🦎 Airdrops em Metamorfose & Estratégias Adaptativas
Como farmadores de airdrops têm reagido a inovações na filtragem e distribuição de recompensas retroativas.
"A primeira vez funciona porque ninguém tá esperando".
Este é um dos principais argumentos da tese de que a gênese imaculada do Bitcoin é irreplicável. É por isso (entre outras razões) que o proof-of-work original foi percebido como uma forma de distribuição "justa", mas as moedas subsequentes que copiaram o modelo não ganham a mesma caracterização.
“A primeira vez funciona porque ninguém tá esperando”.
Este é um dos argumentos da tese de que um ICO em 2015 era muito diferente de um ICO em 2017 — atraindo mais evangelistas, e menos especuladores. É por isso que o ICO da Ethereum foi "menos pior" que todos os que vieram depois.
“A primeira vez funciona porque ninguém tá esperando”.
É basicamente por isso que o airdrop da Uniswap sucedeu em capturar, enriquecer e manter uma comunidade engajada — mas todas as versões subsequentes do mecanismo foram exploradas por mercenários on-chain.
🦴 A Anatomia de um Airdrop
Um airdrop, em cripto, é uma distribuição retroativa de tokens, para recompensar (e dar skin in the game a) usuários que tomaram risco e interagiram com um protocolo em suas fases iniciais.
Um airdrop geralmente substitui um ICO ou outro mecanismo de "ir a público" para uma criptomoeda. Desde que DEXs abocanharam das CEXs o grosso do volume em tokens de cauda longa, percebeu-se que a listagem em uma grande exchange não era mais um diferencial para moedas pequenas. A rota para a liquidez no mercado secundário ficou muito mais curta com a proliferação dos AMMs.
A partir daí, o mais importante para um desenvolvedor de token deixou de ser uma grande captação e um caminho até Binance, FTX, Coimbase & cia. O fardo do lançamento de uma moeda ficou mais leve. O mercado começou a comprar tokens dados de graça, e, então, quem tinha um produto + comunidade valorosos mas ainda não tinha lançado moeda, começou a pensar: "e se"?
📌 Leia mais sobre "O Quê é Um Airdrop".
📌 Conheça uma "Seleção de 9 Rumores de Airdrops" (set/21).
📌 Veja nossa "Planilha de 30 Airdrops Possíveis" (out/21).
🔨 O Que Tem Mudado nos Airdrops
1. Ribbon ($RBN) e o Ataque às Fazendas Industriais
A Ribbon retro-dropou 3% da oferta do seu token no dia 7 de Outubro, depois de uma aprovação via governança informal (Snapshot). No valor do lançamento, foram U$125.4M distribuídos para ~1600 contribuidores, de uma vez só (sem vesting).
A Divergence Ventures atraiu a ira da comunidade quando alguns anons no twitter descobriram que uma analista do fundo tinha farmado, sozinha, mais de U$3M em RBN — depositando quantias minúsculas, centenas de vezes, no protocolo justo antes da data de "snapshot" do airdrop.
⚔️ Critério notável: a ira da comunidade coagiu os responsáveis pela Divergence (que são conhecidos na comunidade) a devolverem boa parte dos fundos “farmados”. A Ribbon só precisou formalizar o processo de "recuperação" dos tokens para seu tesouro. Suspeita-se que a Divergence tenha farmado muito mais do que foi descoberto.
🦎 Adaptação: usar não só endereços diferentes (dispersar moedas pelo Disperse.app) mas também padrões diferentes (ex: variar as quantias, intervalos de tempo irregulares).
2. ENS ($ENS) e o Castigo dos Squatters
A ENS era um dos "bens públicos" mais antigos da Ethereum em operação (maio de 2017) que ainda não tinha moeda. No começo de novembro, anunciou um retro-drop que deixou muita gente de queixo caído. A postura dos membros da equipe sempre fora crítica a tokens de governança.
