🧱 #DeFi pt.2: Os Principais Blocos de Lego
De tokens re-hipotecáveis a transações atômicas: os 4 primitivos que constituem >90% dos apps financeiros descentralizados.
No primeiro artigo desta série, revisamos conceitos fundamentais de finanças; explicamos o que é #DeFi; e exploramos os pontos de vista mais comuns na indústria sobre a categoria.
Neste, descrevemos os 4 primitivos a partir dos quais quase todas as aplicações do setor são construídas. E listamos 7 projetos promissores que melhor fazem uso de composições entre eles.
🗳️ 1. Emissão Colateralizada
O diferencial que fez a Ethereum deslanchar é o suporte a tokens customizados. Qualquer pessoa pode criar um token, de qualquer lugar. Pois o quê garante valor a um token específico, no meio do mar de alternativas?
Um caminho popular para se conferir valor a um criptoativo é literalmente lastreá-lo. Hoje já existe uma infinidade de serviços (contratos na Ethereum) que te permitem colateralizar um ativo (e.g. ETH) e emitir um token que pode ser usado para resgatá-lo, além de ser livremente negociável — atrelando o valor dele ao do lastro subjacente.
Na MakerDAO, pode-se colateralizar uma quantia em ETH (à esquerda) e tomar um empréstimo em DAI (direita).
A plataforma que deu origem à #DeFi, MakerDAO, popularizou o mecanismo de emissão colateralizada. Interagindo com os contratos dela, pode-se:
- Colateralizar (prender em um contrato na blockchain) certa quantia monetária (ETH ou outras criptomoedas);
- Tomar uma quantidade de crédito proporcional ao colateral (denominada numa moeda estável, atrelada ao dólar — o $DAI);
- Pagar o empréstimo, a uma taxa de juros (fixa ou flutuante) em uma data futura (ou ter o colateral liquidado se ele se desvalorizar a ponto de descumprir com os requerimentos mínimos de margem).
Em outras palavras, a MakerDAO ingere ativos voláteis e cospe um ativo estável ($DAI). Através dela, qualquer usuário pode tomar empréstimos contra uma quantia de $ETH que deposita no sistema.
Mecanismo parecido de emissão colateralizada é usado em vários outros casos de stablecoins (moedas desenhadas para manter a paridade com o dólar): Celo, Terra, etc.
📈 2. Automated Market Makers (AMMs)
AMMs são algoritmos responsáveis por bootstrapar liquidez em mercados eletrônicos.
Seu propósito é permitir a negociação de um ativo independentemente da existência de uma base prévia de potenciais vendedores. Comportam-se basicamente como exchanges desprovidas de livros de ordem.
O conceito já foi bastante estudado na literatura acadêmica, e remonta a mecanismos de agregação de informação comumente usados em mercados preditivos.
Na Ethereum, um AMM pode ser escrito em um contrato de algumas centenas de linhas de Solidity.
Augur e Gnosis implementaram um design clássico (LMSR) em seus mercados de apostas (previsões).
Em 2018, um garoto prodígio implementou sozinho um design novo para criar mercados eficientes entre quaisquer pares de tokens: o Uniswap. Desde 2015, a Ethereum permitiu a qualquer um criar um token da garagem de casa e torná-lo instantaneamente compatível com uma gama de produtos e serviços. Mas a grande maioria desses tokens morreu sem jamais ser significativamente negociada.
A partir do nascimento do Uniswap, passou a ser muito mais fácil para que uma micro-moeda obtenha liquidez suficiente para ser comprada ou vendida em qualquer canto do mundo. Basta um pouco de capital para começar.
Coloca-se o capital (digamos, 10 ETH) em "um lado" do AMM, e o ativo (digamos, 10 PAR) no outro lado. O preço é determinado algoritmicamente. Por exemplo, nesse caso, inicialmente, 1 PAR = 1 ETH.
Se alguém depositar 1 ETH no contrato, tem direito a retirar 1 PAR, restando um saldo on-chain de 11 ETH e 9 PAR. Agora o PAR ficou mais caro. Em vez de 10/10 = 1 ETH, custa 11/9 = 1.22 ETH. Se alguém comprar mais um PAR (depositando 1.22 ETH em cima dos 11 ETH já no contrato), o preço se reajustará para 12.22/8 = 1.5275 ETH.
Essa diferença entre preços conforme o tamanho do "lote" é chamada de slippage. Quanto mais liquidez previamente injetada no AMM, menos slippage.
