📊 Financeirização de NFTs
Uma análise dos dApps que estão trazendo funcionalidades de DeFi para o universo de NFTs
A Fronteira entre DeFi e NFTs
NFTs foram um dos setores mais quentes no último ano. Tivemos JPEGs de macacos que valorizaram 1000x, uma explosão de coleções de imagens de perfil, e centenas de comunidades formadas no entorno dos mais diversos projetos.
NFTs são, por natureza, ilíquidos. Ao contrário de um token fungível, que você pode vender quase instantaneamente em uma corretora centralizada ou descentralizada, para vender um NFT é necessário colocá-lo em um mercado (OpenSea, LooksRare, Rarible…) e esperar que alguém faça uma oferta, ou compre pelo valor que você anunciou.
Isso gera um custo de oportunidade para o holder de um NFT. Pode ser que o mercado apresente uma oportunidade lucrativa de trade, ou que vá ocorrer o mint de uma coleção promissora de NFTs, e como o capital do holder está em um ativo ilíquido, ele não consegue aproveitar essas ocasiões.
Existem projetos que estão trabalhando na fronteira entre NFTs e DeFi, trazendo soluções para a questão da liquidez.
Empréstimo Contra NFTs
Essas plataformas permitem que você tome um empréstimo de criptomoedas, em troca de usar seu NFT como colateral. Ou seja, você pode tomar dinheiro emprestado, e o NFT serve como a garantia de que esse empréstimo será pago. Existem diferentes maneiras de se fazer isso, como abordaremos abaixo.
Além de possibilitar obter capital, outra vantagem interessante é a tributária. Quando se pega um empréstimo, em muitos países, não incidem impostos sobre ganho de capital, como acontece ao se vender um NFT com lucro. É uma boa estratégia para quem pretende holdar um NFT para o longo prazo, mas quer aproveitar outras oportunidades no médio/curto prazo.
É claro que também há riscos envolvidos. Pode haver erros no contrato inteligente, imprecisão nos preços fornecidos por oráculos, e também o risco de liquidação, onde o colateral (nesse caso, o NFT) é vendido para saldar o débito - ou dado para quem financiou o empréstimo.
Modelo Peer-to-Peer (P2P)
Modalidade onde usuários negociam diretamente entre si. O exemplo mais popular é a plataforma NFTfi, e outra opção é a Arcade. Aqui iremos focar na NFTfi, mas o processo é parecido para ambas.
Quem empresta capital (credor) ganha juros ao prover DAI (uma stablecoin) ou WETH, enquanto quem toma emprestado (tomador) recebe esses ativos em troca de colateralizar seu NFT. Caso a dívida não seja paga, o credor fica com o NFT.
Os termos do contrato - valor, duração, juros e moeda - são acordados entre as duas partes.
Segundo dados da Dune, o volume mensal negociado na plataforma segue subindo mês após mês, e chegou a mais de 48 milhões de dólares em abril/22. O número de usuários também está em ascensão, e a média de juros do último mês (maio/22) foi de 60% a.a - ou seja, em média, quem empresta tem um rendimento de 60% ao ano - embora os contratos normalmente tenham uma duração bem menor.



Vemos que a taxa média de juros já chegou a mais de 200% em junho de 2021. Uma observação importante, é que alguns usuários ofertam seu NFT pedindo um empréstimo maior que o floor price, e oferecendo pagar um juros altíssimo. Algum desatento pode se interessar devido a essa alta taxa de juros, e concede o empréstimo. Então, o dono original do NFT não quita a dívida (default), perde o NFT mas fica com o valor do empréstimo que foi maior que o floor price, lucrando na operação. Isso explica em parte o valor alto de juros mensais.
Vantagens do modelo P2P:
- Melhor para negociar NFTs com traços raros, já que as partes podem ajustar os termos do contrato para considerar a raridade do NFT.
- A liquidação ocorre somente se o devedor não pagar o empréstimo (não fica sujeito a ser liquidado devido a queda do floor price).
Desvantagens do modelo P2P:
- O empréstimo não é instantâneo, já que fica sujeito a encontrar uma outra parte interessada, processo que pode demorar.
Modelo NFDP
NFDP é a sigla para Non-Fungible Debt Positions. É algo parecido com o que a MakerDao faz, mas com NFTs - se não conhece esse dApp, leia nosso artigo sobre os principais blocos de lego DeFi aqui.
JPEG’d é a plataforma pioneira nesse tipo de empréstimo. Na prática, você deposita seu NFT, e em troca pode pegar emprestado PUSd, que é a stablecoin da JPEG’d. Essa stablecoin pode ser trocada por outra moeda, ou usada para prover liquidez no protocolo.
A plataforma usa os oráculos da chainlink para saber o preço do NFT, e caso o valor do empréstimo chegue a 40% ou mais do valor do NFT, a posição é liquidada. No início, esse valor era 33% invés de 40%, logo entende-se que pode sofrer mudanças futuras.
Há também uma opção de utilizar um seguro, que permite ao usuário liquidado comprar de volta seu NFT, após pagar o débito e uma taxa de seguro de 25%.

