Paradigma

5️⃣ Padrões Clássicos

Conheça um conjunto de figuras gráficas que reflete a manifestação do comportamento humano nos preços: os chamados padrões clássicos.

No texto introdutório desta série, postulamos como um dos princípios da análise técnica é o de explorar o sentimento da massa do mercado. Essa mentalidade advém do paralelo entre a psicologia humana e padrões no comportamento dos preços, que se repetem independente do ativo e do tempo gráfico.

O conceito da existência e da repetição de determinados padrões nos gráficos se firmou como o maior pilar da análise técnica. Principalmente, ao introduzir uma filosofia de investir com completa indiferença com os fundamentos de um ativo, uma vez que as sinalizações de padrões fornecem uma vantagem suficiente para garantir uma estratégia vencedora. Neste sentido, pode-se considerar que todas as táticas que compõem o arsenal contemporâneo da análise técnica, sejam discricionárias ou sistemáticas, foram construídas por esta forma de encarar o mercado.

A literatura sobre padrões foi desenvolvida como uma espécie de colaboração inconsciente entre diversos investidores, ao longo da história. Não há um autor específico, apenas um conjunto de relatos sobre determinadas figuras que coincidiam entre si. O termo “clássico”, assim como as formações de candles supracitadas, faz referência (1) às origens supostamente de centenas de anos atrás e (2) à sua preservação ao longo do tempo, em que novas técnicas adaptam ou derivam das originais.

Mas afinal, quais são esses padrões? O que explicam a sua formação? Qual a confiabilidade deles?

Como veremos a seguir, as suas formações são diretamente ligadas aos conceitos da seção anterior. Em especial, ressaltamos como os padrões clássicos consolidaram uma ferramenta de análise técnica completa: indicam não somente a direção futura dos preços, como também um objetivo de patamar a ser alcançado (alvo) e um patamar de frustração (stop).

Sobre os resultados, é preciso ter em mente que a discricionariedade dificulta uma mensuração precisa. Os estudos de Thomas Bulkowski novamente fornecem uma boa referência estatística para diversos padrões, além dos clássicos. Eles corroboram que, em contraste com as formações de candles abordadas anteriormente, o uso exclusivo desses padrões como estratégia é viável, e muito utilizado até hoje.

Note: nem todos os padrões clássicos serão apresentados. Reunimos aqueles que possuem uma identificação mais objetiva e que são suficientes para representar os conceitos abordados. As imagens ilustrativas foram retiradas e adaptadas do Tradingspine. Apesar de haver inúmeros livros na literatura como referência desse conteúdo, “Technical Analysis of the Financial Markets” de John J. Murphy é tido como o principal.


1. Padrões de Continuação

Os padrões são comumente classificados pela forma que se relacionam à movimentação prévia. Os de continuação, como o nome sugere, denotam aqueles cuja sinalização é de continuidade do movimento.

A imagem abaixo sintetiza os 5 principais padrões de continuação, e suas contrapartidas espelhadas. Nossa ressalva costumeira é a mensagem para os leitores focarem e entenderem o racional de suas inferências, em detrimento a decorá-las.

Apesar de suas peculiaridades, em todos, a continuação da trajetória previamente estabelecida é motivada pela realização de lucros dos investidores, e como essa realização foi insuficiente para produzir um pivô inverso. Para entender, pense numa maratona: períodos de descanso são necessários para retomar a direção e impulsividade prévias. Estes períodos se caracterizam por movimentações laterais, ou contrárias à anterior, mas falham em demonstrar força - são "contidos".

Triângulos e Retângulos: lembra que o comportamento dos preços intercala períodos de tendência e de congestão? Triângulos e retângulos remetem a configurações específicas de congestões.

A similaridade entre eles é que a trajetória de topos e fundos prévia não é violada, em conjunto. No caso altista, em nenhuma instância há uma formação de fundos descendentes - na pior das hipóteses, é lateral. No caso baixista, não há uma formação de topos crescentes.

Quando se opera esses padrões, o alvo costuma ser a amplitude de suas figuras (representada pela distância de “1” a “2” da imagem), a partir do ponto em que a congestão é ultrapassada (representado pelo patamar “5”). O stop, por sua vez, costuma ser em alguma das extremidades da figura opostas ao rompimento (representadas pelos patamares “2” e “4”).

Bandeiras e Flâmulas: lembra que tendências são compostas por pernadas e correções? Bandeiras e flâmulas remetem a configurações específicas de correções, subsequentes a grandes pernadas. Apesar de similares as figuras anteriores, essas se diferenciam por um contraste mais óbvio com o movimento prévio. Neste caso, a dinâmica é de um impulso nítido, grande em magnitude e parabólico em inclinação (em alusão a um mastro, que inspira os nomes), seguido por figuras curtas em tamanho e em duração.

Em ambas, a preservação da força dominante prévia é inquestionável. O período é mais indicativo de um mero respiro, do que um descanso. O alvo é costumeiramente projetado pela amplitude do mastro (novamente a distância de “1” a “2”, a partir de “4”). A recomendação conservadora do stop é no extremo da figura (o patamar “3”).


