Paradigma

👀 5 Insights sobre o Hacktown

O festival de cultura e tecnologia nos mostrou as discussões relevantes atualmente na cripto-economia e até sobre o futuro da humanidade.

Santa Rita do Sapucaí, uma pequena cidade no interior de Minas Gerais, cedeu espaço para o Hacktown. O festival de 5 dias criado nos moldes do South by Southwest reúne tecnologia, inovação e cultura.

Com dezenas de palestrantes nos diversos painéis realizados simultaneamente na cidade, nós analisamos tendências vistas no evento e trazer insights a partir delas.

1) Aflora o interesse pela cena musical web3

Afonso Marcondes foi um dos palestrantes a falar sobre o cenário musical web3.

A utilidade dos NFTs para artistas monetizar seus trabalhos e diminuírem sua dependência de plataformas de streaming, bem como gravadoras, não é uma novidade para cripto-nativos.

E parece que este movimento está espalhando-se em terras tupiniquins.

Ao menos 5 palestras tratavam sobre músicas tokenizadas, ressaltando os benefícios dos royalties recebidos com a venda dos NFTs e a capacidade de construir um vínculo mais forte com fãs holders de colecionáveis digitais. Sejam empresas oferecendo marketplaces para negociações de músicas NFT, artistas ou empresários, todos estão vendo um horizonte neste setor.

Dentre as narrativas do cripto-mercado, o uso dos tokens não fungíveis para o ramo musical é uma das que ainda não ascendeu, com exceção do sucesso de protocolos como Audius e a venda de músicas de artistas reconhecidos no mercado.

Coopahtroopa, um reconhecido contribuidor em DAOs e evangelista sobre músicas NFTs, abriu um fundo de U$10M para investir somente neste segmento de tokens não fungíveis.

Panorama da Cena Musical web3. via Coopahtroopa.

Em 2020, a indústria da música faturou ~U$59.48B. 65% desta receita ganha de plataformas de streaming, principalmente Spotify.

Com a insatisfação dos criadores com a baixa remuneração da empresa aos artistas, a adoção da web3 para monetizar suas obras poderá aumentar o uso de protocolos neste segmento e da independência das pessoas de empresas centralizadas.

2) Realidades Virtuais Como Instrumento de Incentivo Cultural

O termo “metaverso” estava presente em muitas das palestras no Hacktown. Debates sobre sua utilidade, o porquê de sua existência e mecanismos para monetizá-lo foram realizados ao longo dos 5 dias de festival.

Mas uma aplicação desenvolvida por um pesquisador pernambucano chamou a nossa atenção.

A implementação de tecnologias para incentivar o aprendizado sobre a cultura nacional não é tema discutido pela comunidade cripto, porque entes governamentais responsáveis por ações como esta não demonstraram - ainda - interesse em promover este tipo de conteúdo educacional desta maneira.

Contudo, a ideia de Vladimir com sua pesquisa independente, procura tornar nossa história mais interessante para as novas gerações.

Seu projeto foca em criar versões animadas de estátuas do Circuito da Poesia, localizadas em Recife, Pernambuco. Deste modo, as representações de cobre de artistas como Clarisse Lispector, Manuel Bandeira e Ascenso Ferreira, ganharão vida e conversarão com os visitantes dos pontos turísticos.

O projeto é um beta para usar a mesma tecnologia em lugares históricos do Brasil inteiro.

Cidade Alta é um servidor brasileiro do GTA V Role Play, exclusivo para convidados e palco para patrocinadores como Brahma, Monobloco e Outback. É considerado um case de sucesso em mundos virtuais, no Brasil.

Outro ponto trazido pelo pesquisador é a possibilidade de monetizar pontos turísticos de cidades em mundos virtuais, vendendo espaços para propaganda ou interações personalizadas, assim como vistos no Decentraland ou Sandbox. A pergunta que fica: até que ponto é ético usar figuras históricas como mecanismo para atrair patrocinadores?

