Paradigma

⚠️ Colaborador-chave da Ethereum é Preso pelo FBI [Análise]

Acusado de conspirar com a Coreia do Norte para contornar sanções com a ajuda da blockchain, Virgil Griffith pode pegar até 20 anos de cadeia.

Um dos membros mais antigos da Fundação Ethereum, e colaborador próximo de Vitalik Buterin, Virgil Griffith foi preso pelo FBI em Los Angeles.

Transitava pelos EUA pela primeira vez depois de uma viagem à Coreia do Norte.

Até então "diretor de projetos especiais” na Ethereum Foundation, é acusado de colaborar com inimigos americanos para se driblar sanções financeiras, e deve pegar entre 5 e 20 anos de cadeia. 

Nicola Greco, Vitalik Buterin, o cachorro Doge, Aya Miyaguchi, Virgil Griffit e Karl Floersch - alta cúpula da Ethereum no Japão.

Virgil tem 36 anos, e gosto por construir pontes.

Foi responsável pelos esforços que culminaram com a declaração de que a Ethereum se adequava aos princípios Halal (e à Sharia, sendo portanto “apropriada” também ao uso pelo povo Islâmico).

Garantiu o intercâmbio de conhecimento entre a Fundação Ethereum e a Ethereum Enterprise Alliance. Palestrou em conferências da Ethereum Classic, rival histórica da criptomoeda cujos fundadores o empregam.

Seu passado não são só rosas. Anos atrás, fora acusado de traidor na comunidade de código aberto, por supostamente ter recolhido informações privadas de usuários em um serviço que fingia usar Tor, e tentado revendê-las para a Interpol e o governo de Singapura.

Virgil em encontro durante o processo que culminou com o reconhecimento da Ethereum como Halal.


🇰🇵 Virgil e a DPRK

Virgil nutria um fascínio antigo pela Coreia do Norte, como evidenciam as dezenas de postagens no seu Twitter sobre o tema.

Discussões sobre a DPRK costumam desembocar em um dilema conciso:

o regime é um dos mais cruéis que existiram nos últimos tempos. Mas existem dezenas de milhões de pessoas lá que não integram o regime. Qualquer interação com a nação é anti-ética... ou existem meios de se comunicar/empoderar exclusivamente “o povo”, que, no fim das contas, é que sofre as consequências finais do isolamento internacional?

Griffith teria questionado o Departamento de Justiça se poderia viajar à DPRK - e teria sido informado de que não, diante das sanções em vigor.

Foi, mesmo assim. Twittou foto do visto, assim que o obteve:

Havia sido convidado para palestrar na 1º “North Korean Blockchain Conference”. Seu tema: “Blockchain e Paz”. A ideia mais ousada: fazer uma transferência de $ETH entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte (driblando a proibição hoje em voga).

Virgil teria reconhecido oficiais do governo na audiência, e deles ouvido algumas das indagações técnicas mais profundas sobre contratos autônomos.

Críticos dirão que a conferência provavelmente era inteira atendida por membros do regime. Alguns acreditarão que havia “gente normal” escutando também.

Em chats com colegas e amigos, fora aconselhado severamente contra a viagem.

Alguns dos conselhos recebidos por Virgil quanto às férias na Coreia.

No Twitter, Vitalik comentara, em um de seus posts sobre a conferência: “Enjoy!” (“Aproveite!"). Vitalik só se pronunciou sobre a detenção do amigo dias depois do ocorrido.


🍂 A Queda de Virgílio

O julgamento já começou, e a pena máxima é de 20 anos de prisão.

A situação legal de Virgil é complicada.

Existe a defesa hipotética de que tudo sobre o que palestrou na Coréia é informação pública - portanto a acusação é inconstitucional diante da 1ª emenda. Mas se Virgil de fato elaborou sobre evadir sanções, e, pior ainda, se de fato fez uma transação simbólica de ether entre as duas Coreias, a intenção é inquestionável - e a pena, clara.

À parte os julgamentos morais, 2 verdades inconvenientes nos saltam aos olhos, nessa história.


💣 1. Criptomoedas vs. Estados-Nação

Quase toda tese que vislumbra a adoção global de criptomoedas presume um período de embate entre estados-nação e “cripto-soberanias”. Já propusemos que as nações marginalizadas serão as primeiras a “jogar do lado” das criptomoedas - assim como as indústrias marginalizadas das drogas, pornô e etc costumam ser pioneiras em adotar novas tecnologias. Quer aprovemos ou não, o que a Coreia do Norte está fazendo é prova disso.

E a investida do governo norte-americano também. Griffith provavelmente já vinha sendo monitorado há algo entre 12 e 18 meses. O Departamento de Justiça já deve ter escrutinado o passado de cada um dos ocidentais que viajou com ele. É possível que tenha investigado interações com endereços identificados como norte coreanos na blockchain da Ethereum.

