Paradigma

🤯 A Farsa Das Stablecoins - pt.2

Descobrindo quem são os principais atores na pirâmide de emissão de criptodólares lastreados.

Na parte 1 dessa pesquisa 1, exibimos a centralização da USDD. E mostramos como Justin Sun imprime dinheiro usando tokens que ele mesmo crioucomo garantia. 

Agora, mostraremos que Justin não foi o primeiro a fazer isso. E que quem veio antes dele vem aperfeiçoando a prática, faz tempo, bem debaixo dos nossos narizes.

👶 O Despontar Das Stablecoins Lastreadas

No começo de 2018, começaram a despontar stablecoins colateralizadas por dinheiro em conta ou equivalentes (commercial papers, títulos, etc).

A ideia é simples: uma pessoa deposita um dólar numa conta e ganha o direito de emitir um token pareado a este dólar. Caso queira sacar a grana, envia as stablecoins para um endereço, onde a emissora “queimá-os”, e resgata o proporcional em moeda fiduciária.

Dois projetos se destacaram nesta época: TUSD e HUSD. O TrueUSD é um criptodólar lançado em 2018 pela Trust Token e a HUSD é uma stablecoin emitida pela Huobi. Ambos surgiram num mercado dominado pela Tether, e com quase nenhum concorrente.

Nos primórdios da TUSD, algumas entidades a utilizaram em escala: Binance, Alameda Research e Bitrrex.

O antigo hedge fund de SBF foi o endereço que mais queimou a stablecoin naquela época, ~U$14M.

Em contrapartida, a corretora de CZ foi uma das que mais recebeu TUSD em 18/19.

Os dois endereços que mais mintaram a stablecoin na época contabilizavam U$199M. Ambas as carteiras estão associadas a Binance, enviando todo o saldo impresso de TUSD para a corretora de CZ, evidenciando que ele aceitou o criptodólar desde os seus primórdios. 

Após a substituição do contrato da stablecoin, a ordem da Trust Token para os holders era trocar o token velho pelo novo, mas o time de research da ChainArgos percebeu um padrão: a medida que o supply da TUSD “antiga” diminuía, a capitalização de mercado da HUSD aumentava. E este fluxo de dinheiro vinha dos mesmos endereços.

O objetivo de quem queimava TUSD era mascarar o seu emissor original, imprimindo HUSD para conseguir continuar neste fluxo até chegar na Tether.

O crescimento da capitalização da USDT coincide com a queima de stables menores. Via ChainArgos

A USDT era o objetivo almejado por quem emitia stables como TUSD/HUSD. A ideia era queimá-las para chegar na stablecoin emitida pela Tether.

As barras azuis indicam a queima de stablecoins e as barras verdes a emissão. Havia uma recorrência na queima/emissão constante de HUSD, que vinha através de TUSD enviado para a Huobi. via ChainArgos

O objetivo era mascarar a origem do dinheiro, diminuir a capitalização de mercado de competidores, e sacar moedas fiduciárias onde realmente existiam garantias.

Mas isso é só o começo da história.

💰 Liguem As Impressoras

Em 2020, a Trust Token mudou de nome para Archblocks e foi adquirida pela Techteryx, um “conglomerado asiático”.

Existem poucas informações sobre a empresa - algumas delas bem estranhas -, mas tudo indica que é apenas uma fachada usada por Justin Sun para comprar a emissora da TUSD. No passado, ele utilizou a mesma estratégia para adquirir a Bittorrent.

Com a HUSD e TUSD em mãos, Sun escolheu a mesma jurisdição para fixar as empresas responsáveis por sua emissão: Nevada. Graças a regulações mais brandas com relação a KYC/AML, o Estado era amigável à máquina de dinheiro de Sun.

Após um tempo, a Huobi passou a responsabilidade de emitir a HUSD da Paxos para a Stable Universal, uma empresa chinesa sediada em Hong Kong.

Junto da aquisição da TrueUSD pela Techteryx, ficou claro que Justin Sun quis mover suas stablecoins para empresas offshore, visando evitar regulações mais rígidas.

As exigências mais rígidas dos bancos usados pela TrueUSD poderiam ter minado o crescimento da stablecoin, mas não o fizeram. Signature, Silvegate e Prime faturaram dezenas de milhões de dólares com a impressão de criptodólares. Faturando tanta grana assim, o incentivo para barrarem as operações era minúsculo frente a lucratividade de seus negócios. .

