📌 Boletim Semanal: Dinheiro de Helicóptero e a Put do Banco Central 🚁
O que acontece quando nos tocamos de que não há mais um "normal" para o qual a economia pode voltar?
🚁 O Dinheiro Está Chegando de Helicóptero
A resposta do FED à bolha do ponto com passou por uma redução de 6.5% para 1% na taxa básica de juros. Na crise de 2008, os juros caíram de 5.25% para 0.25%.
Ritual parecido veio sendo empreitado na década passada, em nome da manutenção do mais longo bull market da história. Juros zero/negativos significam que gastamos todos os cartuchos monetários, e agora só resta bala para o armamento pesado.
Enquanto você nos lê, governos ao redor do mundo municiam as suas bazucas fiscais. Preparam-se para esticar seus déficits, não mais como mera consequência dos gastos em ascensão, mas como parte de uma estratégia deliberada para oxigenar a economia.
Estes programas deficitários serão financiados pela compra de títulos do governo - e outros ativos mais obscuros - por parte dos próprios bancos centrais. Receberão toda sorte de nome:
- Renda Básica Universal;
- CoronaVoucher;
- Modern Monetary Theory;
- Dinheiro de Helicóptero;
- Transferências Fiscais;
- Green New Deal…
Qualquer uma destas que não exponha demais as reais raízes do problema deve passar sem grandes sacrifícios políticos.
No entanto, conforme o mundo re-abre as portas, uma enxurrada de dinheiro - na forma de assistência monetária e estímulo fiscal - vai de encontro a uma oferta finita de bens reais.
Anseamos para voltar ao normal, mas o “normal” de janeiro já não existe mais.
Você pode re-abrir sua loja ou voltar a fabricar coisas amanhã mesmo - mas metade do ocidente segue trancada em casa, se entupindo de Rappi, TV e sites pornô.
Pequenas e médias empresas representam 60-80% da maioria das economias. Boa parte delas não existirão mais quando chegar a hora de acessar, de fato, os fundos emergenciais que lhe estão sendo direcionados.
🏦 A “Put” do Banco Central
Acima: pedidos de seguro-desemprego por semana, desde 1970.
Abaixo: o balanço do FED foi de 1 a 6 trilhões de dólares desde 2008.
Sistemas complexos não se recuperam de catástrofes linearmente.
Mercados financeiros se acostumaram ao regime confortavelmente protegido pela persistente “put do Banco Central”.
Quando dá merd*, a autoridade intervém, injetando liquidez e empurrando ativos financeiros de volta pra cima.
As aventuras do FED na moderação do ciclo econômico reforçam um sinal que o mercado precifica na forma de valuations mais permissivos e excesso de apetite por risco.
Com o tempo, o todo-poderoso mercado de ações americano pode esfarelar até sobrar somente os zumbis corporativos que detinham conexões suficientes em Washington para continuar mamando da teta do contribuinte. E convenhamos: não seria tão ruim. Boa parte das pessoas sequer notaria. Se a inflação pudesse ser mantida a distância.
No curto-prazo, ela não assusta. A desalavancagem massiva do sistema esvaziou quase todas as classes de ativo, em detrimento da moeda norte americana (e dívida associada a ela).
Ninguém têm dólares o suficiente. É sobre isso que a chamada de margem global na segunda semana de março se tratou. A China não tem dólares suficientes para comprar commodities e honrar compromissos. O mesmo vale para qualquer centro de manufatura ou hub de serviços.
Mas que acontece depois - passado o choque? É a pergunta de 6 trilhões de dólares.
O interessante é que a maioria das iniciativas de "concessão de dinheiro" (ao consumidor final) em larga escala compele governos a adotarem programas calcados na distribuição digital. O app da Caixa, dos tão memetizados 600 reais de auxílio, é um exemplo.
A educação sobre o dinheiro virtual é um corolário inevitável. Somada à primeira faísca de inflação (se/quando vier), resulta num caldeirão e tanto para os próximos anos do Bitcoin.
🇧🇷 Quantitative Easing Tupiniquim
Não se surpreenda se o alarde público sobre o Corona começar a se amenizar a partir da semana que vem, em solo nacional.
Os beneficiários da crise se encaminham para os passos finais de sua negociação.
Com a aprovação iminente do Orçamento Emergencial, é de se esperar que o parlamento arrefeça o apoio a governadores no embate contra o presidente sobre a severidade das medidas restritivas em voga a nível estadual.
Nossos deputados negociaram uma verba de quase 1 trilhão de reais para ser gasta em combate aos efeitos da pandemia, em doses que, é claro, passam pela aprovação deles - e de um gabinete com ministros e o presidente.
A proposta teve 423 votos a favor e 1 contra, na Câmara. O Senado vota segunda-feira, e resmunga para ter assentos, também, nessa mesa decisória das alocações.
~R$1 trilhão não é uma boquinha que aparece todo dia. Ainda mais desse jeito, sem necessidade de licitação e com prazo pra gastar: até o fim do ano, vigência do estado de calamidade pública.
O texto dá a ainda ao Banco Central a prerrogativa inédita de comprar carteiras de crédito e títulos de dívida corporativa.
É o quantitative easing tupiniquim.