4️⃣ Anatomia do Comportamento dos Preços
Que história conta o gráfico de preços de um ativo? Quais forças condicionam como os preços se movimentam?
Uma das teorias popularizadas sobre o mercado é a sua natureza fractal – conforme proposto por Edgar Peters. Fractal, em geometria, caracteriza formas divisíveis em partes que replicam atributos do todo. A aplicação da teoria ao mercado sugere que preços em diferentes ativos e periodicidades se comportam de maneiras estruturalmente similares. Seja através de grandes ciclos, ou figuras em escalas ínfimas, os mesmos padrões observados em um fragmento (como um gráfico de 1 minuto), são replicados em maiores escalas (como um gráfico semanal). Ou ainda em outros ativos, datas etc.
A mensagem é que o comportamento dos preços possui uma organização estrutural própria, rodeada por conjunto de dinâmicas apresentadas abaixo.
Um sintoma da percepção pública errônea acerca da análise técnica, é o constante questionamento para traders: para onde o preço do ativo X está indo? Um profissional responderia que não tem a menor ideia, afinal, sua atividade não se propõe a prever o imprevisível. O objetivo é tomar decisões baseadas nas condições presentes, e ter uma metodologia de como tratar o futuro.
A pergunta correta deveria ser: o que o gráfico do ativo X está demonstrando, agora?
Apesar de envolver uma dose de interpretação, a resposta deve ser relativamente objetiva. Para isso, é possível estabelecer um protocolo de como avaliar graficamente um ativo, através de duas perguntas extremamente simples:
A. Qual força está em domínio: compradores, vendedores ou nenhuma?
B. Há obstáculos e proteções nas proximidades do preço atual?
Como veremos a seguir, os conceitos de tendência e congestão respondem “A”, enquanto os conceitos de suporte e resistência respondem “B”.
1. Tendências, Congestões e Consolidações
Uma das características mais notáveis no comportamento dos preços é a sua não-linearidade: alternam altas e baixas, em amplitudes e sequências diferentes. Independente da trajetória, nenhum ativo sobe ou cai indefinidamente.
Essa dinâmica, que desenha “zigue-zagues”, resulta na produção de “topos” (ponto máximo de uma sequência de alta) e “fundos” (ponto mínimo de uma sequência de baixa), locais.
A partir desse conceito, o comportamento dos preços pode ser definido, essencialmente, por dois estados antagônicos:
Tendência é aquele marcado pela direcionalidade: os preços se movem consistentemente em uma mesma direção. Este estado é estabelecido assim que um topo e um fundo forem mais altos ou mais baixos que o prévio - movimento que recebe o nome de pivô, de forma que:
- Uma tendência de alta é composta por uma sequência de topos e fundos ascendentes, iniciadas por um pivô de alta (“bullish”, pela terminologia americana popular, em alusão à chifrada de baixo para cima dos touros);
- Uma tendência de baixa é composta por uma sequência de topos e fundos descendentes, iniciadas por um pivô de baixa (“bearish”, em alusão à patada de cima para baixo dos ursos).
Uma tendência, assim, é observada quando os zigue-zagues de preço seguem uma trajetória. Estes que inclusive, recebem uma taxonomia diferente para este contexto: sob o estado de tendência, as movimentações em seu favor são tipicamente maiores (em tamanho e duração), denominadas “pernadas”; em contrapartida, as movimentações contra são tipicamente menores, denominadas “correções”.
Congestões e Consolidações, inversamente, correspondem ao estado marcado por uma movimentação não direcional dos preços. Essa ausência de direção, na maioria das vezes produz um deslocamento lateral, em que os preços oscilam dentro de uma faixa - cuja parte superior age como o topo; e a inferior age como fundo.
Os zigue-zagues, dessa forma, não seguem uma trajetória. O ativo fica “preso” dentro da faixa.
Apesar de comumente tratadas como sinônimos, há distinções na literatura quanto os conceitos de congestões e consolidações – a primeira, denotando uma movimentação mais caótica, ampla e duradoura; a segunda, denotando uma movimentação mais ordenada, estreita e breve (inclusive, podendo ser observada como uma forma de correção em uma tendência).