Com todas as condições ideais para imprimir dinheiro, TUSD e HUSD foram emitidas aos bilhões nos anos subsequentes, por alguns poucos endereços: Justin Sun, Alameda Research/FTX e Binance.

Comecemos com a HUSD:

A ChainArgos mapeou endereços na Ethereum com maior quantidade de emissão e resgate da HUSD. IU$3.7B são referentes a emissões da própria Huobi. A Paxos vem em segundo com U$3.2B. A Alameda imprimiu U$2.1B. A Binance, U$107M.

Quando observamos quem queimou mais HUSD, emerge uma semelhança.

U$4.03B de HUSD foram queimados na Huobi. (U$2.5B foram queimados pela Binance. U$1.9B pela Alameda. Curiosamente, a Amber Group também queimou muita HUSD: ~U$109.9M.

O fluxo da Huobi e Alameda sugere um padrão dequeima e emissão recorrentes, para sacar dinheiro “de verdade” em contas bancárias e/ou transformar em USDT, para fazê-lo na Tether.

No fim de 2022, próximo ao crash da FTX, a HUSD perdeu sua paridade com o dólar. A Huobi delistou a stablecoin e parou de usá-la como par para negociações na corretora. Agora, seus principais pares são negociados em TUSD.

Tratando-se da TUSD, os números mudam, mas os atores continuam os mesmos.

Analisando emissões acima de U$100M na Ethereum, chegamos a 12 endereços. Apesar da aparente diversidade, a impressão ainda é basicamente duopolizada U$2.67B foram emitidos pela Alameda, e U$1B por Justin Sun.

Em abril de 2021, a stablecoin começou a também ser emitida na Tron.

U$2.16B foram mintados por endereços com relação direta ou indireta com Justin Sun, e U$1.9B de uma carteira da Binance que também mintou U$3.8B de USDD. A Alameda também emitiu TUSD, mas “apenas” U$540M - demonstrando sua preferência pela Ethereum.

A princípio, o endereço da Binance na Tron parecia ser usado unicamente por Sun, mas dada a adoção da corretora de CZ pela TUSD, é possível que haja um compartilhamento do endereço entre Sun e CZ.

Em relação à queima de stablecoin, Justin Sun resgatou U$1.3B, o hedge fund de SBF "torrou" U$644M. Perceba a semelhança entre a quantia mintada e queimada por Sun e Alameda - não é por acaso.

Em 2021/22, apenas Sun e a Alameda mintaram a TUSD, ~U$1.5B.

Contudo, em 2023, a Binance emitiu seus U$1.9B - U$1B num único dia. Nos últimos meses, a Binance abraçou o TUSD como seu principal criptodólar, usando-o como solução para o fim da BUSD, sua antiga stablecoin. Devido a problemas regulatórios, a Paxos parou de emiti-la, obrigando a Binance a abandonar o projeto e cair de cabeça no criptodólar de Justin Sun.

Esta prática de imprimir centenas de milhões de dólares duma vez só também foi usada por Justin Sun e Alameda, com Sun emitindo U$610M nos primeiros 15 dias de maio de 2023 e a Alameda mintando U$540M na primeira quinzena de jun/22.

A diferença deles em relação a Binance é que queimaram seus TUSD dias após mintarem centenas de milhões de dólares na TrueUSD. O motivo? Gerar moedas mágicas com um valor pareado ao dólar e sacar dinheiro de verdade em bancos americanos.

A Binance também realizou algumas queimas do criptodólar, mas insignificantes diante do valor emitido pela corretora, demonstrando seu objetivo de holdar a stablecoin.

A capitalização de mercado da TUSD teve um salto no mês de junho, graças ao U$1B de TUSD emtido pela Binance. Perceba como o volume negociado da stablecoin aumentou em 2023, retornando aos níveis de 2019/2020. 

A demanda da Binance por TUSD, somada a impressão de U$1.2B da stablecoin por Sun em 2023, pumpou sua capitalização de mercado, tornando-a a quinta maior da criptosfera. Este crescimento demonstra que há mais stablecoins sendo emitidas do que queimadas.

😟 Nem Tudo Que Reluz é Ouro

Toda stablecoin colateralizada por dinheiro ou equivalentes é auditada regularmente por um terceiro contratado por seu emissor. Ele é responsável por analisar as reservas do criptodólar e atestar sua colateralização.