Ainda que embrionária, a ideia de Vladimir em construir mundos virtuais de lugares históricos brasileiras interligados entre pontos pode ser uma ótima forma de ensinar as pessoas um pouco sobre a cultura do país.

3) Tokenização de ativos reais

Um tema em alta entre os ouvintes das palestras no Hacktowm fora o uso da blockchain para ofertar e gerenciar ativos tokenizados lastreados a ativos reais. O assunto não é uma novidade, mas o potencial econômico de setores tradicionais não arranhou nem a superficie de seu potencial.

Dentre as aplicações discutidas, 2 destacaram-se entre as demais: a tokenização do mercado canábico, energia e startups. 3 pessoas afirmaram estar trabalhando com tokens lastreados a Cannabis, plantados em locais que legalizaram o uso medicinal e recreativo da planta.

Segundo os projetos, o objetivo é possibilitar uma exposição mais simples a este nicho mercadológico, mas sempre atendo-se as leis vigentes no país.

Empresários de outros setores do agronegócio também demonstram interesse em tokenizar plantações, para ofertar a investidores e captar recursos a fim de investir em suas localidades.

Vale destacar, um deles discutia a possibilidade de ajudar floricultures de Holambra, cidade famosa por suas flores, a tokeniza-las para conseguir atrair investimento e crescer seus negócios.

O grande problema em oferecer este tipo de instrumento para investidores são os riscos regulatórios. A oferta de tokens no formato de ICO - Initial Coin Offering - ficou eternalizada no bull market de 2017 e muitos das aplicações foram acusadas pela CVM americana por vender valores mobiliários a investidores sem autorização dos órgãos estatais.

Com a Comissão de Valores Mobiliários brasileira temos o mesmo empecilho.

No entanto, uma aplicação chamou a atenção: a SMU investimentos. A empresa desenvolveu uma plataforma de crownfunding para startups. Criada a partir de uma sandbox realizado pela CVM brasileira, a aplicação visa ajudar empresas recém-chegadas no mercado e prover um instrumento tokenizado para pessoas entrarem no começo da execução dos projetos, bem como negociar estas aquisições via mercado secundário.

Facilitando a captação de recursos para a startups, uma parte do capital é desbloqueado e torna-se acessível a todos, diminuindo a incidência de uso das burocracias formais do processo para investidores colocarem capital no projeto.

4) Sociocracia 3.0: uma solução para a governança das DAOs?

Representação gráfica do funcionamento de uma Sociocracia. Fonte: Harry Kaloudis

DAOs não foram um dos assuntos mais discutidos no festival, com muitos dos olhos voltando-se somente para realidades virtuais e NFTs.

Contudo, 1 palestra nos 5 dias de evento apontou uma solução curiosa para vários problemas nas organizações autônomas descentralizadas.

Os principais obstáculos na gestão de uma DAO atualmente são: centralização, baixa participação e interesse especulativo de investidores.

Na sociocracia, estas falhas podem ser limitadas. Numa diferente maneira de atingir o consenso, busca somente aprovar propostas aceitas por todos os membros da organização. Eles não precisam necessariamente concordar (ou gostar) das ideias, mas precisam assentir com sua execução. O consentimento de todos, valida a aprovação de um projeto e possibilita a sua implementação.

Para não esbarrar no consentimento entre todos os membros da DAO, a sociocracia estabelece a criação de círculos e sub-círculos - ou subDAOs. São comunidades ligadas umbilicalmente a sua criadora e trabalham em prol da organização principal, mas decidem de maneira autônoma e podem possuir seu próprio token de governança, caso haja necessidade.

Deste modo, as DAOs criam pequenos pontos de centralização nas subDAOs, mas delega aos mais envolvidos em determinadas áreas - Tesouraria, Marketing, Desenvolvimento - o poder de votar e a necessidade de consentir para valorizar a opinião das minorias.

