🥸 A Pseudo-Descentralização das DAOs
Será a descentralização uma realidade ou somente uma narrativa?
5 baleias controlam a governança da NounsDAO
DAOs são comunidades com cripto-contas geridas por seus membros. A gestão é realizada através de votações, ou seja, as propostas com maior apoio são implementadas. Este modelo é adotado por centenas de protocolos, graças à facilidade na inclusão de novos membros e à integração com ferramentas cripto-nativas.
A NounsDAO é uma dessas organizações. Leiloa diariamente 1 NFT, que representa 1 voto em sua organização. A cada 10 tokens vendidos, 1 deles é destinado aos Nounders, nome dado aos fundadores da organização. Os interessados em ganhar influência na gestão do seu tesouro precisam comprar NFTs, ou ganhar reputação na organização para receber a delegação de votos. Com o leilão do Nouns 400 nesta semana, 40 NFTs foram distribuídos à carteira nounders.eth.
No entanto, somente 15 NFTs residem na wallet principal dos Nounders. Os outros tokens foram distribuídos entre outros endereços, alguns pertencentes a fundadores da Nouns DAO, outros completamente novos, contendo como única interação o recebimento dos Nouns na carteira. Não sabe-se ao certo se o interesse é mascarar a centralização na governança da organização ou diminuir os danos de um ataque às carteiras.
Mesmo detendo 10% do supply dos tokens, os fundadores seguem aumentando sua influência na governança. punk4156 já adquiriu 11 Nouns, investindo ~U$1.7M.
Detendo os 11 NFTs, o co-fundador da Nouns DAO pode delegá-lo à carteira dos Nounders, maximizando o poder de voto dos fundadores na Nouns. Reunindo todos votos delegados a nouders.eth, estes têm 46 votos delegados de outros endereços. Majoritariamente, são compostos por carteiras contendo Nouns dos fundadores e do punk4156.
Com a aquisição recorrente de NFTs pelos fundadores e a distribuição de tokens em carteiras limpas, há chances de o poder dos Nounders ser ainda maior, bastando um clique para aumentar sua influência nas votações da organização.
Mas a batalha pelo poder não será vencida facilmente. Outras baleias da DAO disputam diariamente os leilões dos NFTs, visando aumentar sua influência.
Fonte: Dune Analytics
Will Price é um membro da Nouns DAO com alto poder de voto, contando com 19 Nouns em sua carteira. zorb.eth, beautiful-nfts e Patricio Worthalter - o fundador do POAP - também compõem o seleto grupo que possuem mais de 10 Nouns.
Contudo, a aquisição de NFTs não é o único meio de ganhar influência na DAO. Membros ativos e com reputação na organização recebem votos delegados, visando representar os interesses de participantes da DAO.
Há delegados que recebem votos de suas próprias carteiras, acumulando seu poder num único endereço. Esta estratégia é utilizada pelos Nounders, Will Price e zorb.eth. Contudo, há membros que tornaram-se influentes na DAO sem necessitarem comprar bags de NFTs, como é o caso do swiftjones.eth, joshuafisher.eth, toadyhawk.eth e noun22.eth. Todos construíram reputação na organização e receberam delegações de outros participantes da Nouns DAO. O endereço leagueoflils.eth representa a Lil Nouns DAO, uma subDAO com 6 Nouns em seu tesouro. Falaremos dela adiante.

A média da participação nas propostas da Nouns DAO, levando em conta os votos, é de 30%. Fonte: Dune Analytics.
Com uma média de 30% de participação dos membros na governança da Nouns, 120 votos são suficientes para aprovar uma proposta na DAO. Juntos, os 5 maiores delegados possuem 125 votos, ou seja, tem poder suficiente para decidir qualquer proposta apresentada.
A ausência de transparência na delegação de votos dificulta mensurar a centralização, mas os dados apontam um risco sistêmico para a Nouns DAO. E pode ser ainda pior.
Fonte: nouns.blog
Um voto é mais barato se comprado por meio de subDAOs
Cientes do valor da influência na governança da Nouns DAO, comunidades começaram a construir subDAOs para realizar compras coletivas de NFTs por preços mais acessíveis aos usuários - nem todo mundo tem 100 ETH dando sopa.
Cada uma adotou uma estratégia, que mostrou-se fundamental para seu sucesso ou fracasso.
Dentre todas as criadas, 3 obtiveram êxito notável: Shark DAO, GOOP TROOP e Lil Nouns.

