🎏 Comparando o "DeFi Summer" de 2020 com o "ICO Boom" de 2017
Reflexividade na subida; reflexividade na descida. O padrão em comum entre estas 2 - e muitas outras - "bolhas".
Bolhas financeiras se alimentam de débito.
Novas formas de débito; derivativos de débito; débito tão podre e complexo que permanece "invisível" ao observador comum.
Boa parte dos períodos parabólicos em cripto remetem à introdução de uma forma nativa (geralmente, inédita) de débito, que é ordenhada à exaustão por meio de derivativos e "reciclagem criativa".
Neste ano, isto aconteceu. De novo. Ao fim desse texto, esperamos que você seja capaz de identificar o padrão, de modo a percebê-lo no mercado mais facilmente.
Efeitos de 2ª Ordem do Liquidity Mining
Nos últimos anos, o valor total capturado (TVL — total value locked) em protocolos de #DeFi explodiu.
A faísca original foi a distribuição original dos tokens COMP, por parte da Compound, através de um mecanismo chamado Liquidity Mining.
Tudo começa com o reconhecimento de que a comunidade abraçou a arbitragem legal como um dos pilares de #DeFi, e rompeu com um tabu que impediu muitas das ideias cunhadas em 2017 de verem a luz do dia.
Neste ciclo, vários tokens se aventuraram a distribuir cashflow para seus portadores (o que aumenta significativamente a chance de que o ativo seja classificado como um valor mobiliário).
No entanto, o fundador de um protocolo não pode "vender" tokens dessa natureza para o varejo — a ousadia jurídica é ostentosa demais. Como pode distribuir o ativo para a comunidade — usuários, em primeiro lugar — e não somente especuladores?
O contorno do token muda se a distribuição dele é atrelada a alguma forma de provisão de valor (trabalho) para o protocolo. No caso da Compound, a matéria-prima do serviço é liquidez. Aí nasceu a iteração mais popular do Liquidity Mining.
Você provê valor para um protocolo (nesse caso, injeta valor numa pool, que vai ser emprestado para alguém), e ganha tokens em troca.
Um Exemplo Passo-a-Passo
A forma mais popular de Liquidity Mining (ou "Yield Farming") hoje é injetar DAI na Curve.finance para "farmar" tokens CRV.
A maioria das pessoas faz isso usando a interface da Yearn.finance — agregador que automatiza estratégias de Yield Farming. Simplificadamente:
1) Você injeta ETH numa Vault da Yearn, chamada yETH;
2) O ETH é movido para a Maker DAO, onde empresta DAI com os ETH de garantia (a uma taxa de colateralização de 200%, protegendo-te de quedas no ETH);
3) O DAI é depositado na pool de stablecoins da Curve (y Pool);
4) Seus DAI garantem liquidez para quem trada entre stablecoins com a pool, e te rende taxas transacionais + CRVs (incentivos inflacionários);
5) Os CRV farmados são automaticamente vendidos por ETH, e o ciclo recomeça.
O esquema cria pressão compradora para o ETH, o ETH é alavancado (na Maker), e ultimamente tradado por especuladores / arbitradores de stablecoins, enquanto "farma" CRVs.
A conta "fecha" — enquanto ainda tem gente suportando o preço do CRV no mercado à vista.
O cenário fica mais complicado quando se considera uma prática recentemente popularizada. Tanto em protocolos de exchanges on-chain (como a Curve) quanto naqueles de crédito (como Compound e AAVE), é emitido um novo token para representar a posição (credora ou devedora) no serviço.
Por exemplo, quem empresta um um token na AAVE recebe aTokens em troca, e pode depositar estes mesmos aTokens em outro protocolo, para emprestar outro ativo.
Esquemas como este — de "reciclagem criativa de colateral" — estão acontecendo por toda parte, nos últimos meses. Assim como era comum que ICOs reinvestissem o que arrecadavam (em ETH, e também os seus próprios tokens) nos próximos ICOs quentes que viam pela frente.
⛽ Colateral Superfluido: o Combustível da Febre
Dizer que 20 bilhões de dólares foram arrecadados por ICOs em 2017–18 não significa que 20 bilhões de dólares frescos foram injetados na indústria. Uma fração decente desse valor foi contabilizada em tokens aleatórios, que despencariam mais adiante. Um caso notável de "maquiagem" financeira emana do maior ICO da época: EOS, que, supostamente, reaplicou parte dos fundos levantados em sua oferta… de volta na própria oferta!
Racional parecido pode ser aplicado a projetos de #DeFi em 2020. Dizer que há ~10 bilhões de dólares (em tokens) depositados em protocolos do gênero… não significa que há literalmente 10 bilhões de dólares alocados a eles.
O fato é que, hoje, os esquemas mais lucrativos de Liquidity Mining envolvem posições altamente alavancadas, exigindo, comumente, o depósito de "LP tokens" obtidos pela provisão de liquidez a algum outro serviço (de modo que o valor nominal do capital principal acaba sendo "multiplicado").
Por que estes protocolos incentivam isso? Por que as pools com os melhores yields da SushiSwap requeriam o depósito de LP tokens da Uniswap — e não tokens comuns?
A resposta reside no TVL (Total Value Locked, ou Valor Total Capturado) a métrica infame a partir da qual se tornou consenso julgar o sucesso de uma "farm".
Quanto maior o TVL de um protocolo, mais fees ele pode capturar de seus provedores de liquidez para dividir com portadores do seu token, o que puxa a percepção de valor do token para cima, atraindo atenção e mais TVL para o protocolo…
Assim como MyEtherWallet e sites do gênero facilitaram a qualquer um participar de ICOs indiscriminadamente em 2017… a Yearn.Finance e agregadores do tipo tornam extremamente fácil para o cripto-cidadão comum aderir a um yield percebido de 500%… sem ter a menor ideia dos riscos por trás.
🚪 Reflexividade: Para Cima e Para Baixo
A mesma reflexividade que se manifesta na subida… dá as caras na descida.
Se você nunca ouviu este termo, leia este texto 👉 Cryptoassets: Flow & Reflexivity (J. Cheesman & C. Burniske)
Tudo que bastou para que a "bolha dos ICOs estourasse" foi a escassez de novos compradores para as próximas ofertas.
No #DeFi Summer de 2020, bastou se esgotar a força-suporte compradora desta onda de tokens farmáveis. Os yields sucumbiram, TVLs encolheram e preços dos tokens de governança despencaram. Basicamente o mesmo ciclo — mas ao contrário.
O varejo cansou de arriscar suas moedas em um pântano de prováveis rug-pulls, e, na ausência de milagres eminentes, vai ser difícil reverter sustentavelmente a correção em voga.
É fácil apontar quando uma parábola foi rompida em retrospecto. Difícil é antecipar essa ruptura. Mas não vale a pena obcecar com isso. Uma estratégia não precisa acertar topos e fundos pra ser lucrativa.
Uma heurística útil é se perguntar, quando houver uma euforia dessas em curso: "ainda há lançamentos ou catalistas imediatamente maiores que os anteriores, num horizonte próximo"?
Se a resposta não for um "sim" redundante, talvez já não seja mais a melhor hora de embarcar na montanha-russa.
🔣 "Sinais"
A moral da história é: preste atenção a novas formas de débito. ICOs alimentando ICOs em 2017; colateral sendo reciclado em #DeFi em 2020. Elas podem vir a afetar seu portfolio, mesmo que indiretamente.
Eis uma matriz de "memes" comparando 2020 a 2017, e que pode ser útil para aguçar sua percepção - quando se deparar com arquétipos parecidos no futuro: