⚗️ Alkimiya: Um Mercado Para o Espaço em Blocos
Uma analise do novo protocolo lançado na rede da Avalanche, que permite que mineradores vendam futuras recompensas de blocos.
Commodities são as matérias básicas utilizadas para produzir os bens que consumimos em nosso dia a dia. Desde a antiguidade, as civilizações buscaram obter os recursos mais importantes de seu tempo, de arroz e grãos a metais, passando por temperos e especiarias até chegar ao petróleo. Pode-se dizer que a história dos impérios e nações é uma incessante busca pelo controle das commodities mais relevantes - e o poder que elas trazem.
O questionamento que o projeto Alkimiya traz é o seguinte: Conforme cada vez mais aspectos da economia e atividades diárias migram para a cripto-economia, qual será o commodity mais visado nessa nova era?
O espaço em blocos (Blockspace) é onde todas as atividades em blockchains públicas são estabelecidas. Os produtores de blocos (mineradores para blockchains PoW e validadores para blockchains PoS) são aqueles que fornecem este espaço em blocos, ao passo que todas as transações demandam espaço. Quando a atividade na rede está elevada, as taxas de transações aumentam, assim como a competição para validar o próximo bloco. O que o protocolo Alkimiya pretende fazer é trazer um mercado robusto para esse commodity da nova era.
Em 4500 AC, cidadãos da Suméria antiga negociavam tokens de argila que representavam datas e condições de entregas futuras de bens. Em 1697, mercantes de arroz de Dōjima comerciavam tickets que constituíam direitos a uma quantia de arroz dos armazéns, e com o uso desses tickets já era possível para os negociantes desenvolverem derivativos que permitiam vários tipos de contratos comuns hoje - como opções e futuros. Essas abstrações financeiras permitem uma melhor gestão de risco para vendedores e compradores, e consequentemente possibilitam que escalem eficientemente suas operações.
Assim como outros fornecedores de commodities, produtores de blocos também necessitam de maior previsibilidade sobre seus retornos, visto que estão trabalhando com ativos voláteis. Essa é a proposta de Alkimiya, o novo primitivo lançado inicialmente na rede da Avalanche. A escolha da blockchain da Avalanche foi devido às baixas taxas de transações e a possibilidade de, no futuro, o projeto poder ter sua própria subnet.
Utilizando o projeto, é possível para esses produtores fazerem hedge de suas posições. Isso é de extrema valia, pois permite que obtenham uma renda fixa com suas operações, e tendo essa previsibilidade dos retornos eles podem escalar seus negócios de forma mais segura. Antes, só era possível efetuar esse tipo de operação via corretoras de futuros, e agora pode ser feito diretamente na rede.
Um comprador paga ao produtor de blocos (mineradores/validadores) a quantia acordada de stablecoins que são recebidas durante a duração do contrato, enquanto o produtor fornece ao comprador todas as recompensas de mineração/validação (de acordo com um índice) do mesmo período de tempo. Em outras palavras, produtores de bloco podem vender recompensas futuras para especuladores.

No gráfico acima, a renda diária de mineradores de BTC. Chegou a um pico de cerca de 80 milhões de dólares no início de 2021, e hoje se encontra em cerca de 36 milhões por dia. Ilustra bem o tamanho do mercado a ser explorado.
Para comparação, no gráfico abaixo podemos ver a receita (média móvel de 30 dias, em USD) dos mineradores de BTC provinda apenas das taxas de transação, sem contar com a recompensa de blocos. Percebe-se a volatilidade dessa renda, que acompanha os períodos de valorização do BTC. Conforme o tempo passa, devido ao halving, a remuneração dos mineradores fica cada vez mais dependente dessa fonte.
O protocolo Alkimiya funciona com duas partes principais: Silica e HashVault.
Silica é um swap de commodity, entre vendedores e compradores da produção de blocos. Produtores utilizam Silica para se proteger dos riscos da operação ou monetizar seus recursos. Nesse caso, Silica representa uma troca entre o pagamento adiantado do comprador e as recompensas de mineração/validação produzidas pela quantidade de hashpower especificada durante o período do contrato.
Já o HashVault usa o fluxo de caixa obtido pelas recompensas de blocos como uma fonte de renda sustentável. Pode ser visto como um portfólio de Silica, com múltiplos contratos bilaterais reestruturados em formas de ativos que geram renda (yield). Ao contrário da maioria de yields em protocolos DeFi que são colateralizados ou gerados por tokens, o fluxo de caixa do HashVault é garantido pelo hashpower subjacente, que representa as atividades econômicas acumuladas na blockchain. Em outros termos, o fluxo de caixa é usado como blocos de lego financeiro para obter fontes de renda de qualidade.
Na tabela acima, vemos alguns mercados já ativos no app da Alkimiya. Cada linha representa um contrato específico, e nas colunas temos, respectivamente, o tipo de ativo (WETH ou WAVAX, e se as recompensas são provindas de mineração, stake ou taxas), a quantia de hashpower ou moedas em stake do contrato, o preço por dia, o período (dias corridos/duração total), as recompensas totais esperadas e a quantidade de dias para se ter de volta o investimento.
Enquanto o uso de redes cripto - e por consequência a demanda por espaço em blocos - continua a aumentar, os incentivos para ser um produtor de blocos também aumentam. Isso significa que é necessário um mercado confiável e robusto para que os mineradores/validadores possam proteger suas posições. Ao criar vias para que estes possam obter uma renda mais previsível e segura, se resguardando da volatilidade do mercado, esse mercado diminui as barreiras para se tornar um validador, e no longo prazo ajuda na descentralização das redes.
Já houveram anteriormente outras empreitadas para se criar mercados de futuros em que mineradores possam se proteger, tanto de forma descentralizada quanto centralizada.
A corretora centralizada FTX em maio de 2020 inaugurou suas negociações de futuros de hashrate de bitcoin. Esse derivativo, entretanto, se baseou em se posicionar comprado ou vendido em relação a dificuldade de produção de blocos, sendo tecnicamente diferente da abordagem da Alkimiya. O último contrato se deu no primeiro quadrimestre de 2021, e não há mais contratos ativos. Visto que a corretora retirou esse derivativo, é provável que não houve volume de negociações que justificassem sua existência.
O protocolo de derivativos SynFutures também lançou um contrato de futuros de hashrate, mas assim como o da FTX, ele também se baseia na dificuldade de produção de blocos, e na opção de operar comprado ou vendido em relação a ela. O contrato está ativo no app deles, e existe um tutorial de como utilizá-lo
A proposta da Alkimiya é fundamentalmente diferente das outras soluções apresentadas acima. Além de ir além de abordar somente a mineração de BTC, permite a troca direta de stablecoins por recompensas futuras, por meio da Silica, e também há o HashVault que visa obter uma fonte de renda (yield) sustentável utilizando o fluxo de caixa do subsídio de blocos.
O protocolo é relativamente recente, tendo lançado sua testnet neste ano. Será interessante ver se conseguirá ganhar tração e obter uma base de usuários, tanto de vendedores que ofertem sua produção quanto compradores, que enxerguem incentivos para especular em recompensas de bloco futuras.