2. Padrões de Reversão

O segundo conjunto de padrões, como o nome sugere, denotam aqueles cuja sinalização é de reversão do movimento prévio.

Para entendê-los, vamos introduzir alguns conceitos adicionais sobre tendências. Primeiro, postulamos como a sua existência é facilmente identificada através de topos e fundos direcionais. Contudo, nada foi dito sobre a sua força. Como podemos avaliá-la?

Em linhas gerais, o único “propósito” de uma tendência é continuar renovando máximas (no caso altista) e mínimas (no caso baixista). Esse é um requisito para que uma trajetória seja mantida. As inferências sobre a força de uma tendência recaem sobre o comportamento dos preços nessa “zona” de renovação.

Apesar de subjetivo, em uma tendência “forte” o ativo não tem nenhuma dificuldade em renovar máximas e mínimas. Elas são rompidas com convicção e a movimentação seguinte é impulsiva e duradoura em relação às suas contrapartes (lembre-se da dinâmica de pernadas e correções). Neste sentido, as primeiras demonstrações de fraqueza são identificadas através de pernadas decrescentes e menos íngremes. Ou seja, uma máxima ou mínima é superada, porém a movimentação seguinte é menor que a última vez em que isso ocorreu. Essa dinâmica é extrapolada até que, em alguma das vezes, o ativo não terá mais capacidade de realizar essa renovação, e a tendência chegará ao seu fim. A força dominante se exaure.

Como veremos a seguir, os padrões de reversão são configurações específicas em que essa impotência se manifesta. A imagem sintetiza os 4 deles. Apesar de suas peculiaridades individuais, em todos a reversão da trajetória previamente estabelecida é motivada pelo esgotamento da força dominante, suficiente para produzir um pivô inverso. O contexto é análogo a um veículo ficando sem gasolina, em que tais padrões representam a ausência de combustível para continuar a trajetória vigente. O principal marco é que as movimentações demonstram fraqueza em uma região que, sob uma tendência sustentável, seria observado força.

Cunhas: este padrão de reversão é caracterizado por zigue-zagues na direção da tendência, mas com ímpetos diferentes. A movimentação é contida por duas retas de diferentes inclinações, que se afunilam. A figura representa o primeiro exemplo de enfraquecimento, em que a trajetória é mantida através de pernadas decrescentes. Os preços se “arrastam” em uma região que “deveriam” tomar impulso.

O alvo da cunha é a amplitude da primeira movimentação (medido pela distância de “1” a “2”) a partir do ponto que a figura é superada (o patamar “5”). A recomendação de stop conservador é na extremidade da última movimentação a favor (o patamar “4”).

Topo e fundo duplo, falhas de topo e fundo, e rompimentos falsos: estes padrões de reversão foram agrupados por serem essencialmente caracterizados pelo mesmo movimento - um zigue-zague lateral que fracassa em renovar um topo (em uma trajetória altista) e um fundo (em uma trajetória baixista), e na sequência perde o limite oposto. Uma ressalva é que os dois últimos não são descritos como formações clássicas, mas foram incluídos pela mesma razão do agrupamento.

Nos três casos, o alvo é a amplitude da faixa (a distância “1” e “2”), a partir do ponto que a congestão é superada (o patamar “4”). A recomendação de stop conservador é na extremidade oposta (o patamar “3”).

Vale ressaltar que, como os padrões de reversão indicam o início de uma movimentação contrária, os alvos podem ser alongados. Se uma nova tendência se materializar, a operação pode ser conduzida em função dela, conforme padrões de continuação ocorram.


3. Antecipações e Subjetividades

Acima foi apresentada a maneira literal de realizar as operações sobre os padrões clássicos: a abertura ocorre pela superação da figura, o stop pelo seu extremo oposto. Lembra dos rompimentos e dos recuos? Essa abertura recai sobre eles.

Uma terceira abordagem seria a opção de operar a antecipação do rompimento. Considerando que os padrões clássicos têm uma inferência de direção pré-estabelecida, esperar pela superação pode ser desnecessário. Essa abordagem agressiva sugere abrir a posição uma vez que a figura é observada, em seus limites contrários ao rompimento teórico (por exemplo, no caso de triângulos e retângulos, no patamar “4”). Essa abertura, em especial, é um ótimo exemplo em que pode ser conciliada com as formações clássicas de candles, apresentadas anteriormente (observando-os no patamar adequado).

O triângulo descendente apresentado pelo bitcoin em 2018 ilustra três formações clássicas de reversão (localizadas na sua hipotenusa) que poderiam servir de entradas antecipadas na ponta vendedora.

Outro aspecto que o exemplo do bitcoin ilustra, é o caráter discricionário implicado por essas operações hipotéticas. Você pode estar se questionando: não há como operar sistematicamente os padrões?

