🌱 As FAANG da Web3 [pt.2]
Por que estas 5 redes podem obsoletar protocolos fechados e virar do avesso os modelos de negócio mais importantes da internet.
➜ Leia o relatório completo em PDF aqui 👀
Esta é a segunda parte de uma tese sobre a Web3. Para entender o que é Web3, e de onde nasceram as plataformas a seguir, leia a primeira parte aqui ➜ 📱 As FAANG da Web3 [pt.1]
📝 Facebook → Mirror
O Facebook deriva poder de barganha do lock-in que impõe sobre usuários. No paradigma da Web3, esta não pode ser uma vantagem competitiva, dado que perfis, metadados e conexões vivem num substrato público, acessível por qualquer um.
O Mirror exemplifica brilhantemente uma abordagem que tem muito fruto pra dar. Funciona como o Medium — uma plataforma de escrita. A diferença é que os textos não moram em um servidor central, mas numa rede distribuída (veja a seção seguinte). Os conteúdos podem ser lidos de qualquer aplicação, e clones da interface podem pipocar à vontade — o grafo social é legível na blockchain.

O Mirror aposta na sua ferramenta de criação. Ela integra o ENS para identificar autores. Permite a emissão de NFTs no próprio editor de texto. Oferece funções de crowdfunding de reportagens. No geral, é um prazer de usar.
Se os escritores se apegam ao Mirror, eles publicam lá. E os leitores os seguem. Se o valor criado pela comunidade for distribuído entre ela mesma, pode ser que o ciclo virtuoso embale.

Seu token ($WRITE) pode ser ganhado (0.01 $WRITE) criando-se uma conta na plataforma — também dá o direito de "voto". Toda semana, uma "corrida" aberta opõe proponentes, e detentores de WRITE votam em quem querem ver escrevendo na plataforma. Os 10 mais votados ganham 1 $WRITE. O token ainda não tem liquidez, nem foi distribuído amplamente.
Outras proto-redes sociais promissoras são a Showtime, centrada em torno de galerias e feeds de NFTs; e a Rainbow, que por ora se disfarça como uma wallet para millenials. Nenhuma das duas (ainda) tem token, e mal começaram a explorar seu potencial social.
💾 Amazon (AWS / Cloud) → Arweave
A ideia de se armazenar arquivos em uma rede descentralizada precede até o Bitcoin — Gnutella, Napster e Torrent são alguns dos exemplos infames.
O IPFS foi a primeira rede do gênero que se tokenizou com sucesso, e atingiu escala global. O protocolo peer-to-peer permite que qualquer um requeira arquivos através de um identificador único, ou ingeste arquivos novos e obtenha para eles este identificador. Participantes do lado da "oferta" da rede agem como nós que armazenam e entregam dados — a emissão de Filecoin (FIL) os incentiva a se comportar corretamente.

Um mapa dos nós que mineram FIL.
Mas notoriamente, a IPFS não oferece garantias de permanência para o conteúdo que hospeda. Hoje uma rede de "pinadores" (servidores voluntários) assegura a disponibilidade de uploads limitados, no curto prazo. Mas aplicações que desejem depender do serviço indefinidamente precisam de um plano customizado.
Há 217 mil conteúdos únicos guardados por 600 e poucos provedores na rede. Mas mais de 3.000 nós mineram FIL, isto é, colocam-se à disposição para fazer o serviço.
Numa perspectiva de investimentos, vale notar que a Filecoin tem a menor razão entre oferta circulante e oferta total dentro do top #30 criptomoedas— pouco mais de 5%.
Compare o "dumpômetro" de diferentes criptomoedas na nossa home.
Ou seja: 95% dos quase U$ 130 bilhões em capitalização de mercado (fully diluted) ainda estão por ser liberados no mercado. A propensão ao dump é alta.
A Arweave ($AR) é uma alternativa que vem ganhando tração. O design é argumentavelmente mais difícil de censurar, e o custo é muito menor. O modelo prevê um pagamento único pela armazenagem eterna (enquanto a rede sobreviver). É mais caro que uma AWS da vida, mas o custo passa a valer a pena depois de alguns anos.

O volume transacional na Arweave vem testando suas máximas históricas.
A Mirror (plataforma de textos) usa a Arweave. A Glass Protocol (vídeos) usa a Arweave. A Metaplex ("OpenSea da Solana") usa Arweave. A demanda advinda de aplicações populares em blockchains distintas é um sinal de adoção importante.
Um outro "jóquei antigo" nessa corrida é a SiaCoin, recentemente renomeada para SkyNet ($SC). Vale prestar atenção na Homescreen: iniciativa deles para que mais apps tenham frontends verdadeiramente incensuráveis.
🍎 Apple → Helium
A manufatura de hardware é um tipo de trabalho extremamente especializado, e difícil de "distribuir". Não imaginamos que uma rede descentralizada deve ameaçar, no curto prazo, a soberania das titãs dessa indústria.
Mas é inegável que despontam algumas forças nativas a este novo paradigma da web. A GoTenna produz dispositivos móveis de mesh networking, levando internet para zonas remotas. A CoinKite fabrica wallets de código e hardware open source. Ambas são nomes de ponta no bitcoinverso.
Na shitcoin-sfera, a abordagem muda um pouco. As empreitadas mais tracionadas seguem o seguinte playbook:
- Desenvolver hardware próprio para bootstrapar uma rede (prova-de-conceito);
- Vender/alugar o hardware, e lançar incentivos para que quaisquer indivíduos sejam operadores de "nós" (cobertura);
- Investir em marketing para que a demanda dê as caras e os "nós" sejam rentáveis para além do subsídio tokenômico (go-to-market);
- Trabalhar para que o máximo de fabricantes independentes consigam produzir o mesmo tipo de hardware (descentralização).