Shark DAO foi a 1ª subDAO desenvolvida. Captou fundos com a venda do seu token de governança, SHARK. Em poucos meses, 6 Nouns foram adquiridos. Sua meta era comprar NFTs regularmente, aumentando o poder de voto na governança da DAO. A ausência de uma receita constante e o único objetivo de adquirir Nouns não permitiram a Shark DAO continuar sua expansão. Mesmo assim, a subDAO mantém um Snapshot para os holders de SHARK votarem na utilização da influência na Nouns DAO.
A GOOP TROOP é uma coleção derivativa da Nouns de 10.000 PFPs. A grana arrecadada com as vendas dos NFTs serviu para comprar 2 Nouns. Semelhante à Shark DAO, não possuía um modelo sustentável e não conseguiu ganhar tração. No entanto, os detentores de GOOPs podem decidir como os votos na Nouns DAO serão usados.

A Lil Nouns é considerada a subDAO com maior sucesso até o momento. Leiloa versões bebês dos Nouns a cada 15 minutos. Seus criadores replicaram o modelo de recompensar fundadores com poder de voto na governança, enviando um a cada 10 NFTs vendidos para os Nounders, e um a cada 11 aos fundadores da Lil Nouns. Em menos de 3 meses, a subDAO comprou 6 Nouns e acumula 810 ETH para financiar propostas.
Alguns motivos apontados para seu êxito são: a adoção do leilão de NFTs, a sinergia com a Nouns DAO e a construção de uma comunidade para desenvolver projetos para a subDAO.
Juntas, as 3 subDAOs acumulam 14 Nouns. As pessoas com maior poder de voto em cada uma delas decidirão como a influência na Nouns DAO será utilizada. Note que o "custo de um voto" é muito menor nas subDAOs do que na NounsDAO:
Para o cálculo, foram consideradas as últimas votações das subDAOs e os maiores holders de NFTs delas.
Com U$273.700, usuários poderiam adquirir 14 votos comprando NFTs das subDAOs. Adquirir o mesmo poder na Nouns DAO, custa U$2.3M. Parece uma ótima oportunidade, não é mesmo?
O problema reside na ausência de liquidez para comprar os tokens da Shark DAO e GOOP TROOP. A concentração deles em determinadas carteiras também impede baleias de dominarem as subDAOs.
No entanto, a Lil Nouns continua leiloando seus NFTs e distribuindo poder de governança, tornando-se uma "mina de ouro". Não por acaso, membros influentes na Nouns DAO são igualmente poderosos na Lil Nouns DAO.

A transferência recorrente de NFTs para os Nounders, transformou-os nos membros mais influentes na subDAO, contando com 448 tokens.
Will Price, 2º maior holder na Nouns DAO, tem 165 Lil Nouns e usa constantemente sua influência nas votações de propostas. Patricio Worthalter e wahoo.eth também possuem suas bags de NFTs bebês, mas bem menores em relação a outros membros da organização.
Em contraste com a Nouns DAO, os delegados da Lil Nouns são predominantemente holders dos NFTs, evidenciando a prática da auto-delegação. A única exceção encontrada é al409, contribuidor fixo na subDAO e membro ativo na comunidade: seu endereço recebeu 100 delegações de 13 endereços diferentes.

Fonte: Dune Analytics
A participação dos membros na Lil Nouns DAO é ainda menor em relação a Nouns: somente 15% dos votos são utilizados nas votações. O baixo interesse dos holders nas propostas permite aos 2 maiores holders direcionarem o futuro da subDAO, botando em risco o tesouro e a comunidade da Lil Nouns DAO.
As nuances da Nouns DAO e suas subDAOs criam um complexo sistema de influência.. Compras de votos e o lobby para receber delegações são algumas ferramentas para acelerar a aprovação de propostas.
A questão não é exclusiva ao ecossistema dos Nouns. Analisando outras DAOs, encontramos concentração de poder parecida, mas barreiras adicionais para evitar problemas políticos.
O oligopólio na Uniswap
A exchange descentralizada líder de mercado fatura ~U$1M por dia e gere um tesouro de U$3.7B. Para seus membros apresentarem propostas, devem seguir rigorosamente o procedimento interno estabelecido pela DAO:
Inserindo fases antes da votação final da proposta, a DAO limita-se a aprovar na governança on-chain validadas anteriormente via Snapshot e impõe barreiras para agentes de má-fé apresentarem propostas nocivas.
No entanto, este modelo traz trade-offs: se você não tem dinheiro ou influência, dificilmente conseguirá passar da 1ª etapa.
Apesar de 2.5M UNI parecerem muito, o mínimo exigido até junho de 2021 era 10M UNI. Uma votação diminuiu este valor, mas a comunidade ainda discute os riscos desta redução.

Fonte: Dune Analytics
Entre os holders do token de governança, de 11 a 15 endereços controlam ao menos 10M UNI. Dentre eles, 4 contém tokens em período de vesting, reservados ao tesouro, 1 é o contrato distribuidor do token UNI e 5-9 endereços pertencem ao time e investidores. A Binance é uma das maiores detentoras, com ~24M de UNI.