Na imagem acima, vemos alguns Cryptopunks que estão na plataforma. Em cada NFT, temos da esquerda para direita: a coleção, o valor, o limite máximo de crédito, o débito a ser pago, o LTV (Loan to Value ratio) que é a proporção entre o débito e o valor do NFT e a “saúde” de cada posição (arriscado, okay ou seguro). Se o LTV se aproximar de 40%, o NFT é liquidado.
Vantagens do modelo NFDP:
- Empréstimos instantâneos.
Desvantagens do modelo NFDP:
- Queda no floor price da coleção pode levar a posição a ser liquidada.
- Opções limitadas de colateral. No momento só aceita CryptoPunks e EtherRocks.
- Dependência do oráculo da Chainlink para NFTs, que ainda não foi testado em situações extremas.
Modelo Peer-to-Pool
Nesse tipo de protocolo, usuários servem como provedores de liquidez (LP), depositando ETH em uma pool - e recebem juros por isso. Detentores de NFTs podem então pegar emprestado esses fundos, em troca de colateralizar seus NFTs.
O melhor exemplo de protocolo que opera nesse modelo é a BendDAO. A plataforma possui um token de governança, BEND, que parte do fornecimento foi dado via airdrop para usuários da OpenSea, detentores de NFTs BlueChip, usuários da NFTfi e alguns membros do Discord da plataforma.
O protocolo usa os dados da OpenSea e da LooksRare para obter o valor dos NFTs. Um “fator de saúde” é definido usando a relação entre o valor do empréstimo e do NFT. Se o empréstimo chega a 90% do valor do NFT, o fator de saúde fica abaixo de 1 e o NFT fica sujeito a liquidação.
Qualquer um pode liquidar o NFT, através de um leilão. O usuário que fizer a liquidação paga o débito do empréstimo e fica com o NFT para si. O dono original do NFT tem uma proteção de 48 horas em que ele pode pagar seu débito (e mais uma taxa de 1%) e reaver seu NFT.

Na imagem acima, à esquerda, vemos as taxas pagas aos provedores de liquidez que depositam seu ETH. O protocolo paga parte em ETH e parte em seu token, BEND.
Do lado direito vemos as taxas pagas por quem pega o empréstimo (e deposita seu NFT como colateral). Nesse caso, a pessoa paga 16.78% em ETH, mas recebe 46.76% no token da plataforma. Esse tipo de incentivo é normal no início, para atrair usuários, e tem como consequência uma alta inflação no token nativo do protocolo.
Vantagens do modelo Peer-to-Pool:
- Empréstimos instantâneos.
- Na plataforma BendDAO há possibilidade de usar várias coleções BlueChip como colateral.
- Usuários podem emprestar seu ETH e receber rendimentos.
Desvantagens do modelo Peer-to-Pool:
- Queda no floor price da coleção pode levar a posição a ser liquidada.
- Maior complexidade nos contratos inteligentes.
- Dependência do oracle com dados da OpenSea e LooksRare, que ainda não foi testado em condições extremas.
Comparação entre as Plataformas

Outras Abordagens
Fracionalização
Também existe a fracionalização de NFTs, que permite ao usuário comprar uma porcentagem do NFT. Isso funciona dividindo-o em vários tokens fungíveis, cada um representando uma fração do NFT. É um avanço importante pois possibilita que pessoas consigam exposição a uma coleção, mesmo que não possuam capital o bastante para comprar o NFT. Diversas DAOs foram criadas, em que membros se juntam para obter certo NFT ou coleção.
Um exemplo interessante é a PleasrDAO, que comprou o NFT do meme original do Doge, por cerca de 4 milhões de dólares, e o dividiu em 17 bilhões de tokens fungíveis ($DOG), que qualquer um pode negociar. Uma plataforma que também trabalha nesse setor é a Fractional, que possibilita que investidores comprem, vendam e mintem frações de NFT.
Índices
NFTX é uma plataforma que permite que usuários depositem seus NFTs em “cofres” (vaults) e então mintem um token (vToken) que representa o direito a um ativo aleatório do cofre. Esse token pode ser usado para resgatar um NFT específico, ou então como colateral em outros protocolos DeFi. Qualquer um pode criar um cofre, ou depositar em um cofre já existente.
AMMs
Sudoswap funciona como um criador de mercado automatizado (AMM), feito especialmente para NFTs. Permite que provedores de liquidez ajustem a variação de preço de suas pools de modo parecido com a Uniswap V3, conseguindo diminuir a derrapagem (slippage) mesmo quando o número de NFTs em uma pool diminui. Para os interessados, há mais informações aqui.
Considerações Finais
As interações entre NFTs e DeFi devem se tornar cada vez mais comuns.
Existe uma quantia enorme de capital ilíquido em NFTs, que graças a esses novos protocolos pode passar a ser utilizado, seja para obter alavancagem, ou para obter yield em DeFi.
É também uma área relativamente nova, e será interessante ver como será a dinâmica entre os protocolos, e se algum vai se destacar como grande líder na categoria.