🏫 A Influência de Universidades em DAOs
A participação acadêmica em protocolos pode ser maior do que você pensa.
Os 1ºs experimentos com Bitcoin mensuráveis e em escala foram realizados dentro do meio acadêmico.

Dan Elitzer (esq.) e Jeremy Rubin (dir.) foram os pioneiros no experimento com bitcoin no MIT.
Dan Elitzer e Jeremy Rubin distribuíram U$100 para 3.108 estudantes do MIT, em 2014. Apesar de somente 1 a cada 10 deles terem holdado seus satoshis, figuras emblemáticas surgiram do estudo: Sam Trabucco - ex-CEO da Alameda Research - e Christian Catalini - idealizador da Diem - foram algumas.
Desde então, os grupos acadêmicos web3 tornaram-se verdadeiras empresas. Prestam serviços de consultoria, conectam investidores a projetos buscando captação de grana e fazem pesquisas acadêmicas sobre novos temas do cripto-mercado.
Dentre tantas atuações, uma chama nossa atenção: a atuação como delegados em DAOs.
Nessa posição, são responsáveis por apresentar, discutir e votar em propostas submetidas por seus membros.

Receita de empresas prestadoras de serviços para DAOs. Pesquisa feita pelo felipether.
Existem empresas especializadas neste nicho, como Gauntlet, GFX Labs e LLama que faturam altas cifras, mas há universidades com muito mais influência que elas.
Por que universidades se envolvem em DAOs? Quais são as mais proeminentes? É um nicho lucrativo?
É o que buscamos responder nesta pesquisa.

1. London Business School
A universidade criou, em 2021, o London Blockchain Society. Com cursos de MBA e Mestrado, a instituição reúne alunos com graduação e focadas numa formação executiva. Estão com uma campanha pra arrecadar U$211M, voltados para investimento em pesquisa, estágios e inovação.

O LBS é especializado em temas como trading, pesquisas, levantar grana para novos projetos e governança em DAOs. 40 pessoas compõem o quadro de membros da LBS, 8 deles focados na atuação de delegados em organizações descentralizadas.
Maker e Aave são as DAOs onde o LBS é um delegado reconhecido, representada por Park Yeung, Head de Governança no grupo.

Mesmo com pouco tempo de existência, angariou larga influência nas organizações em que atua: ocupa a 12ª colocação em influência na Maker DAO e a 9ª na Aave. Seu poder de voto equivale a U$5.4M em tokens de governança.
Apesar de sua participação não ser assídua na Aave, Park Y atua constantemente na Maker DAO - uma das poucas com uma remuneração de seus delegados.
Em 2022, a LBS faturou somente ~U$5K trabalhando atuando como delegada. É um valor baixo, para a força de trabalho despendida na governança DAOs.
2. Universidade da Pensilvânia
A instituição fundou em 2017 seu clube de estudos focado em blockchain, o Penn Blockchain. Tem 5 anos de estrada trabalhando na web3 e 22 pessoas envolvidas no projeto. No fim de 2022, passou por uma reformulação e transformou-se na Franklin DAO: uma organização descentralizada financiada pela EduDAO, um desmembramento educacional da BitDAO.
O ingresso na comunidade é restrito a alunos, ex-alunos da instituição e investidores.

A Universidade da Pensilvânia é a mais poderosa na governança de protocolos DeFi. Através da Penn Blockchain e Franklin DAO, participa ativamente de 6 organizações.
O poder de voto do grupo na Maker e Aave supera delegados reconhecidos, como Hasu, GFX Labs, Flipside e Llama.
A conquista desta influência é consequência de sua participação na governança, somada a boa comunicação com os holders que delegam seus votos a universidade votos. Esta métrica é mensurada pela Maker, para calcular a compensação de seus Delegados Reconhecidos.
Consequentemente, foi a universidade que mais faturou como Delegada em DAOs. Unindo a remuneração paga pela Optimism e Maker, recebeu U$54K em 2022 exercendo esta atividade.
É incerto quantas pessoas são atuantes somente na governança de protocolos, mas os dados mostram a assertividade na estratégia adotada pela Penn Blockchain/Franklin DAO.
3. Universidade de Chicago
Uma das mais recentes iniciativas estudantis criada por estudantes da universidade, a Chicago DAO nasceu em 2022. Une estudantes de MBA e graduação para trabalhar no cripto-mercado
A a16z é uma das maiores apoiadoras do projeto, custeando iniciativas desenvolvidas pelo grupo, junto da EduDAO.
Seu roadmap prevê a criação de times de trading, participação em conferências, captação de recursos para financiamento de projetos de estudantes e a contribuição em DAOs.