Apesar do modelo de sociocracia parecer utópico, há organizações de olho há anos em aderi-lo. Rune Christensen, fundador da Maker DAO e contribuidor ativo na comunidade, é idealizador do End Game, uma espécie de objetivo final para a DAO. Nele, descreve sua intenção de subdividir a Maker em metaDAOs e criar governanças independentes, aumentando o interesse nas votações por seus membros e dando maior autonomia para as propostas serem implementadas.

A sociocracia é maneira diferente em organizar pessoas e a tomada de decisões, mas também tem problemas:

Não há uma resposta para estas e tantas outras questões. No entanto, realizá-las é fundamental para aperfeiçoar a sociocracia em DAOs e, talvez, encontrar um modelo mais sustentável dos encontrados nas organizações atualmente.

5) Quais são suas perspectivas para o futuro da sociedade?


Esse é apenas um fragmento das perspectividas de Marco Alberti para o futuro da humanidade.

O futuro da humanidade é incerto, mas podemos efetuar previsões com base no desenvolvimento tecnológico de nossa sociedade, correto?

Este é o pensamento do professor Marco Alberti. Num livro que será publicado no próximo ano, discorre sobre as inovações que surgirão nas próximas décadas e suas consequências na maneira como o homem organiza-se.

Atualmente, há 7 tipos de arquitetura computacional:

Serão décadas de evolução tecnológica para possibilitar o desenvolvimento de equipamentos compatíveis com estas arquiteturas - nós mal conseguimos usar a quântica ainda.

Eliminada esta barreira, o que o futuro nos reserva?

Segundo a teoria apresentada, o ser humano se distanciará cada vez mais do físico, transformando o digital na sua principal necessidade. Tudo aquilo que puder ser digitalizado o será, e os objetivos nativamente físicos, terão suas representações virtuais.

Essa virtualização da humanidade será acompanhada da melhoria da realidade aumentada, aperfeiçoando os mundos virtuais para interconectarem-se e serem usados com regularidade por todas as gerações.

Para atender os anseios tecnológicos do homem, Inteligências Artificiais serão melhoradas e treinadas para atuar diretamente com pessoas em realidades virtuais e será um componente vital para a manutenção dos serviços da sociedade.

Gradualmente, as IAs não serão mais treinadas, mas educadas. Esta educação será o ponto inflexão para a humanidade, porque poderá criar a 1ª AGI ou Inteligência Artificial Geral, capazes de realizar quaisquer ações executadas pelo cérebro humano.

Fonte: New York Magazine

Caso duvide da criação das AGIs, leia sobre o Midjourney e DALL-E e lembre-se: essas IAs foram desenvolvidas usando o tipo mais rudimentar de arquitetura computacional.

Em paralelo ao desenvolvimento das IAs, os criptoativos também florescerão pela facilidade em monetizar ativos digitais e pela utilização da blockchain para garantir a segurança das transações. Novas tecnologias de armazenamento distribuídos criadas com novos modelos de arquitetura computacional trarão mais resiliência aos registros, descentralizando as informações da rede.

O surgimento destas inovações permitirá a mudança de sistemas monetarários, questionando as autoridades vigentes e os modelos convencionais de organização da sociedade.

Assim como Balaji Srinivasan previu em The Network State, o conceito de nação será revisto e cidadãos serão unidos por interesses e objetivos comuns, criando comunidades on-line e botando em xeque governos estatais.

A computação continuará evoluindo em paralelo, possibilitando, em algum momento do futuro, a transferência de consciência. Superada a questão ética/moral da tecnologia, ocorrerão renascimentos e fusões com AGIs.

Com tantos avanços tecnológicos, o homem somente conseguirá manter sua humanidade através da permanência de valores na sociedade. Mesmo residindo numa multiplicidade de realidades alternativas com IAs e ativos intangíveis, será fundamental o ser humano conseguir mantê-los para não serem substituídos por máquinas e perder sua natureza.

Claro que, todos os fatos apontados pelo palestrante são somente previsões baseados nas suas pesquisas sobre tecnologia: mas olhando para o passado, pensar num futuro assim não parece tão impossível.

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