🤹 3 Trades de Arbitragem Que (Quase) Qualquer Um Pode Fazer
Operações não-direcionais para capturar ineficiências de mercado. Do "cash & carry feijão-com-arroz" a triangulações entre empréstimos de stablecoins.
Arbitragem é um termo nebuloso na indústria em torno do Bitcoin. A grande maioria das pirâmides de que você já ouviu falar provavelmente se propagandeava usando essa buzzword.
Mas por trás dos preconceitos, a arbitragem é uma realidade em qualquer mercado. O termo descreve operações efêmeras voltadas para capturar uma disparidade de preços entre instrumentos financeiros.
Existem desde formas simples de arbitragem (comprar um ativo em um lugar e vendê-lo em outro) até as mais complexas (envolvendo múltiplas transações, ativos e derivativos).
A seguir, descreveremos algumas das mais popularmente praticadas no mercado de cripto.
📅 Basis-Spot (ou Cash & Carry)
Cash & Carry é o nome de um tipo de operação em que se compra um ativo no mercado à vista e se vende o futuro atrelado a ele (ou vice-versa), carregando a posição até expirar o derivativo.
O trade será lucrativo enquanto o preço de compra (à vista) mais o custo de carrego forem menores que o valor do futuro vendido (ou vice-versa).
Especuladores usam essa estratégia para tirar vantagem de diferenças entre o preço de um ativo e o preço de seus futuros. Um contrato futuro sendo negociado acima do valor do ativo à vista diz-se estar em Contango. Um futuro sendo tradado abaixo do preço do ativo à vista diz-se estar em Backwardation.
Vale lembrar que o preço do futuro sempre converge com o preço do ativo à vista conforme se aproxima o vencimento.

Exemplos de um contrato em Contango e outro em Backwardation. Fonte: BitMex
Uma posição proporcionalmente comprada à vista e vendida em um futuro tem exposição neutra a variações de preço do BTC: ganhos em uma ponta compensam as perdas no outro. Se você vende um futuro de BTC em Contango e compra bitcoin à vista, desfazendo as duas pontas na data da expiração do derivativo, embolsa o prêmio sem risco de mercado.
O risco maior é de contraparte: se, no meio tempo, a corretora em que se estiver operando for à bancarrota, a posição inteira (ambas as pontas) podem ir a zero.
Outro risco diz respeito à forma de precificação do contrato (a BitMex usa um índice que depende de 3 outras exchanges) — e as vulnerabilidades que esta expõe para agentes de mercado.
A operação é queridinha de arbitradores em cripto dado o baixo custo de carrego relativo (taxas, custódia) da classe de ativo (a não ser que se esteja usando margem — emprestando dinheiro para alavancar saldo — , caso no qual o carrego incorre juros).
💵 "Arbitrando o Yield" de Cripto-Dólares
Os juros pagos para quem empresta cripto-dólares (stablecoins) são muito maiores que as taxas "do mundo real". Com SELICs e LIBORs rumando a zero no planeta todo, a discrepância chama ainda mais atenção.
Você pode baixar agora mesmo o app da Dharma e depositar dólares sintéticos numa "conta corrente" que rende quase 3% ao ano (em comparação com menos de 1% em qualquer equivalente americana).
De onde vem esses juros? Quem está tomando empréstimos tão caros?
Pois parte da resposta remete ao trade que recém descrevemos.
O mercado ainda é imaturo o suficiente para que ineficiências espalhadas por centenas de exchanges e produtos persistam — gerando fenômenos como o Cash & Carry, que, nos últimos meses, vem retornando dois dígitos anualizados.
Oportunidades de arbitragem como esta catalisam demanda por empréstimos. E uma firma que está embolsando 15 ou 20% a.a. não se importa de tomar cripto-dólares de pequenos investidores pagando 7 ou 8% de yield, quando isso alavanca a munição (e os lucros) dela.
A cadência e magnitude destas arbitragens ainda é maior que a oferta de capital disponível a market markets e arbitradores. Lembre-se que nessa indústria, carregar uma posição dolarizada equivale a estar vendido em bitcoin. Não é todo mundo que se dispõe trocar BTC (ou ETH) por cripto-dólares. e abrir mão do potencial upside em troca de alguns míseros porcento de yield. É por isso que os tomadores precisam oferecer juros generosos.
Pois bem: existem diferentes tipos de dólares tokenizados. Eles mantém a estabilidade relativa de preço através de mecanismos diversos. Por isso, apresentam perfis de risco distintos.

Taxas para tomar e fornecer empréstimos (em diferentes cripto-dólares) na Aave.
Uma arbitragem popular consiste em capturar os spreads entre os juros oferecidos por stablecoins diferentes. Por exemplo, você pode:
- Pegar TUSD emprestados a 1.50% (plataforma: Aave);
- Trocar os TUSD por uma quantia equivalente de BUSD (plataforma: Curve — um AMM focado em stablecoins);
- Emprestar os BUSD a 7.5% (plataforma: Curve — veja como injetar liquidez no protocolo aqui);
- Embolsar o spread entre as taxas!
- Se estiver com o espírito aventureiro atiçado, dá pra ir além. Sua posição (credora) na Curve será representada por um token (Curve LP Token), que pode, ele próprio, ser emprestado em outra plataforma em troca de "uma camada adicional de juros". Mas vamos deixar essa parte pra outra hora.
👉 Veja nosso tutorial em vídeo sobre como usar a Curve aqui:
📹 [Tutorial] Injetando Liquidez na Curve
⛏️ Prêmio da Grayscale
A Grayscale é a maior gestora de BTC do planeta. As cotas de seu principal fundo são negociadas em corretoras americanas quase como se fossem um ETF ou ações. Isto é: pessoas físicas têm acesso fácil a elas.
Já comentamos antes como as cotas costumam ostentar um prêmio em relação ao valor em criptomoedas que de fato representam. Não é um grande problema para o investidor de varejo: o que importa não é o prêmio, mas o delta. Isto é, a variação no prêmio ao longo do tempo.
Hedge funds e mesas de prop trading adoram arbitrar este prêmio. É uma jogada de exposição direcional neutra, e baixíssimo risco de contraparte (a Grayscale é um dos agentes mais severamente regulados da indústria).
Quando o prêmio anda elevado, investidores qualificados podem criar cotas “primárias” (precificadas ao valor dos ativos sob custódia) do fundo, investindo BTC nele; e simultaneamente shortearem a versão publicamente negociada da mesma cota.

Diagrama ilustrando a arbitragem do gBTC.
O gráfico abaixo mostra a lucratividade potencial dessa operação (por dia de abertura), assumindo que a cota pública seja vendida a descoberto, pelo preço de mercado, e que novas cotas sejam criadas (ao valor dos ativos sob custódia) por meio de colocação privada.
Ao shortear a cota pública e longar o valor dos ativos sob custódia, o trader embolsa o prêmio (menos os custos de carrego e taxas).

O cálculo contabiliza os 2% da taxa de administração na posição comprada mais as taxas de juros pelos empréstimos assumidos na ponta vendida (usa-se a taxa média ponderada pelo valor dos empréstimos abertos).
No caso da operação hedgeada, o grande risco é a possibilidade de que, durante esse período, os juros incorridos na posição vendida se voltem contra o operador. Geralmente, eles se mantém baixos — o mercado de lending de cotas se tornou líquido em linha com o crescimento do fundo.
👉 Leia mais no nosso relatório exclusivo sobre a Grayscale:
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