2️⃣ Gerenciamento de Risco e Psicologia
Os 2 pilares de sobrevivência no mercado: aprenda a limitar suas perdas e lidar com seu principal inimigo. Você.
No primeiro jogo hipotético de dados anterior, se fosse apostado 50% do seu capital por rodada, você perderia tudo se caíssem as faces 1, 2 ou 3 por duas vezes seguidas. O que extraímos disso? Uma estratégia vencedora não é suficiente para garantir a sustentabilidade desta atividade. Como veremos a seguir, (1) controle de risco é a única variável capaz de impedir a sua falência no mercado e (2) controle emocional é a única variável capaz de garantir que você execute a sua estratégia como planejado.
Por mais contra-intuitivo que pareça, a estratégia em si é secundária - afinal, há diversas delas na literatura, abertas para qualquer interessado. A maioria das pessoas perdem no mercado pelo mau gerenciamento de risco e por interferências psicológicas.
1. Diversificação
Você provavelmente já deve ter ouvido falar em “nunca colocar os ovos em uma única cesta”. O conceito de diversificação, que embasa esse ditado, é construído na ideia de compor uma carteira com diferentes ativos para mitigar a exposição ao risco idiossincrático (isto é, o risco específico de cada um). Eventos de cauda (ou cisne-negros, como descrito por Nassim Taleb) - como desastres naturais ou atos de terrorismo - acontecem de tempos em tempos e são suficientes para devastar uma carteira concentrada nos ativos diretamente afetados.
Apesar de soar muito simples, a aplicação desse conceito é muitas vezes equivocada. Segundo a teoria moderna de construção de portfólio, a diversificação ótima para cada nível de risco é calculada majoritariamente em função da correlação dos ativos que a compõe - sendo este um fator popularmente negligenciado. Ativos de correlação alta (próximo de 1) são redundantes, compartilham do mesmo risco. Ativos de correlação alta negativa (próximo de -1) anulam os ganhos do outro. Ativos não-correlacionados (próximo de 0) tem a sua variação independente do outro.
Resumidamente, é importante diversificar em ativos de correlação baixa. Para sua “sorte”, se você está lendo isso, você provavelmente já usufrui dessa vantagem em relação aos no-coiners. Afinal, um dos maiores apelos do mercado de criptoativos é a sua baixa correlação com as demais classes de ativos! No entanto, no quesito intramercado, criptoativos são extremamente correlacionadas - razão pela qual a diversificação entre elas é ineficiente.
Agora, com esse conceito em mente, cabe a você aplicá-lo na construção da sua carteira de investimentos, adequada para o seu perfil. Lembre-se que há diversas frentes de diversificação, como (i) entre classes de ativo; (ii) entre diferentes ativos dentro de uma mesma classe; (iii) entre estratégias diferentes; e (iv) entre alocadores diferentes (pessoalmente, ou tercerizando via fundos)
Tenha consciência que aqui estamos tratando de uma fatia específica dela - “operações técnicas em criptoativos”. Delimitar a quantia que será dedicada para esta atividade é uma decisão pessoal sua. Quanto mais iniciante você for, menor é recomendada essa alocação.
2. Stop-loss
Simplificadamente, há quatro resultados possíveis para cada operação realizada – ganhar pouco, ganhar muito, perder pouco e perder muito. O papel do gerenciamento do risco é eliminar o último cenário. Você não pode se permitir perder muito em uma única operação! Essa é a regra fundamental para garantir a sobrevivência no mercado. Para exercer a atividade de trading, é necessário se manter “vivo”.
Lembre-se que, para cada estratégia operacional, há condições específicas de entrada e saída. E que, em sua construção, a ideia sempre é maximizar o lucro nas operações ganhadoras e minimizar o prejuízo nas operações perdedoras. As entradas e saídas, portanto, devem justamente refletir a expectativa de se ganhar muito (o que se manifesta na forma de "alvos") e de não perder muito (o que se evita com "limites de perda").
A maneira mais habitual de estabelecer um limite de perda é através de um “stop-loss” – uma ordem automática que zera uma posição no prejuízo, assim que condições específicas forem acionadas.
Assim, como uma medida de contenção de risco, a conduta habitual de traders profissionais é a de colocar uma ordem de stop em todas as operações realizadas, logo que forem iniciadas.
As táticas mais comuns para posicionamento do stop serão abordadas em outro texto. Como referência, um exemplo simples é o de posicionar no extremo oposto da barra que iniciou a operação (a mínima, para compras; a máxima, para vendas).
3. Position Sizing
O stop é apenas uma das duas variáveis que compõem o gerenciamento de risco. A segunda é o que os norte-americanos chamam de “position sizing”: o tamanho da posição.