Curva descrevendo a uma compra de tokens A, usando-se tokens B, num AMM — e mostrando o saldo inicial e final do contrato.
O fenômeno tem consequências de segunda ordem interessantes. Desde 2019, freelancers têm tokenizado suas horas-de-trabalho na Ethereum, e as colocando para serem negociadas no Uniswap. Investidores variam desde potenciais clientes até filantropos. Um garoto levantou R$100 mil no que se pode enxergar como um “adiantamento de recebíveis”, desse jeito.
Já vigora uma segunda geração de AMMs inspirados no Uniswap, otimizados para casos de uso específicos.
A Curve desenhou seus algoritmos para minimizar a diferença de preços entre ativos extremamente pouco voláteis — é a solução perfeita para trocar entre stables com uma slippage baixa, sem contraparte.
A Balancer generaliza o design do Uniswap para permitir pools de até N tokens (em vez de no máximo 2). Com ela, dá pra criar tokens que representam índices de mercado, cujo rebalanceamento é feito competitivamente por arbitradores, e acrui taxas que geram um yield para detentores do índice (que, para “entrar nele”, tiveram de lhe prover liquidez).
É como um fundo passivo em que você não paga taxas de administração, mas sim, as recebe!

O “moinho” que gera efeitos de rede em plataformas de #DeFi. Quando mais liquidez, menos slippage. Quanto menos slippage, mais atraente para traders, mais volume, e mais taxas transacionais capturadas. Assim aumenta o yield dos provedores de liquidez. E o ciclo se retroalimenta. Fonte: IDEOVC
2.1 Money Markets
Money Markets são uma categoria de AMMs que merece ser tratada à parte.
Também operam como pools de capital. Mas em vez de servirem para que qualquer um negocie um token contra o outro; voltam-se para outro propósito: crédito.
Um exemplo é a Compound. Dá pra emprestar uma infinidade de tokens para os contratos deles, ou pegar emprestado, com juros dinâmicos e algorítmicos.
Qualquer um pode emprestar capital ou pegar emprestado, de uma variedade de pools, em distintos ativos, incorrendo a qualquer uma das taxas de juros computadas matematicamente. Além de criar novas pools. Isso geralmente cria preços mais eficientes do que os disponíveis em mercados peer-to-peer (AMMs são "peer-to-contract").
🎁 3. Re-empacotamento
Vimos no 1º texto desta série que a habilidade de "re-empacotar" direitos (reivindicações contratuais) é um dos pilares das Finanças com F maiúsculo.
Um sistema que permita (1) adentrar um contrato de empréstimo; e (2) negociar esse contrato com outras pessoas; (3) condicionando suas implicações a eventos futuros; serve para que se construa, teoricamente, qualquer contrato financeiro.
A possibilidade de se re-empacotar tokens supre o ponto (2). Tokens ERC-20 já são fungíveis — isto é, indistinguíveis tecnicamente — e interoperáveis (uma exchange que suporta um token ERC20 suporta todos). Não há impeditivo para que um empréstimo a um money market seja representado na forma de um token, e para que este token possa ser usado como colateral em outro mercado.
Tokens são re-hipotecáveis.
wETH: um token re-empacotado. Fonte: Radar
Dan Elitzer previu esse fenômeno no começo de 2019, mas a primeira implementação demorou quase um ano para aparecer. Hoje, quase todo token que começa com uma letra minúscula é um "título re-hipotecado": cUSD, aUSD, iETH…
A eficiência provida por liquidações praticamente instantâneas na blockchain permite que ativos de alta complexidade sejam precificados, empacotados e reutilizados de maneiras no mínimo inconvencionais nas finanças tradicionais. Nos exemplos aqui citados, há incentivos poderosos que encorajam agentes racionais a maximizar a disponibilidade de seus ativos através de tantos protocolos quanto for possível.
Você pode, por exemplo, (1) colateralizar 1 ETH no (2) Compound; pegar emprestada certa quantia de cUSD, (3) que representa o direito a esse colateral; e colateralizar esse cUSD para pegar crédito em outro mercado! Viu só como usamos os primitivos aqui descritos (1 — Emissão Colateralizada; 2 — AMMs; 3 — Re-empacotamento) para construir uma operação arbitrária?
Não é à toa que #DeFi tem o apelido de "Money Lego".