Ambiciona ter uma estrutura semelhante a de uma organização descentralizada, com propostas e votações de seus membros, mas ainda está galgando seus primeiros passos.

Graças a influência delegada a ela, a Chicago DAO tem voz para apresentar propostas na Uniswap, Compound, Maker e Aave. Ao total, são U$19.1M delegados a universidade - a maioria, proveniente dos 2.5M de UNI.
Devido a sua pouca participação e má comunicação na Maker, a única das organizações em que atua com remuneração para delegados, não obteve nenhuma compensação financeira por seu trabalho realizado nas DAOs.
4. Universidade de Columbia
Instalada em Nova York, uniu estudantes para formar o Blockchain at Columbia. Recentemente, criou sua própria organização descentralizada. a Lion DAO.
Tem uma das governanças mais organizadas entre as universidades. Os holders de LION podem votar e apresentar propostas para gastar o tesouro da DAO. Todos os estudantes da universidade tem direito a 10 LION, o mínimo para submeter ideias na governança da organização. O tesouro da Lion DAO guarda U$85K.
Apesar da estrutura descentralizada, há 10 meses não ocorre uma votação na DAO e sua atuação como delegada é centralizada em determinados membros.
Enquanto a Blockchain Columbia possui 18 participantes, a Lion DAO conta com 132 holders de LION.
Adrian Zembsch, co-fundador da Lion DAO e analista na Galaxy Digital, é o responsável pela sua atuação como delegado em organizações.

O clube recebe U$28.19M de delegação de 6 DAOs diferentes. Destaca-se aqui, sua influência na Aave - 5ª maior - e dYdX - 2ª maior.
Mesmo com tanto poder nas governanças, a Blockchain Columbia/Lion DAO não faturou nada contribuindo como delegada para as organizações. Dentre aquelas que atua, somente a Maker paga um salário para os delegados - e ela não fez jus ao recebimento da compensação.
5. Universidade da Califórnia, em Berkeley
O grupo de estudos focado em web3 foi fundado em 2016. Detém uma estrutura centralizada, prestando serviços relacionados a blockchain para empresas tradicionais, como Airbus e Amazon, bem como para protocolos web3.
Há consultorias, pesquisas, criação de conteúdo educacional e uma parceria com venture capitals para acelerar cripto-projetos. + de U$400M foram captados para 85 empresas.
Além da vertente empresarial, há uma presença forte em DAOs, com um time liderado por Deven Mathews para trabalhar na governança de cada uma delas. Todo o trabalho da Blockchain at Berkeley é executado por seus estudantes, que conta com 67 pessoas participando ativamente.

U$22.88M em tokens de governança são delegados para o grupo contribuir nas decisões de protocolos DeFi.
Apesar de sua influência ser uma das menores na Maker DAO, ela conseguiu faturar mais do que muitos outros delegados na organização. Em 2022, ganhou U$14.587 por sua contribuição. Assim como a Penn Blockchain, a boa comunicação e a participação assídua na governança são pontos vitais para o recebimento de compensações financeiras.
6. Universidade da Califórnia
Criado em 2017, o grupo de estudos representa a Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Muitos de seus ex-alunos fundaram companhias proeminentes no cripto-mercado, como Metamask, zkSync, Consensys e Frax Finance. O co-fundador da Frax é CEO do clube da UCLA.
Com uma estrutura empresarial, é formado por alunos, ex-alunos e professores da universidade. Além de sua atuação como delegada em DAOs, realiza cripto-conferências, auxilia projetos de estudantes a levantar capital e possui iniciativas educacionais/acadêmicas sobre blockchain.

