💡 6 Coisas que Que Você Precisa Saber Sobre a Ethereum 2.0
As fases da migração. As coisas com que você deve se preocupar. E aquelas que não estão em pauta.
A Ethereum nasceu de um paradoxo.
Uma de suas bandeiras era o paradigma de Proof-of-Stake — idealmente capaz de encarecer o custo de ataque à rede sem diminuir a eficiência de capital da mineração.
Mas o PoS presume a oferta relativamente bem distribuída de um ativo nativo, que possa ser aplicado (staked) — ETH, no caso.
E não dá pra distribuir um ativo… através de um mecanismo que supõe que ele já existe.
Em outras palavras: o PoS pode até funcionar como "mecanismo de consenso"; mas não serve como mecanismo de distribuição.
Portanto, a Ethereum foi bootstrappada através do Proof of Work — no qual se recebe moedas em troca de um investimento de energia + equipamento — , e agora, em 2020, dá os primeiros passos concretos na sua tão aguardada migração para o Proof of Stake.
Como evoluíram as narrativas da Ethereum ao longo do tempo? Fonte: Paradigma
1. Não Vai Ser da Noite pro Dia 🌠
A transição para o Proof-of-Stake decorrerá em fases. Algumas delas se sobrepõem. A distinção é conceitual.
Na incepção da Ethereum, este processo todo tinha um só nome: Serenity. Era assim que se chamaria a versão "final" (2.0) do protocolo.
Pra começar, validadores serão "embarcados" na Ethereum 2.0 fazendo um depósito de 32 ETH no contrato que foi lançado recentemente, ainda na cadeia de blocos atual. Isto já está acontecendo.

Estes 32 ETH ficarão “presos” nesse contrato por ~2 anos, a um retorno previsto de ~5–7% a.a., e podem ser perdidos (“slashed”) se o validador não estiver devidamente online/atestando blocos aos quais for designado.
- Fase 0: assim que este contrato atingir um número mínimo de ETH depositados, a "beacon chain" terá início. Pense nela como um mecanismo que sorteia validadores para produzir blocos. No seu estado gênese, serão incluídos os validadores que se predispuseram desde agora.
- Fase 1: shards são adicionadas. Elas só tem a capacidade de hospedar dados, mas não de executar transações.
- Fase 1.5: mineradores da Ethereum 1.0 perderão a função. Serão substituídos por validadores da "beacon chain".
- Fase 2: as shards ganharão a habilidade de executar transações nativamente. Tudo o que aconteceu até hoje na Ethereum 1.0 deve ser transportado para a nova cadeia de blocos, neste momento, como uma única shard.

