holandês, a Libra Esterlina e, finalmente, após a Segunda Guerra Mundial, o dólar dos EUA.

A história entrelaçada de propriedade privada, estados-nação e guerra é auto-evidente: a propriedade exigia que a violência fosse aplicada, o que fez dos estados — monopolistas da violência — os melhores no "setor".

Durante muito tempo, não fazia sentido distinguir entre o estado e a manutenção da propriedade privada, além do entretenimento filosófico¹.

💉 5. Pessoas: o Sangue das Nações

Em última instância, estados são feitos de pessoas. Quando as pessoas estão bem organizadas, o Estado é saudável. Quando estão em desordem, o Estado não é saudável. Praticamente como organismos e moléculas.

Em 2019, uma ilha semi-autônoma no oriente, que por acaso conglomera boa parte do dinheiro do planeta, irrompeu em convulsão social.

O povo de Hong Kong — conhecido por sua cultura civilizada — teve sua soberania subjugada por um país vizinho, e não foi protegido devidamente por aqueles a quem pagam impostos.

Primeiro, alguns milhares foram às ruas. Logo, um quarto da população estava se juntando aos protestos. Contra severa opressão militar, civis criaram sua própria linguagem de sinais; aprenderam a se comunicar por uma malha de serviços incensuráveis; e nublaram as vistas da polícia com canetas a laser baratas, distribuídas em massa.

Acredite: aprenderam até a neutralizar granadas de gás lacrimogênio com cones de trânsito.

Distúrbio social, em 2019–20 (Hong Kong).

Pela primeira vez, imagens de câmeras de rua sendo depredadas por multidões raivosas foram transmitidas em todo o mundo (não através de filmes de ficção científica, mas de notícias reais). Maquiagem anti-vigilância evolui de fetiche das passarelas para a moda de rua, em questão de meses. Roupas com padrões que confundem algoritmos de reconhecimento de imagem foram abraçadas por celebridades, minando gradualmente a eficiência do aparato de vigilância pública.

A guerra se digitalizou. 

E online, independentemente da geografia, qualquer pessoa tem o direito de ser um soldado. 

“Quando o comércio eletrônico florescer, levará inevitavelmente ao dinheiro cibernético. Essa nova forma de dinheiro redefinirá as probabilidades, reduzindo a capacidade dos estados-nação do mundo de determinar quem se torna um Indivíduo Soberano ”- Davidson & Rees-Mogg, O Indivíduo Soberano, 1997.

👵 6. O Abismo Geracional

Testemunhamos um aumento na quantia de jovens que rejeitam o capitalismo. 

Porcentagem do total de formandos em cada categoria/disciplina, nos EUA. Fonte: Ben Schmidt

Nos anos 90 e 2000, uma onda de entrantes inundou faculdades de humanas. A abundância de empregos para formandos de ciências sociais era inquestionada.

Mas a recessão de 2008 infligiu danos de longo prazo ao setor. O mercado não é o mesmo para advogados. Wall Street enxugou postos de trabalho. A academia passou por “uma década perdida” em termos de financiamento. Governos estão, obviamente, sendo forçados a contratar menos. O declínio do jornalismo é mais do que bem documentado. Professores nunca foram tão desvalorizados.

Diz o ditado que felicidade é a diferença entre o que se tem e o que se esperava. A ideia tocquevilleana de que revoluções sociais são forjadas pela inflação das expectativas.

Débito estudantil (azul), nos EUA, versus outros tipos populares de dívida. Fonte: Nigel Chiwaya

Pois as gerações Z e Millenial viram seus sonhos afundarem em débito — contraído para se preparar para empregos que "não existem mais".

Você vai se aposentar aos 70. E espera viver até os 80. Te soa justo trabalhar por meio século para viver uma decadazinha "em liberdade"?

Nós podemos zombar jovens insatisfeitos de classe média o quanto quisermos. Mas precisamos reconhecer que dispõem do intelecto, da raiva, das ferramentas e de tempo ocioso para infernizar a rotina da elite que assistiu à tormenta do Corona de dentro de seus iates.

Riqueza portada por cada geração (nos EUA). Fonte: B.I. / FED

Num dia você está tirando sarro das expectativas infladas dos seus sobrinhos; no outro, eles instilam o caos em comícios sem nem sair de casa e afundam o seu candidato presidencial favorito.

Esta não é uma cisão endereçável com políticas de sufrágio universal ou jubileu do débito estudantil. A desconstrução deve ser estrutural. Porque a causa raiz é demográfica.

O que você pensou que aconteceria — mais cedo ou mais tarde — se continuássemos elevando expectativas de vida e reduzindo a mortalidade infantil… enquanto deixamos a mesma bigorna previdenciária de sempre nas costas da população?

Ela se desequilibra, é claro. 

A pirâmide demográfica que você aprendeu na escola morfou. Virou um trapézio. Os bons professores ensinaram que isto estava para acontecer.

Pirâmide demográfica global, de 1950 a 2018 - com projeções até 2100. Fonte: OurWorldInData

O que poucos percebem é uma segunda mudança: a dependência da camada produtiva da população em relação à não produtiva diminuiu. 

As última décadas empurraram uma manada de jovens pra dentro da faixa etária economicamente ativa — além de terem estendido, nas duas direções, a largura da própria faixa.

Age dependency: a proporção de velhos e crianças vs. a população economicamente ativa; país por país. Repare como diminuiu (cor mais clara, no gráfico) em boa parte do planeta nos últimos 50 anos. Fonte: OurWorldInData

A população economicamente ativa nunca foi tão independente dos idosos e menores. Era difícil provar isso fora de um PowerPoint até pouco tempo, mas a vilanização dos mais velhos durante a polêmica quarentena — todo o meme do "isolamento vertical" — acusam uma postura emergente de apatia inter-geracional.

O molde cultural que predica nossas rotinas das 9 às 5 já saiu de linha. A narrativa do welfare state se despedaça em frangalhos para quem nota que a pirâmide previdenciária inverteu — e que o “topo” já está lotado.

🌱 7. A Semente da Discórdia

O argumento central desta tese é o de que o estado-nação moderno é um mecanismo de coordenação social defasado - e convulsionando de dentro pra fora.

A origem da discórdia que o cinde remete à sua fundação como instituição. 

Liberdade e igualdade são forças antagônicas. Ainda não descobrimos um sistema de regras capaz de maximizar ambas. Progredir em uma das duas frentes custa retrocesso na outra. A estabilidade está sempre a um sacrifício a mais de distância.

É útil para a classe política obscurecer esse fato: assim te mantém entretido em ponderar sobre arranjos de poder levianos encarnados por candidatos que se posicionam em um ou outro extremo do espectro.

Acostumamo-nos à dança entre estes dois polos; condicionamo-nos a condescender com a aliança sambante entre a burguesia e a classe política; desde que foi oficialmente introduzida no imaginário popular a noção de que uma sociedade que aglutina justiceiros e libertários pode prosperar sustentavelmente (fraternamente).

É pretensioso comprimir 300 anos de ideologia em uma página. Mas aqui vai uma tentativa. A semente da discórdia — a ideia que hoje embate as cabeças mais poderosas do planeta — é encapsulada no lema do evento que moldou o Estado moderno: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Não dá pra ter os três ao mesmo tempo. A ilusão contrária é o que convenceu civilizações ocidentais, geração após geração, a trocarem o amor pela "terra dos livres" por uma paixão pela luta de classes entre o proletariado e a nobreza.


📜 Esta tese tem 3 partes. A 2ª sai nos próximos dias e ficará linkada aqui --> 🔗

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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