A Archblocks fornecia atestações dos colaterais da TrueUSD e dizia quanto cada instituição detinha em suas contas. via ChainArgos

Desde 2019, a Archblocks/Techteryx usavam o Trust Explorer, uma ferramenta para exibir as reservas de cada token lastreado a moedas fiduciárias emitidos por ela. Eram exibidos os saldos nas contas bancárias das instituições parceiras da emissora do criptodólar. Para o TrueUSD, utiliza o Prime Trust, Signature, First Digital, Capital Union e Bitgo.

O Signature e Prime Trust são bancos amigáveis a cripto que tem relação direta com o crescimento das stablecoins colateralizadas por dinheiro. Ambos tinham escritórios em Nevada, usados por empresas do criptomercado. Em 2023, os dois fecharam as portas.

A pressão americana sobre o criptobancos levou a Archblocks a levar seu capital para bancos offshore: o Capital Union (Nassau) e First Digital (Hong Kong).

Até o começo de 2023, era possível saber quanto cada banco detinha em suas contas. No entanto, esse cenário mudou com a adoção de um novo sistema de auditoria, oferecido pela The Network Firm.

Ano passado, após a implosão da FTX, auditoras da corretoras foram duramente criticadas por não apontar os problemas internos da empresa. Uma delas é a Armanino. Após o caos com SBF, a auditora decidiu não oferecer mais serviços de auditoria para o criptomercado.

Contudo, funcionários da Armanino resolveram pedir as contas e abrir sua própria empresa de auditoria cripto, a The Network Firm. Adivinha quem resolveu escolhê-la como auditora para sua stablecoin?

Sim, a TrueUSD. No primeiro semestre de 2023, a The Network Firm passou a auditar as contas da TUSD, mas sem disponibilizar as mesmas informações que sua antecessora.

Hoje, só há um relatório que “garante” o colateral, e um gráfico comparando o número de TUSDs mintados ao dinheiro disponível nas contas das instituições.

Além disso, a Archblocks entregou integralmente a TrueUSD para a Techteryx.

Apesar do conglomerado asiático (Justin Sun) ter comprado o projeto em 2020, somente tomou posse das operações em julho deste ano. Com isso, a Archblocks delistou o criptodólar de seu site, mantendo somente outros tokens: TAUD e TGBP.

Em suma: confiança do mercado na colateralização da TUSD passa por uma empresa composta por ex-auditores da FTX/Alameda. Que era a principal "cliente" da moeda até pouco tempo.

Se você acha arriscado a maior corretora do mundo - Binance - usar uma stablecoin com uma história tão escusa, tem razão. Porém, CZ não parece ter a mesma opinião. Há semanas atrás lançou seu próprio criptodólar,com um dos parceiros da TrueUSD.

A FDUSD é um criptodólar emitido pela First Digital Labs, subsidiária da First Digital, empresa em Bahamas responsável pela custódia do dinheiro que colateraliza a TUSD. A First Digital também cuidava da THKD, stablecoin pareada ao yuan, mas descontinuou o produto após a finalização do negócio entre a Archblocks e Techteryx.

No dia 26 de julho, a Binance listou os pares de BTC e ETH com a FDUSD, oferecendo taxa 0 para os traders que utilizassem a nova stablecoin. No entanto, as negociações nos pares foram pausadas no mesmo dia, por problemas técnicos, mas retomou-as no dia 4 de agosto.

Em paralelo a adoção da TUSD e FDUSD por CZ, a Binance fechou todas suas posições em USDC e começou a sacar centenas de milhões de dólares em USDT, colocando à prova as reservas da Tether. Entendeu a jogada?

Sun e o CEO da Binance estão numa coalizão para ganhar participação no mercado de stablecoin e disputar diretamente com Circle e Tether. Assim, a TUSD e FDUSD serão novos criptodólares da Binance e servirão para Justin Sun inserir ainda mais liquidez no mercado.

No último ciclo, a emissão de stablecoins de cunho duvidoso trouxeram a liquidez necessária para começar o bull market. Após a limpa no mercado de 2022, este gênero de criptodólar pode estar voltando.

É importante lembrar que muita coisa mudou desde 2018/2019. O market cap dos criptodólares foi de ~U$3B para U$125B. É preciso de muito mais dinheiro, hoje, para mover os mercados. Mas não devemos subestimar o poder dessas máquinas de imprimir dinheiro. Nem as jogadas de CZ e Sun: ambos são habilidosos e já sobreviveram a múltiplos ciclos para contar a história.

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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