As fases da migração para o 2.0. Fonte: @Trent_vanepps
2. O Usuário Comum Não Precisa Fazer Nada ✋
As aplicações mais populares da Ethereum não devem sofrer absolutamente nenhuma alteração (derivada do processo de migração), pelo menos até a fase 1.5.
⚠️ Qualquer tentativa de te fazer "migrar ETH" manualmente, ou coisa do tipo, é muito provavelmente um golpe.
Você não vai precisar fazer isso em 2020. E é quase certo que em 2021 também não.
Quando chegar a hora, cada aplicação vai escolher um caminho. Estes ainda não estão nem padronizados. É bem possível que carteiras como a MetaMask cuidem de tudo para seus usuários. Relaxe, você vai ficar sabendo.
3. Não Vai Ter 2 Tipos de ETH… ou Vai? 👥
Existe uma discussão em torno da possibilidade de que 2 tipos de ETH emerjam do processo migratório.
Entre a fase 0 e a fase 1.5, os ETH depositados no contrato de staking não serão resgatáveis. Especula-se que agentes de mercado se disponham a emitir IOUs ("notas promissórias") e até mesmo crédito contra tais ether.
O termo bETH (beacon chain ETH) alude a essa hipótese. Caso se concretize, bETH poderão ser negociados livremente (com um desconto), "burlando" a restrição de liquidez imposta pelo protocolo de migração.
A Fundação Ethereum rechaça a possibilidade — a última vez em que o ETH se "dividiu" deixou cicatrizes que doem até hoje. Mas é extremamente provável que tal "cisão" aconteça.
É importante lembrar que, se vier à tona, o bETH não é fungível em relação ao ETH, e deve envolver um bocado de confiança numa contraparte terceira.
Pode trazer à tona oportunidades interessantes de arbitragem, mas, via de regra, não é um ativo a se prestar atenção caso você esteja somente atrás de exposição ao upside do ether.
4. O Ether Pode Se Tornar Deflacionário 🔥
Tem-se associado a migração para o PoS com a possibilidade de que o ether se torne deflacionário. Mas tratam-se de coisas distintas.
A segunda remete a uma proposta (EIP 1559) que basicamente reforma o mercado de taxas na Ethereum. Está em discussão faz quase 2 anos, e, a julgar pelo humor da comunidade, tem chance concreta de ser implementada no próximo ano.
O momentum por trás da proposta ganhou força durante o Verão #DeFi. Em muitos dias, a soma das taxas transacionais pagas na Ethereum superou com folga a soma paga no Bitcoin.
Preço médio do GAS, na Ethereum (uma proxy para demanda transacional). Fonte: Etherscan / Messari
Uma consequência adversa disso é que, no Proof of Work “arroz com feijão”, quando as taxas superam o subsídio inflacionário, a segurança não aumenta, mas diminui.
A EIP 1559 tem uma série de peculiaridades. O efeito mais amplamente discutido é o de acarretar na queima de ETH.
Uma taxa transacional mínima seria instituída (variável de acordo com a demanda por espaço nos blocos da rede), e, em vez de direcionada aos mineradores, queimada. Assim, o incentivo para que estes mantenham blocos artificialmente cheios (para lucrar mais) inexiste.

Quantos ETH teriam sido queimados, nos últimos 365 dias, se a EIP 1559 já tivesse implementada? Fonte: Dune
O subsídio inflacionário continuaria existindo, claro, mas, em momentos de pico na utilização, a queima de ETH chegaria a anulá-lo — tornando a moeda potencialmente deflacionária.
A mudança incorreria uma melhora na experiência de usuário ao se enviar transações, mas também requer ajustes na interface da maioria das carteiras.
Mineiros ainda não são completamente a favor da ideia.
5. Tornar-se um Validador Não é Pra Qualquer Um ⚙️
Tornar-se um dos primeiros validadores da Ethereum 2.0 exige um compromisso caro. 32 ETH presos por um tempo indeterminado, sujeitos a imprevisibilidades técnicas e um alto custo de oportunidade (principalmente num bull market). O retorno depende diretamente da performance do nó que se coloca à disposição da rede.
Em outras palavras: ainda que no PoS a barreira de entrada seja menor do que no PoW, não é qualquer usuário que vai ser um validador da Ethereum 2.0.
O processo de onboarding para validadores da Ethereum 2.0. Fonte: Ethereum.org
Se você estava pensando em participar só pela diversão, deve reconsiderar a ideia (a não ser que seja um eth-lionário).
Dá pra conhecer o passo-a-passo e requisitos do processo em https://launchpad.ethereum.org.
6. Talvez Este Processo Nunca Termine 🛣️
É preciso ser franco: a Ethereum nunca cumpriu prazos decentemente. À época do lançamento da rede, a previsão era de que o upgrade "Serenity" (que englobava todas as mudanças descritas neste texto) acontecesse em 2017.
A data foi revisada múltiplas vezes. O próprio desenho desse processo migratório é recente (2018–19), e remete à atuação de Danny Ryan como "coordenador de release" informal dentro da Fundação Ethereum.
Conviva com a possibilidade de que as datas-chave da migração para a Ethereum 2.0 se estendam indefinidamente.