A investida do FBI contra Virgil Griffith escancara para Vitalik & cia. um lembrete sobre a autoridade final da Justiça Americana diante do experimento que eles estão conduzindo. A corte faz às vezes de "protocolo final de assentamento".

A SEC foi leniente com o que muitos argumentam ter sido uma oferta irregular de valores mobiliários conduzida pela Ethereum em 2015 - mas pode a qualquer momento dar meia volta e emitir um veredito novo. É sempre bom lembrar que, apesar de Vitalik e Joe Lubin (fundador da Consensys), por exemplo, não serem americanos (são canadenses), na eventualidade de o ICO da Ethereum ser declarado ilegal, uma punição poderia facilmente se estender para não-cidadãos americanos. Esta é só uma das "armas" de que o governo americano dispõe para barganhar com a "cripto-soberania".

Extrapolando, na hipótese de que Vitalik fosse um dia preso (como Virgil), a Ethereum não pararia, mas é de se supor que os mercados acusassem um baque considerável. Curiosamente, desde a detenção de Virgil, o ether não caiu significativamente.

Vale lembrar, ainda, que a Justiça Americana cultiva um leque vasto de ameaças menos explícitas à Ethereum - e outras criptomoedas. Um rascunho de projeto de lei que circulou por Washington recentemente, por exemplo, propunha que desenvolvedores de contratos autônomos fossem responsabilizados perante a lei pelas interações de seus usuários com seus programas.

Não é só os EUA que tacitamente restringem o tato entre sua população e "cripto-soberanias". Um dos pesquisadores mais estimados da Fundação Ethereum já tinha pedido demissão por receito de represálias por parte do governo japonês em face a uma mudança que seria implementada em versão futura da rede.

Estados conflitarão mais e mais frequentemente com representantes de criptomoedas. Blockchains que dependem de grupos concentrados de talento são mais vulneráveis a vetores de ataque estatais. O quanto é "suficientemente descentralizado" para se tornar imune, na prática, a tais ataques, ainda é uma questão em aberto.


♢ 2. Qual é a implicação para a Ethereum?

Virgil não é o primeiro “membro do círculo interno da Ethereum” a cair nas garras do Departamento de Justiça americano.

No começo do ano, Steven Nerayoff, marqueteiro que ajudou o time da Ethereum por volta do tempo do ICO, foi acusado de extorquir um cliente (incluindo ameaças físicas) em milhões de dólares, e preso junto a um sócio pelo FBI.

Nem Virgil nem Steven faziam parte da equipe que compunha a empreitada antes da oferta inicial da moeda - sobre a qual nunca deixou de pairar uma nuvem jurídica -, mas ambos acompanharam as práticas, ganhos, gastos e mecanismos internos da fundação que comanda boa parte dos fundos, do prestígio e do capital humano no universo dos tokens.

O FBI tem dois "reis" na mão, e se o mercado não tiver uma guinada bullish logo, a Fundação Ethereum tem capital irrisório para contra-atacar um ataque de nível nacional - e ainda entregar o maior upgrade já visto na rede até hoje, enquanto se defende.

Não é de se surpreender que a Fundação tenha emitido uma nota discreta se distanciando do caso, e que o próprio Vitalik tenha assumido postura inconclusiva. Aya Miyaguchi, presidente da Fundação Ethereum, criticada por boa parte da comunidade, e que parece cada vez mais perto de deixar o cargo, não se pronunciou.

No fim das contas, o caso se soma a uma sequência eventos evitáveis a fragmentarem a comunidade da Ethereum. Acumulados, contribuem para mais dispersão de energia e atrasos no roadmap para a entrega do upgrade definidor pelo qual a rede precisa passar (ETH 2.0).


👋  Moral da história

Muitos se lembram que a gota d'água para o desaparecimento de Satoshi dos fóruns - e da comunidade - de Bitcoin foi o envolvimento de um programador parceiro com o FBI, num dos primeiros depoimentos de que se tem notícia sobre criptomoedas.

Talvez Satoshi só tivesse sentido que chegara a sua hora. Ou talvez presumisse que aquele era um inimigo com o qual preferia evitar qualquer chance de confrontar diretamente, nos mesmos termos.

A prisão de Virgil Griffith nos lembra que enxergar questões legais complexas como escolhas binárias leva às armadilhas cinzentas de reguladores e agentes governamentais. Áreas cinzentas não são um bug no sistema - elas são o sistema.

Virgil já tinha anunciado intenção de renunciar à cidadania americana, e vinha pesquisando passaportes de outros países para comprar - mas não foi cuidadoso o suficiente enquanto "filho do Tio Sam".

No final das contas, da cadeia, não dá pra construir tecnologia libertadora alguma.

Mantenha-se seguro. Na rua, na internet. Proteja seus dados e rastros. Não se acanhe moralmente. Meça as consequências do que faz.

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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