A UCLA tem participação em 4 organizações: Uniswap, Compound, Aave e ENS. Entre as universidades, é a única com poder de voto na ENS DAO e a com maior influência na Uniswap - comparando-a com outros delegados, fica na 13ª posição. Ao todo, seu poder de voto equivale a U$30.53M.
Mesmo com uma bag de votos na Uniswap, a UCLA não recebeu nenhuma compensação pelo trabalho desempenhado na governança das DAOs.
7. Universidade de Michigan
O grupo de estudantes voltado à blockchain nasceu em 2018. Já tem mais de 50 pessoas contribuindo no grupo de estudantes focado em blockchain. Presta consultorias, realizada pesquisas e cria conteúdo sobre web3 para toda a universidade e comunidade externa.
Contribui na governança de DAOs, atuando como delegada na Uniswap, Aave e Compound

Seu poder de votos nas DAOs equivale a U$28.55M. Destaque para seu poder de voto na Uniswap e Aave, onde é a 18ª e 7ª membra com maior nº de votos, respectivamente.
Não recebeu nenhum tipo de remuneração pelas organização onde contribuir, exercendo suas responsabilidades como delegada de maneira gratuita.
8. Harvard
A universidade também tem seu grupo de estudos sobre blockchain. Diferentes de outras instituições, o curso de Direito é o responsável pela sua participação em DAOs. O Harvard Law School ou HLS é composto somente por juristas e ficou conhecido por propor a criação do DeFi Education Fund.
Sua proposta foi aprovada e financiou um grupo com U$20M para formular políticas amigáveis a cripto e fazer lobby no Congresso. Houve até polêmica, pelo DEF ter dumpado 500.000 UNI em troca de USDC.

A participação dos estudantes de Harvard na Uniswap é reconhecida na comunidade, mas muitos criticam seu posicionamento pró-regulação. 1.6M de UNI - ~U$9.98M - são delegados a eles. Desde sua última votação na Uniswap, perderam ~85% dos votos, provavelmente devido a impopularidade da proposta e demora na estruturação do DeFi Education Fund.
Como o mínimo para submeter ideias na governança é 2.5M UNI, a Harvard Blockchain sequer consegue apresentar projetos na DAO.
Entre os participantes do HLS, estão Anne Brades, membra do Core Team, e Scott Kominers, professor de Harvard e conselheiro do grupo. Ambos trabalham na a16zrypto. Além deles, 19 estudantes contribuem ativamente no grupo de estudos.
Por atuar como delegada somente na Uniswap, a Harvard Law Blockchain não recebe nenhuma compensação por sua atuação, porque a DAO não remunera seus delegados.
9. Stanford
O grupo de estudos de Stanford é o mais antigo dos clubes: existe desde 2014. Criado e gerido de forma centralizada até 2022, transformou-se numa DAO recentemente, a Tree DAO. Apesar da mudança, continua restrito a estudantes e ex-alunos da universidade, com poucas informações sobre o funcionamento da sua governança.
Seus objetivos consistem em levar conceitos da web3 para Stanford, acelerar projetos idealizados na universidade e participar da governança de DAOs.

Sua atuação como delegada é tímida, perto de suas concorrentes: somente possuí poder de voto na Aave e Uniswap. A influência da universidade representa U$16.21M em capital.
As atividades de Stanford na governança de organizações é liderada por Andrew Hall, professor de Ciência Política na instituição.
Semelhante a Harvard, a compensação financeira pelos trabalhos da Stanford Blockchain é 0. Desde o início de sua participação como delegada, não recebeu qualquer remuneração por contribuir nas DAOs.
10. Universidade Purdue, em Indiana
Reúne estudantes para interagir com cripto-projetos desde 2021. Sua participação na web3 visa incentivar seus alunos a ingressar no mercado, realizando hackathons, custeando despesas para conferências e conectando-os a DAOs.
Seu poder na governança de organizações descentralizadas não é difundido entre vários protocolos - como a Univ. Pensilvânia -, mas concentra num único projeto: dYdX.