Assim, temos condições de responder a primeira pergunta do protocolo: o domínio da força compradora é identificado por uma tendência de alta; o domínio da força vendedora, por uma tendência de baixa; e a ausência de domínio, por uma congestão.
2. Inércia nos preços, uma heurística poderosa
A importância em distinguir se um ativo se encontra em tendência ou em congestão ocorre em função do componente inercial que, por via de regra, atua sobre todos os ativos, em todas periodicidades. Inércia, no sentido da movimentação recente no preço influenciar a sua movimentação futura, na mesma direção. Ou seja, um ativo em tendência de alta, tende a permanecer subindo. Um ativo em tendência de baixa, tende a permanecer caindo.
Essa heurística é justificada pela observação de que tendências se mantêm com mais frequência que se revertem. Assim, é estatisticamente vantajoso assumir que a trajetória em vigor continuará. Por essa razão, a maioria dos traders profissionais buscam operações a favor da tendência.
Como postulado por Charles Dow, considerado um dos pioneiros da análise técnica, uma tendência é válida até que revertida. Antecipar o seu fim - tentando achar topos em uma tendência de alta, e fundos em uma tendência de baixa - é uma pretensão irracional.
A pressão direcional imposta pela tendência é para ser aproveitada, e não combatida. Neste sentido, a premissa de inércia nos preços condiciona a estratégia que será utilizada para cada contexto.
3. Suportes e Resistências
Além dos zigue-zagues, uma outra dinâmica no comportamento dos preços é a formação de regiões de múltiplos contatos, em que as forças do mercado se concentram:
- Suportes são patamares de preço em que quedas foram repetidamente rejeitadas, como uma região defendida pelo exército dos comprados.
- Resistências são patamares de preço em que altas foram repetidamente rejeitadas, como uma região defendida pelo exército dos vendidos.
Para entendê-las, uma maneira fácil é encarar o mercado como uma guerra constante entre compradores e vendedores. Sob esta analogia, suportes e resistências são a representação de zonas em que cada exército se concentra - quando um oponente a visita, o exército entra em ação para defender o domínio do território em questão.
Como espera-se uma forte pressão de venda em resistências, a postura adotada por traders é de buscar operações vendidas nesta região, nunca compradas. Analogamente, como espera-se uma forte pressão de compra em suportes, a postura é de buscar operações compradas nesta região, nunca vendidas. Não se deixe enganar por sua simplicidade - essa conduta é extremamente poderosa.
O intuito é explorar essa dinâmica: posicionar compras próximas a regiões de suporte (utilizando-as como stop), e distantes à regiões de resistência (utilizando-as como alvo). O inverso, para vendas. Assim, maximiza-se a relação de risco e retorno: você garante uma assimetria positiva.
Por esses fatores, sinalizações produzidas em regiões de suportes e resistências ganham uma atenção maior – elas fornecem contexto ao gráfico. Como pontos importantes de “batalha”, o lado vencedor tende a direcionar o movimento seguinte dos preços. Uma confirmação muitas vezes observada de que um novo exército venceu a batalha e conquistou o território, seria produzindo uma resistência em uma área que era previamente suporte (e vice-versa) – a “virada” na imagem.
A imagem de cima, além de representar o estado de congestão abordado anteriormente, ilustra a forma mais habitual de tratar suportes e resistências: horizontalmente, como regiões fixas. Contudo, há uma variação inclinada do conceito onde os patamares de preço são dinâmicos, que recebe o nome de Linhas de Tendência.
- Uma linha de tendência de alta (LTA) representa uma região de suporte, crescente.
- Uma linha de tendência de baixa (LTB) representa uma região de resistência, decrescente.
O nome reflete a utilidade adicional que esta forma de suporte e resistência apresenta: a representação da impulsividade de uma tendência, através de sua inclinação.
Finalmente, temos condições de responder a segunda pergunta do protocolo: suportes e resistências equivalem a proteções e obstáculos para os compradores e à obstáculos e proteções para os vendedores, respectivamente. Portanto, a presença de obstáculos é identificada pela aproximação de uma resistência (no caso de uma trajetória de alta) e de um suporte (no caso de uma trajetória de baixa); a presença de proteções, pelo inverso.