Fonte: Bubble Maps
A concentração de tokens de governança pode ser ainda maior, devido a distribuição de UNI em várias carteiras. Segundo Bubble Maps, a Andreessen Horowitz pode deter 4.15% do token da Uniswap, cerca de 41.5M de UNI.
O oligopólio de poder é encontrado também na delegação de votos, consequência do modelo de governança da Uniswap.
Fonte: Sybil
Andreessen Horowitz lidera o posto, com 15M UNI delegados a sua carteira, os quais pertencem a própria venture capital. Refletindo a mesma centralização entre os delegados na Nouns DAO, os 5 delegados com maior influência na Uniswap detém ~48% do poder de voto.
As votações na Uniswap são realizadas por poucos holders - somente 1.24% deles participaram de alguma votação na DAO.
Claramente, a DEX é um protocolo de baleias, dominado por venture capitals e os desenvolvedores da Uniswap Labs. No fórum, diversos usuários fazem pitches em busca de representarem os interesses de membros da comunidade, para assim ganhar influência na organização, construir sua reputação e atrair delegados que vemos na exchange pode ser o prelúdio do sistema adotado pela Maker DAO.
A institucionalização dos Delegados na Maker DAO
O protocolo de empréstimo emissor da DAI tem anos de experiência na coordenação descentralizada. Seu modelo de governança morfou nos últimos anos, chegando a estrutura atual:

Fonte: Decentralization Ilusion in DeFi: Evidence from Maker DAO
Sua governança é predominantemente on-chain e tem duas câmaras para votações específicas:
Governance Polls: local para propostas não-técnicas serem apresentadas. Membros da DAO votam na aprovação ou reprovação durante 2 semanas.
Executive Votes: voltada para mudanças técnicas no sistema da Maker, como alterações de oráculo ou inclusão de novos colaterais. São implementadas somente com o apoio dos participantes da organização, realizado através do stake do poder de voto na DAO. Sua manutenção depende da continuidade do depósito, ou seja, caso surja uma proposta visando competir com ela, os membros da DAO poderão migrar seu poder de voto a ela e aprová-la, extinguindo a anterior.
Curiosamente, a Maker DAO não impõe quórum nas suas votações. Segundo sua documentação, a medida visa incentivar a participação dos membros da organização, para evitar que propostas nocivas a DAO sejam aprovadas.
Contudo, o protocolo sofre com a baixa participação em sua governança e a ausência de uma quantia mínima de votos em propostas pode ser um risco para a DAO.
Mas a mera imposição de quórum não resolveria este problema. Por isso, a Maker vem debatendo uma série de medidas que abrem mão da descentralização para melhorar sua eficiência.
Uma delas é a adoção de um sistema com 2 tipos de delegados: Reconhecidos e Anônimos.

Fonte: Decentralization Ilusion in DeFi: Evidence from Maker DAO
Os Reconhecidos precisam assinar um Código de Conduta, gravar um vídeo sobre suas intenções como delegado e ter uma boa performance representando outros holders da organização. Seu desempenho é mensurado, verificando sua comunicação e participação na DAO. Após a aprovação da MIP-61, passaram a receber uma remuneração periódica por votar nas propostas e discuti-las no fórum. Em julho, 14 delegados receberam U$85.000.
Os Anônimos podem representar holders de MKR sem cumprir nenhuma exigência. No entanto, não são elegíveis ao recebimento de remuneração pela representação dos interesses de membros da organização.
Este sistema, incentiva a formalização de representantes na DAO e a concentração de poder na mão de interessados em liderar as decisões.

Fonte: Maker DAO
66,65% do poder de voto na organização reside com Delegados Reconhecidos. Entre os 22 delegados, 53,33% da influência nas propostas está com os 5 maiores.
Mas isso tudo está funcionando?
Não o suficiente. Hasu, delegado na Maker, apresentou a ideia da formação de um Conselho de Diretores e a formalização de uma constituição. Segundo ele, a organização sofre uma crise de identidade.

Fonte: Maker DAO
Mesmo com as críticas, a organização alcançou um recorde de votantes únicos na governança, com uma média de 69 endereços participantes em Governance Polls no mês de julho.
Em todas elas, os Delegados Reconhecidos definiram os resultados das propostas, mostrando a concentração do poder de voto… mas também o sucesso dos incentivos à participação deles na organização.
A centralização pode ir contra o ethos de muitas DAOs, mas talvez a distribuição homogênea de influência entre holders desinteressados não seja a melhor resposta para protocolos terem processos de governança bem sucedidos.