Como determinar a quantia alocada por operação? A resposta para essa pergunta é uma consequência da perda financeira máxima que você estará disposto a arriscar. Ou seja, ela é a variável endógena da equação. Enquanto o stop é determinado pela estratégia operacional, o risco é determinado por você.
[ Amplitude do stop * tamanho da posição = risco máximo individual ]
Assim, a pergunta inicial dá lugar a outra: como determinar a perda máxima desejada? Ou ainda, existe uma quantidade ótima?
Em suma, apesar de ser uma decisão pessoal, o capital utilizado por operação precisa ser pequeno o suficiente para acomodar uma sequência de perdas sem que você vá à falência, e que você esteja psicologicamente confortável de aceitar como risco. A quantidade ótima seria o máximo que respeitasse essa regra. Contudo, na prática você não tem como saber a extensão dessa sequência, nem a sua magnitude (sem uma bola de cristal) - apenas uma estimativa dada pelo resultado passado da estratégia operacional empregada.
Neste sentido, uma das abordagens para definir o risco máximo por operação é recorrer aos backtests. Como vimos anteriormente, mesmo estratégias operacionais com expectativa matemática positiva apresentam perdas (não existe 100% de índice de acerto). Vamos assumir que (i) a maior perda acumulada da sua amostra de resultados foi 10 “riscos”, e (ii) o maior prejuízo acumulado foi de 20%. Assim, de um lado (i) a sequência perdedora sugere que você jamais deveria colocar em risco mais de 10% do seu capital inicial para trading por operação (dado que, com 10 stops consecutivos, você iria a falência) e (ii) o prejuízo de 20% administra sua expectativa quanto a maior perda que você eventualmente teria.
Exemplo: Suponha que seu capital dedicado a operações técnicas é de 10 mil reais. Sob esta abordagem, você resolveu colocar em risco 500 reais por operação (que equivale a 5% do “bolo”, dando uma “gordura” em relação aos 10% que o backtest sugeriu). A sua estratégia operacional tem uma política de stop de posicioná-lo na mínima do candle de abertura da posição. Houve um acionamento de compra do ativo X, ao preço de 100 reais por ativo, em uma barra cuja mínima era 96 reais. Assim, qual seria o tamanho da posição?
4% x Tamanho = 500. Tamanho = 12.500 reais.
Uma outra abordagem é definir uma quantia arbitrária. Se servir de referência, Alexander Elder popularizou a regra de estabelecer um teto de 2% do capital (dedicado a trading) como risco por operação. Assim, na hipótese de 10 stops consecutivos, seu capital seria reduzido em 20%.
4. Influências Psicológicas
Até agora, cobrimos os princípios que orientam a tomada de decisão de um analista técnico. Em suma, temos que os únicos objetivos de um trader são (1) estudar estratégias operacionais e (2) executá-las de acordo com o contexto e ativo adequados. A priori, é de se imaginar que o primeiro objetivo seja o mais complicado. Contudo, o que se observa na prática é o oposto - justamente porque a execução envolve o lado emocional.
Apesar de clichê, o componente psicológico talvez seja, para a maioria das pessoas, o maior impeditivo do sucesso como investidor. É preciso ter consciência que a atividade de investir requer um conjunto de características contrárias a impulsos primazes da natureza humana. Por esta razão, frieza é considerada uma qualidade pessoal imprescindível neste meio: a habilidade de identificar e bloquear interferências emocionais na sua conduta, diante de reações psicológicas provocadas por movimentos nos preços (e no seu bolso).
Você já deve ter ouvido falar que o segredo para se ganhar no mercado é comprar na baixa e vender na alta. Parece fácil, não? O bitcoin caiu mais de 70% de sua respectiva máxima histórica em 4 ocasiões desde a sua existência. As principais bolsas mundiais, caem 20% com relativa frequência. Quantas pessoas compram nesses períodos? Quantas vendem? Nosso cérebro é condicionado a fugir de situações de perigo. Adivinha os sinais que essas quedas provocam no corpo....
Por mais simples e intuitivo que seja a conduta de comprar quedas, a maioria das pessoas simplesmente não consegue colocá-la em prática. O som do canhão é muito alto. Neste sentido, é popular o conceito de que a força mais poderosa do mercado é o medo. Este que, de um lado, motiva as pessoas a venderem posições em períodos de forte queda, e explica o porquê tais movimentos são geralmente mais íngremes que sua contraparte. Por outro, motiva-as a comprar depois de uma forte alta, pelo medo de ficar de fora (“FOMO - Fear of Missing Out”).
Resultado? Compram o topo, vendem o fundo. Repetem até esgotar o dinheiro e saem revoltadas do mercado.