Com nº de votos equivalente a outras universidades, o grupo detém 2.5M de DYDX delegados a sua carteira, figurando entre os 5 delegados mais poderosos na governança do protocolo.
Semelhante a outros clubes, não obteve nenhuma remuneração por participar das discussões e votações na dYdX.
🔍 Comparando Modelos e Analisando Resultados
Independente da estrutura adotada pelos grupos de estudo nas universidades, é visível a importância que adquiriram dentro da governança das DAOs. Na Aave e dYdX, os clubes são mais influentes que muitos dos delegados das organizações:

O dYdX é comandado por grupos estudantis: 4 dos 8 Delegados Reconhecidos são clubes de universidades, ou seja, ~37% dos votos da DAO são dos estudantes.
Entre todas as instituições, a Universidade da Pensilvânia é a mais poderosa. Sua influência em múltiplos protocolos e sua preponderância na Maker DAO são notáveis.
Abaixo, mensuramos o poder de cada universidade dentro das DAOs, excluindo os votos de delegados “convencionais” e comparando umas com as outras.

Com tantos votos em projetos multimilionários, a questão é: quem os delega para as universidades?
Majoritariamente, os próprios protocolos.
Compound, Aave e dYdX delegam parte de seus tokens para universidades que pediram para participar na governança das DAOs. Esta requisição, é normalmente realizada através de pitchs no fórum de cada organização. A única variável entre elas é a quantidade de influência delegada.
Na Uniswap, a a16z é responsável por dar poder a todas as universidades. Além de sua bag de 15M de UNI, possui carteiras que guardam 24.45M de UNI. Ao todo, a Andressen Horowitz detém U$246M em tokens da Uniswap. Em 2021, o fundo iniciou um programa para fomentar a participação de universidades em DAOs, justificando essa distribuição de influência entre as instituições.
Já na Maker e Optimism, a delegação é orgânica. Holders individuais delegam votos para as universidades, prezando mais pela qualidade de sua participação na organização. Ao contrário de outros protocolos, a ideia aqui é eficiência, e não somente fomentar o ingresso de estudantes na governança das DAOs.
A Universidade da Pensilvânia recebeu salários por sua participação em DAOs desde abril de 2022. Seu 1º pagamento foi de U$16. Desde então, melhorou sua performance na Maker e ganha ~U$8.000/mês por ser delegada na DAO. Em complemento, recebe da Optimism, que possui um programa de compensações para delegados.
Somente as universidades da Pensilvânia, Columbia e Londres receberam remunerações de protocolos.
Com uma baixa remuneração, qual a motivação para estudantes gastarem seu tempo nessa atuação?

Comentário de Nicholas Harness, um representante da Aliança das Universidades na Blockchain.
De acordo com Nicholas Harness, fundador da Aliança das Universidades na Blockchain, a compensação dos estudantes é realizada através da influência delegada para os grupos de estudo. Segundo ele, o trabalho dos clubes na governança de protocolo serve para:
- Prover o 1º contato dos estudantes com a cripto-indústria.
- Dar voz à academia dentro das DAOs.
Assim, a participação nas organizações não visa obter salários para os estudantes, mas criar conexões entre instituições de ensino, alunos e DAOs.
No Brasil, não há nenhuma universidade participante em organizações descentralizadas. Há uma diversidade étnica nos grupos de estudo, mas há uma predominância de instituições dos EUA: das 10 analisadas, somente 1 é de fora da terra do Tio Sam.
Há um interesse em representantes brasileiros, para trazer maior diversidade à tomada de decisões nas DAOs.
Se você tem interesse de fundar um grupo de estudos focado em blockchain, e busca participar de uma DAO, essa pode ser sua chance de se tornar o 1º num terreno ainda inexplorado por universidades brasileiras.