4. Rompimentos e Recuos (“pull-backs”)
Recapitulando, agora temos uma noção básica de como os preços se comportam: intercalam períodos de altas e baixas que configuram tendências ou congestões, e produzem no caminho regiões de suporte e resistência que fornecem contexto ao gráfico.
Como tirar proveito disso? É possível segmentar duas abordagens para operar esses conceitos:
Rompimentos denotam operações que exploram a violação de um suporte ou de uma resistência, com o intuito de que este evento dará início a uma movimentação direcional. Congestões e consolidações, dessa forma, fornecem o contexto perfeito para esse tipo de operação. Quanto mais definidos, melhor. Para traders mais agressivos, um simples toque fora de uma zona de suporte ou de resistência é suficiente para abrir uma posição. Para traders mais conservadores, é convencional esperar o fechamento da primeira barra (ou de N barras subsequentes) que fuja notavelmente dessa zona, e seu respectivo acionamento através da superação de sua máxima (se for na ponta da compra) ou mínima (se for na ponta da venda). O stop, na abertura da posição, é usualmente colocado no extremo oposto da barra que deu origem ao rompimento.
A principal vantagem dessa abordagem é a garantia de que, se o rompimento iniciar de fato uma movimentação direcional, você estará dentro desde o começo. A desvantagem é que rompimentos bem definidos geralmente ocorrem através de barras grandes (como as “barras elefantes”, popularizadas por Oliver Velez), o que se traduz em um stop longo. Quando a barra que “rompe” é pequena, o posicionamento do stop em seu extremo facilita um cenário de acionamento indevido – em que é acionado pela volatilidade, mas logo em seguida retoma o movimento (configurando a famosa “violinada”).
Outro aspecto para se atentar em operações de rompimento é o movimento que o precedeu. Rompimentos “esticados” são aqueles que ocorrem após uma movimentação significativa na mesma direção, o que aumenta a probabilidade de uma correção subsequente. Afinal, lembre-se que os preços não se movimentam na mesma direção indefinidamente. Portanto, constituem uma forma de rompimento "indesejada". Por exemplo, a superação de uma resistência após cinco (ou mais) dias consecutivos de alta, com barras amplas, “pede” por um “descanso”.
Recuos (ou “pull-backs”) denotam operações que exploram movimentações contrárias ao rompimento imediato, enxergando-as como uma oportunidade para “pular no barco” a um preço mais acessível.
Recuos após rompimentos são uma dinâmica muito observada, que representam uma espécie de “fôlego”. Dentre elas, duas configurações específicas se destacam:
- Re-testes são os recuos em que os preços voltam para o patamar rompido, testando-o na ponta contrária. Estes, como consequência, produzem as viradas de suportes para resistências, e vice-versa (como ilustrado na primeira imagem desse texto). Esta forma é mais conservadora pois a “virada” supracitada é uma confirmação adicional de que a direção do rompimento será preservada, contudo exige paciência, dado que pode demorar diversas barras para ocorrer.
- Gifts são recuos de poucas barras (ou apenas uma) subsequentes ao rompimento, associados ao conceito de barra elefante supracitado. Tipicamente caracterizados por barras pequenas, permitem que o stop e o acionamento sejam posicionados neles, ao invés da barra elefante que o precedeu. A relação extremamente favorável de risco-retorno, proporcionado pelo encurtamento do stop e a inércia que o rompimento produz, dão razão ao significado do seu nome (“presente”, em inglês).
A abordagem de esperar por recuos é uma alternativa de não incorrer ao stop longo das barras grandes que caracterizam um rompimento bem definido, sendo esta a sua principal vantagem. A desvantagem desse tipo de operação é a possibilidade de que os esperados recuos não se materializem. O que, dependendo da impulsividade do movimento, é comum (vide o primeiro exemplo de rompimento de cima, do bitcoin). Nesse cenário, a sua premissa de continuação da trajetória estaria certa, mas você ficaria de fora. Outra desvantagem, inerente à stops curtos, é a sua maior incidência.
Em suma, a decisão de operar rompimentos ou esperar por recuos envolve um trade-off entre tamanho do stop e probabilidade de ficar dentro do movimento. Além de não serem necessariamente excludentes.
Na próxima seção, veremos como os padrões clássicos aprofundam os conceitos apresentados nesse texto, e facilitam a sua identificação.