A Helium é nossa favorita. Está hoje entre as fases 3 e 4 do playbook acima. Cada um dos hardwares da imagem acima é de uma fabricante diferente.
Tratam-se de roteadores de wi-fi via rádio de baixa potência (LoRaWAN).
Estes tem 200x o alcance de um modem de wi-fi tradicional, e operam a 1/1000 do custo. O sinal que oferecem ainda não é suficiente para assistir vídeos confortavelmente, mas basta para a maioria das aplicações modernas de IoT (rastrear objetos; coleção e transmissão de data por sensores físicos; etc). No futuro, é possível que acomode todo tipo de caso de uso.
Um dos inventores do Napster está no time fundador da Helium. A ideia nasceu em 2013, e a primeira versão do protocolo foi ao ar em 2019. Hoje há mais de 250.000 "nós", em quase 150 países, com hardware produzido por 24 fabricantes distintas.

Os mais de 250 mil hotspots de Helium, cobrindo até algumas ilhas isoladas no Pacífico.
A Althea é outra competidora no setor, com estratégia diferente, foco na América do Norte, e que ainda não tem token.
📺 Netflix → LPT
A stack para a transmsissão de vídeo em alta qualidade foi a última a maturar na Web2 (depois daquela para textos estáticos, mensagens real-time e imagens/GIFs).
Necessita-se uma pilha complexa de tecnologias, cujo custo de acesso é impeditivo abaixo de certa escala. Para piorar a vida das novas entrantes (que já precisam operar no prejuízo até atingirem certo tamanho), YouTube & cia. ainda acostumaram o público a uploadar vídeos de graça — o que é impraticável para a maioria dos pequenos concorrentes independentes. Não é à toa que os incumbentes têm vida longa na indústria do streaming.

Uma visualização da "pilha de tecnologias" necessária para transmitir vídeo de forma distribuída.
Para que floresçam "Youtubes descentralizados", são precisos serviços de armazenagem e entrega distribuídas (como IPFS e Arweave); serviços de indexagem distribuída (como veremos na seção seguinte); e serviços de ingestão e transcoding de vídeos distribuídos. Esta última parte é a menos entendida, e mais custosa. Transcoding significa basicamente destrinchar uma mídia em diferentes qualidades e formatos, pra que ela rode bem em qualquer dispositivo e conexão. Costuma ser o gargalo para aplicações de vídeo pequenas escalarem.
E é aí que a Livepeer (LPT) entra. Enquanto muitas iniciativas já tentaram emplacar uma interface para o "Youtube descentralizado", a Livepeer focou em bootstrappar incentivos robustos o suficiente para que seja possível transcodar e fazer streaming de vídeos sem passar pelos servidores da Google e da Amazon.
O design da "prova-de-trabalho" pega carona no fato de que mineradoras de criptomoedas baseadas em GPUs tem uma certa capacidade ociosa, justo na parte de seus circuitos que lida com vídeo.

Ilustrando como minerar LPT pode ser rentável para uma GPU, sem que ela precise parar de minerar outra moeda à qual já se dedica.
Em poucas palavras, dá pra certos mineradores de ETH minerarem LPT ao mesmo tempo, com quase nenhuma perda de eficiência e sem aumento de custos. Imagine o apelo dessa alternativa quando o PoW for definitivamente "desligado" na Ethereum.
A rede ainda dista da escala requerida para servir aos seus objetivos finais — mas o token já negocia na Coinbase Pro e tem fundo dedicado da Grayscale.

Nós da Livepeer tiveram ~U$50K em receita nos últimos 30 dias.
🔎 Google → The Graph
Todo app que interage com uma blockchain enfrenta o mesmo problema de otimização: como tirar da cadeia de blocos as informações que são necessárias para o uso, e ignorar todo o resto?
A blockchain é desenhada para ser o mais compacta possível; não necessariamente o mais legível. Para buscar informações relativas a endereços, tokens e contratos específicos, quase todo time constrói um índice próprio. Ele fica hospedado numa AWS, ou similar, lendo, processando e entregando dados para o app. Dando um zoom out, o resultado é uma paisagem fragmentada de indexadores não padronizados e sujeitos aos caprichos de quem os hospeda.
A The Graph (GRT) propõe uma solução genérica e escalável para o problema. O GRT segue o mesmo modelo de "work token" da LPT. Nós podem fazer stake de GRT para ter direito de prover trabalho pra rede (no caso, indexar e entregar dados on-chain) e ser recompensados em GRT.

Volume de queries contra "subgrafos" da The Graph — a rede ainda não hiper-escalou.
Nós expõem um endpoint (GraphQL) pelo qual desenvolvedores podem buscar informações da Ethereum, da IPFS ou, teoricamente, qualquer outra fonte. No longo prazo, a The Graph aspira tornar-se uma camada off-chain para dados estruturados e queries fáceis. A "layer semântica" da Web3. Não necessariamente o próximo Google, mas o backend dele.
Vale notar que, enquanto a Ethereum registra alguns milhões de transações por dia, no máximo, a Infura (o mais famoso indexador centralizado) recebe mais de 10B chamadas por dia.