Nas imagens de referência que utilizamos, a estrutura da figura era perfeita: os toques eram unidos por uma linha reta. Na prática, contudo, essa geometria é errônea. Note as ambiguidades sobre o “piso” do triângulo descendente acima: o primeiro toque ocorreu por uma sombra enorme; o segundo toque foi levemente acima do primeiro; o terceiro foi um fechamento abaixo dos anteriores. Por isso os pontos de referência são tratados como patamares de preço. Ainda, uma figura pode evoluir de forma que resulte em outra - o que impede um triângulo simétrico de se tornar um ascendente ou descendente? Ou bandeiras e flâmulas se tornarem retângulos?

Conclui-se que há muita subjetividade na identificação dos padrões. Uma maneira de diminuí-la é focar apenas naqueles em que a estrutura é bem definida - seja através de mais toques, ou maior linearidade deles. De qualquer modo, o importante é ter a consciência de que, na realidade, inexiste a exatidão postulada pela teoria.


4. Armadilhas e Frustrações

Como todo ferramental técnico, inferências de figuras falham inúmeras vezes. O máximo que extraímos delas é um viés probabilístico, e um método para explorá-las lucrativamente. Um questionamento que pode ser feito então é: como tratar os padrões que “dão errado”?

Resumidamente, há duas formas de isso acontecer, que condicionam a resposta.

A primeira é popularmente conhecida como armadilha: casos em que a figura é ultrapassada de acordo com a inferência (em termos mais genéricos, um suporte ou uma resistência é violado), mas logo em seguida retorna ao patamar prévio. O padrão de rompimento falso como apresentamos é uma forma de armadilha, no contexto de um retângulo. A reação óbvia de um trader operando a figura seria aceitar o stop, caso seja engatilhado, e seguir em frente.

A segunda violação ganha o nome de frustração: casos em que a figura é ultrapassada na ponta contrária à inferência. A reação óbvia de um trader operando a figura seria aceitar que o acionamento da posição não ocorreu, e seguir em frente.

Contudo, vale notar que ambos também representam eventos operáveis. Isso é: a própria violação do padrão pode ser categorizada como um padrão próprio, permitindo uma operação a partir dele. A ressalva é que, como não configuram a forma literal, representam abordagem “heterodoxa”.

A formulação de uma estratégia com tais pontos de partida sugere:

Estas são apenas referências. Há uma infinidade de estratégias que podem ser elaboradas. Cabe a cada trader desenvolver uma que funcione para si.


4. A Falácia do Volume

Volume é o indicador gráfico mais popular em análise técnica. A maneira padrão de expressá-lo é na forma de barras na parte inferior do gráfico de preços. Ele pode ser calculado de três formas:

A sua popularidade deriva de heurísticas de diversos autores na literatura. Charles Dow, por exemplo, postula que tendências são confirmadas pelo preço. Joseph Granville, alternativamente, postula que volume precede preço. O racional dominante é que o volume serve de proxy para a presença de grandes investidores, estes que são os principais responsáveis pelas movimentações de mercado, donos do chamado “dinheiro inteligente”. Analogamente, a ausência de volume indica indiferença do mercado, irrelevância. Desta forma, sinalizações produzidas por movimentações com alto volume são teoricamente mais confiáveis que as de baixo volume.

No contexto de padrões clássicos, o volume é muito utilizado como forma de auferir robustez às inferências. Tanto pré-rompimento, como pós. Com o intuito de prevenir armadilhas e frustrações, e consequentemente aumentar a rentabilidade do sistema, a confirmação do volume se torna um filtro adicional para a realização de operações.

Basicamente, há três formas para associar volume às estratégias supracitadas:

  1. A primeira, se refere ao volume no processo de formação das figuras. A premissa é de que um volume menor nesse período como um todo em relação a movimentação direcional prévia (que representa a força dominante) é um indicativo de que a trajetória será mantida.
  2. A segunda, se refere ao volume nas movimentações dentro da figura. A premissa é de que o volume das movimentações nesse período é um indicativo para o lado do rompimento. Se ele aumenta nos movimentos de alta, sugere que o rompimento será para cima. Se aumenta nos movimentos de baixa, sugere que será para baixo.
  3. A terceira, e mais popular, se refere ao volume no rompimento. A premissa é de que rompimentos com alto volume indicam maior a probabilidade de continuação do movimento. Rompimentos com baixo volume, indicam maior probabilidade de armadilhas.

Para referência estatística, novamente podemos recorrer a Bulkowski. Segundo os seus estudos, requerer um volume acima da média em rompimentos prejudica o resultado mais do que beneficia. Soma-se a esta evidência a indesejável dose extra de discricionariedade e complicação que a introdução do volume acarreta, e explica-se a razão pela qual muitos traders sistemáticos ignoram esse indicador por completo.

Lembre-se: cabe sempre a você determinar se uma ferramenta é útil ou não. Há exemplos de traders de sucesso que baseiam muitas de suas operações em indicadores de volume, assim como o contrário também acontece. Realize os seus próprios estudos e decida.


Finalmente, agora você conhece o ferramental clássico da análise técnica. Na próxima seção, apresentaremos a sua vertente objetiva. Ela traz as vantagens de mensuração exata dos resultados passados, assim como ajuda a prevenir o efeito de influências psicológicas prejudiciais.

Este artigo veio da assinatura Paradigma Pro

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