Nas “finanças tradicionais”, o acesso ao crédito não é homogêneo. Detentores de múltiplos ativos tem vias diversas para levantar capital — dá pra hipotecar a casa, pegar um empréstimo contra a empresa, a casa na praia… Mas quem não dispõe de todos esses ativos — e às vezes, nem mesmo de conta bancária — , financia-se como? A re-hipotecagem reduz a barreira de entrada no mercado de crédito*.
Mas o outro lado da moeda também merece ressalva. Em muitas jurisdições, comprometer o mesmo colateral a mais de um credor constitui uma ofensa criminal. Pode dar origem a um castelo de cartas que embute fragilidade no sistema. O instrumento protagonista do colapso de 2008 foi justamente o CDO (Obrigação de Débito Colateralizada), costumeiramente re-hipotecado por bancos ad infinitum.
Re-hipotecagem pode soar como algo divertido se você é fã do filme Inception, mas não é algo tão "bonitinho" se acabou de assistir a The Big Short.
Michael Burry, em "The Big Short". Ele sabia que algo estava errado.
*Tecnicamente, o processo é mais similar ao método de cross-margin implementado por muitas exchanges. Neste, o mesmo colateral pode ser usado para assegurar mais de uma posição aberta. O ativo não é de fato emprestado para duas pessoas ao mesmo tempo, mas sim disponibilizado simultaneamente para dois usos potenciais. A blockchain, fonte de verdade irrefutável, atomicamente garante que ele esteja sendo efetivamente usado somente em um lugar por vez — da mesma maneira que matematicamente coíbe gastos duplos. No instante em que o ativo é aplicado em um "uso", torna-se indisponível para o outro.
⚛️ 4. Transações Atômicas
Blockchains tem uma propriedade temporal curiosa: seu relógio interno se "mede" em blocos. Para uma blockchain, não existem segundos, minutos ou horas — somente blocos.
A implicação prática é a de que, enquanto na blockchain se passou somente um átomo de tempo, aqui "no mundo real" pode ter passado um tempão (14 segundos, no caso da Ethereum; 10 minutos, no Bitcoin).
Transações atômicas (ou encadeadas) são sequências de movimentações de capital que podem ser revertidas durante a execução, se alguma condição pré-determinada não for atendida.
Um exemplo prático: empréstimos-relâmpago. Há money markets onde você consegue pegar um empréstimo com zero de colateral (ou seja, de qualquer tamanho!)… desde que o repague, com juros, no mesmo bloco (o que, para a blockchain, significa "simultaneamente", atomicamente).
Um caso de uso: algum garoto indiano de 15 anos poder arbitrar uma ineficiência de mercado pegando 20 milhões de dólares emprestados, executando 15 transações encadeadas, e retornando o capital, embolsando mais que o salário anual de seus pais em um único bloco.
Se o esquema do garoto falha — ele acaba com menos dinheiro do que começou, e não consegue pagar o empréstimo no mesmo bloco — , ele nem mesmo acontece. A blockchain nem guardará registro do que ele tentou fazer.
No começo de 2020, um “hacker” pegou emprestados ~9 milhões de reais. Devolveu eles 15 segundos depois, acrescidos de juros. Nesse meio tempo, embolsou R$ 1 milhão de lucro. Tudo num só empréstimos-relâmpago.
Outro tipo popular de transação atômica é a troca (sem contraparte) de tokens que habitam blockchains diferentes.
📌 Uma Shortlist
Essa shortlist compila os 7 projetos que julgamos combinar os primitivos acima de maneira mais original e potencialmente impactante — em nenhuma ordem particular:
Uniswap V2
A nova versão do AMM mais popular da Ethereum.
InstaDApp
Portal/carteira web para interagir com os mais rentáveis serviços na #DeFi.
Roll
Interface para emitir tokens pessoais.
Balancer
AMMs para pools de N tokens (cestas/índices).
Reflexer
Stablecoin otimizada para ter a menor volatilidade possível — e ser o colateral perfeito.
Pool Together
Uma poupança disfarçada de loteria — em que ninguém perde.
Curve & Shell
AMMs otimizados para oferecer a menor slippage possível entre stablecoins.
➡ No próximo artigo desta série, mergulharemos nestes 7 projetos (sobre a PoolTogether nós já escrevemos); entenderemos como eles capturam valor; e quais oportunidades oferecem para usuários.
Qual te interessa mais, e deveria receber atenção especial? Mande sua sugestão por e-mail (ou no nosso chat).