Finanças comportamentais é um campo da economia moderna dedicada a estudar a influência da psicologia no processo de decisões financeiras. Anedotas e narrativas como a do poder do medo, que eram a norma diante de uma evidência avassaladora de comportamentos irracionais generalizados nos mercados, tornaram-se ciência.
A “Teoria da Prospecção” de Daniel Kahneman é considerada o maior marco desta transição na abordagem do tema, e propulsor desta área de estudo. A obra sintetiza décadas de observações empíricas e inferências a respeito do comportamento humano no mercado financeiro, de modo que rendeu um Nobel de economia ao autor. Em especial, pelo embate que colocou para as principais teorias econômicas da época, em que era habitual assumir racionalidade das pessoas como premissa.
Talvez a maior contribuição da teoria seja a introdução do conceito de aversão à perda, capaz de explicar um fenômeno muito debatido na literatura: a disposição dos investidores em segurar posições perdedoras em detrimento às ganhadoras, conhecido como “Disposition Effect”.
Resumidamente, o conceito propõe que as pessoas atribuem maior valor a perdas do que a ganhos - a função de utilidade para prejuízos é convexa e mais íngreme do que para lucros. Em outras palavras, perdas provocam um impacto emocional de dor maior do que o de satisfação em ganhos, para a mesma quantidade financeira. Desta forma, investidores têm maior propensão a risco em posições com prejuízo, na esperança de que volte para o lucro.
Analogamente, a possibilidade de uma posição ganhadora se tornar perdedora faz com que investidores tenham uma propensão menor a risco em posições no lucro. Em ambos, a tomada de decisão é motivada pela tentativa de eliminar uma perda, mesmo que o resultado não seja financeiramente racional.
A aversão à perda, assim, sobrepõe a popular aversão ao risco: o risco é aceitável quando se busca evitar a perda.
Qual o paralelo com o que postamos anteriormente? A aversão à perda reforça a necessidade de stops em todas as operações, e determina as estratégias operacionais adequadas ao seu perfil. Lembre-se que o principal comprometimento de estratégias com payoff alto é um menor índice de acerto - ou seja, uma frequência maior de perdas. É preciso suportá-las. O objetivo do stop é eliminar cedo as posições perdedoras. O objetivo do alvo e da política de saída de posições é garantir que você não saia precocemente das posições vencedoras. Essas são as ferramentas que previnem o Disposition Effect.
A literatura atual é repleta de novas teorias e evidências científicas de outros comportamentos irracionais, cujo detalhamento mereceria centenas de páginas. A mensagem principal que queremos passar é que o descontrole emocional é comprovadamente um obstáculo que deve ser superado para ter sucesso nessa profissão. Como iniciante, essa tarefa é excepcionalmente difícil.
A opção por estratégias sistemáticas possui o apelo de forçar uma disciplina de execução, por não dar espaço para subjetividade. Em contrapartida, a discricionariedade em estratégias viabiliza influências emocionais. Escolha com consciência.
5. Expectativas
Finalmente, finalizamos o tópico com um aspecto psicológico secundário, mas que merece devida atenção: a administração das expectativas. Uma pessoa que adentra a atividade de trading para enriquecer rapidamente e facilmente deverá quebrar a conta. Apesar de ganhar muito dinheiro em pouco tempo ser possível, isto será às custas de um risco excepcionalmente elevado. A proporção dos que são capazes de fazer isso com sucesso e os que faliram no caminho devem ser próximas às de se ganhar na Mega Sena. O mercado remunera os pacientes, os estudiosos e os equilibrados.
- A mentalidade correta é começar essa atividade com muita cautela.
- Procurar abstrair o máximo de informação e realizar testes por conta própria.
- Desenvolver uma estratégia vencedora adequada para o seu perfil e executá-la com maestria.
- Monitorá-la e otimizá-la com frequência.
- Aumentar o risco por operação conforme ganhar experiência, e consistência.
- Aprender com os erros.
- Reconhecer suas fraquezas emocionais e aprender a lidar com elas.
- Lembrar-se que o mercado pune sem piedade.
Uma fortuna acumulada em anos por ser eliminada em um dia.
Como descrito pelo #5 axioma de Zurique, o mercado é essencialmente um caos. Respeite a sua imprevisibilidade. Não caia na ilusão de que existe ordem. Estudar melhora suas chances de sucesso, mas saiba que você ainda está lidando com o caos, em um ambiente extremamente competitivo, contra as melhores cabeças do mundo. Você não tem o poderio e as informações das grandes instituições. O emprego de uma estratégia rentável com perfeição pode não ser suficiente. Não há nada garantido.
Se você estiver preparado para lidar com isso, seja BEM-VINDO.
Na próxima seção, entenderemos o que os caixotes encontrados nos gráficos representam, assim como técnicas que essa ferramenta permite.