Foram cerca de U$200M dropados do dia para a noite (25% do supply), sem vesting, para quem detinha domínios .eth. Um caso curioso é o da designer que fez o site do projeto, e cujo pagamento previa uma alocação de tokens — valiam ~U$14M no dia do lançamento. Provavelmente o site mais bem pago da história 😅
Uma especulação momentânea se deu em torno dos squatters: pessoas que notoriamente compraram dezenas ou centenas de domínios, e os holdam para vender mais caro (ou doar) para as pessoas a quem os nomes se referem.
⚔️ Critério notável: a ENS desconsiderou mais de um domínio portado pelo mesmo endereço (anulando o potencial dos squatters de abocanhar boa parte da oferta). Ponderou o airdrop de acordo com a idade do registro, a duração futura prevista, e o fato de o "reverse record" estar ativado ou não.
🦎 Adaptação: os critérios deste airdrop foram bem desenhados! O jeito mais eficiente de farmar era de fato ter usado o serviço ao máximo: comprado diversos domínios, a partir de diferentes endereços, e os configurado corretamente. Quem se deu melhor foi quem de fato já mantém múltiplas identidades pseudônimas na web3. Squatters conhecidos (como o empreendedor que comprou os nomes de todos os rappers famosos que existem) não foram desproporcionalmente beneficiados.
3. Paraswap ($PSP) e o Filtro de "Endereços Ativos"
A Paraswap aplicou um filtro discricionário para reduzir uma lista de mais de 1M endereços a um grupo de ~20 mil "usuários ativos". Distribui 7.5% da oferta total do seu token a contribuidores e usuários passados.
⚔️ Critério notável: Basicamente, a seleção excluía interações com pools compostas por tokens irrelevantes; e requeria ao menos 6 transações nos últimos 6 meses. Bonificou usuários mais antigos, e ponderou igualmente interações com o app em chains diferentes.
🦎 Adaptação: interagir com o protocolo não só uma vez, mas no mínimo um punhado de vezes, ao longo de um período de 1–6 meses.
4. Saddle ($SDL) Diz Não aos Peixes Pequenos
A Saddle é uma competidora da Curve — um AMM otimizado para pares com pouca volatilidade (ex: pares de stablecoins; ou de diferentes BTCs tokenizados na Ethereum).
Anunciou seu retro-drop em 16 de novembro — alocando 15% da oferta do recém-criado SDL a quem interagira com o serviço nos últimos 12 meses.
⚔️ Critério notável: o esquema da Saddle foi simples, ponderando usuários pela idade das interações e valores transacionados. O critério mais notável foi a exclusão de interações equivalentes, no momento da execução, a menos de U$100.
🦎 Adaptação: não "pingar" menos que U$100 nas interações com protocolos ainda "virgens de tokens".
🔚 Conclusão
Como postulado na introdução, cada novo airdrop tende a ser menos eficiente que o anterior. A busca por eles tem se profissionalizado e espremido as margens do pequeno farmador, especialmente diante das altas taxas nas layers1 mais populares.
Mas o modelo têm se provado funcional para bootstrapar tokens de governança, sem o mesmo risco legal de um ICO, principalmente para quem já tem um produto no ar. Vai continuar acontecendo a rodo. Vale lembrar que ICOs seguiram bombando até a ~metade do bear market de 2018/2019 — e dando dinheiro para quem soube entrar nos "certos".
Se retro-drops devem continuar rolando, mas o risco-retorno de distribuir fichas genericamente está piorando… pensamos que a estratégia ótima para o pequeno explorador é concentrar esforços (e capital) em protocolos "virgens" cuja chance estimada de retro-drop é alta. Garantir alocações em um destes ainda deve pagar com tranquilidade todos os custos de interação (mesmo que várias transações, ao longo de vários meses).
Quando os airdrops estiverem começando a valer menos que os custos de interação requeridos para obtê-los, eis aí um sinal de que o mercado atingiu outro patamar de eficiência — e de que a temporada está próxima do fim.